Diogo Marreiros, Martyn Dias, Ricardo Esteves e Andreia Canha, todos excelentes atletas regionais do Algarve ficam de fora da convocatória para o Mundial, no próximo dia 11 de novembro, em Taipé, na China. Ao invés, a FPP convocou a atleta Daniela Rodrigues, que «arrumou os patins» após o Europeu de julho na Áustria, não treinando, nem competindo, nos nacionais, nem em torneios, desde então. Rui Manuel Mateus, presidente do Roller de Lagos, um dos clubes liderantes da velocidade em Portugal, explica caso ao «barlavento». «A nossa preocupação não é apenas os atletas do Roller de Lagos que não foram convocados. Mas todos os atletas de excelência que ficaram de fora», garante.
Em 2009, a primeira medalha mundial de um patinador português foi conquistada por Martyn Dias, bronze no mundial de juniores na China.
Em 2014 houve mais dois grandes e inéditos feitos, as medalhas de bronze, em estafetas, no Europeu e depois no Mundial, através de Diogo Marreiros, Martyn Dias e Ricardo Esteves. Agora, não podem defender os seus títulos na China porque não foram convocados.
Rui Mateus destaca ainda o caso da patinadora individual, Andreia Canha, que obteve o 4º lugar na maratona do Europeu de julho de 2015, a 34 centésimos da medalha de bronze e a 90 centésimos do título em disputa, que também não foi convocada.
«Já viu, é uma atleta que depois de 42 quilómetros, junto aos primeiros, perde por uma distância de apenas um metro. E agora não merece ir» competir em Taipé?
Segundo Rui Mateus, os clubes estão «aborrecidos» porque «não existem critérios objetivos de convocatória para a seleção».
Ou melhor, «sabemos que a FPP estabeleceu como critério convocar para o Mundial os atletas que têm medalhas no Europeu. Isto tem o seu sentido, mas não abrange tudo. Faria sentido se tivesse acoplado, por exemplo, uma questão de mínimos».
Ainda assim, «sabe qual é a diferença de tempo entre o 1º o 3º lugar do Campeonato Mundial de Estafetas? São dez décimas de segundo! Este ano, esta mesma equipa que ganhou a medalha de bronze do Campeonato do Mundo de 2014, com o atleta David Pedro em lugar do Diogo Marreiros que estava lesionado, ficou em 4º lugar. As medalhas foram atribuídas pelo video finish».
Um desporto a dois tempos
«Infelizmente a nossa Federação tem sido redutora. A patinagem de velocidade existe em Portugal a dois tempos: um é o dos clubes que nos últimos anos tiveram um progresso fantástico, fazendo grandes melhoramentos técnicos. Houve também vários investimentos das autarquias na construção de pistas, não só no Algarve, mas em todo o país», desde 2005.
«O que interessa é que os clubes evoluíram e temos tido, em termos de seleção, as melhores prestações. Portugal ao longo dos últimos 10 anos, é quase raro o Campeonato da Europa, tanto em termos de Juniores, Seniores e Cadetes em que não traga excelentes resultados. E já não é apenas ficar em 4º ou em 5º lugar. Temos Campeões Europeus, medalhados quer em Estafeta, Velocidade, Individual. Os portugueses começam a ser olhados no circuito mundial com mais atenção. Em contrapartida, a Federação não tem acompanhado o progresso, continua na mesma pasmaceira», critica este antigo guarda-redes de hóquei. «A organização das competições e dos campeonatos continua completamente deficiente e mal estruturada, o equipamento de ajuizamento e cronometragem é uma coisa do século passado», critica.
Há dinheiro e há atletas
«O que revolta mais os clubes é que a Federação assinou um contrato-programa de desenvolvimento desportivo com o IPDJ» a 26 de março. Nesse âmbito, a FPP «contratou uma representação de Portugal no Campeonato da Europa com 33 patinadores… e levou 15, em julho».
O mesmo documento prevê para «este Campeonato Mundial de Patinagem de Velocidade, uma representação com nove patinadores e três acompanhantes (técnico, dirigente e fisioterapeuta), com objetivo de alcançar os cinco primeiros lugares em Seniores e em Juniores». No entanto, apenas convocou uma atleta, que já abandonou a modalidade.
No total, o Estado entregou um milhão e quatrocentos mil euros à FPP, no qual consta uma verba de 34 mil euros para participação em Taipé.
«Se não houvesse dinheiro, poderíamos ter dúvidas, mas está no papel. Se o dinheiro está orçamentado, e se temos os atletas porque é que não os levamos? É uma pergunta simples», interroga o presidente do Roller de Lagos.
«E são todos atletas dos melhores da Europa! Estão entre os cinco primeiros em todas as provas que disputam. Estamos a brincar com seu esforço? Um atleta faz todos os sacríficos na vida, ultrapassa lesões, desalentos, desilusões, para agora lhe ser impedida a participação numa competição que é sua, que merece disputar, envergar a camisola?», questiona.
Protesto assinado
Apesar de ser subscrito pela maioria dos clubes, o documento que denuncia esta situação, ao qual o «barlavento» teve acesso é assinado pelo professor Paulo Batista, treinador do Roller Lagos. Rui Mateus, presidente do clube lacobrigense, explica: «Os clubes de forma institucional não podem, nem devem andar na converseta. Fizeram o que tinham a fazer e enviaram a sua discórdia em carta registada à FPP». O comunicado «é apoiado por todos, mas é subscrito pelo treinador dos principais atletas. Eu diria que o Paulo Batista é dos principais responsáveis pelo desenvolvimento desta modalidade em Portugal. Se houve alguém que acreditava que podíamos ter resultados, foi ele. Incentivou os técnicos e os atletas do seu e dos outros clubes a serem cada vez melhores. E corajosamente aceitou dar o corpo às balas, protegendo os atletas e os clubes. Assumiu a ser o porta-voz de toda esta indignação enquanto os clubes continuam a trabalhar de forma metódica e organizada», elogiou. «Se tudo correr mal, como esperamos, na próxima semana vamos convocar uma conferência de imprensa para mostrar que clubes, técnicos e atletas estão contra a Federação».
O «barlavento» contactou a porta-voz da Federação Portuguesa de Patinagem, Marina Alves, para responder às acusações. No limite do fecho desta edição, na terça-feira, 27 de outubro, esta fonte comunicou que a Federação prefere não responder até ler o presente artigo.