José Veloso | Arquiteto
Marcelo Rebelo de Sousa, eleito novo Presidente da República Portuguesa, é oriundo, apoiante e praticante dos valores dos sectores de direita do espectro político português. Ficará agora, em primeira instância, sujeito ao escrutínio sobre a prática do primeiro juramento a que se vai obrigar: o de cumprir e fazer cumprir a Constituição da República, que deve ser a essência e permanente referência, sem reservas, no exercício do mandato do Presidente da República, algo que as políticas de direita sempre têm desrespeitado e tentado subverter. Todavia, é certamente expetativa do povo português que o novo Presidente da República saiba honrar o seu juramento, pelo que é difícil de perceber a razão pela qual preferiu omitir tão decisivo compromisso, na sábia e eficaz demagogia de circunstância do seu discurso de vitória eleitoral.
Dália Paulo | Chefe de Divisão na Câmara Municipal de Loulé
O mediatismo televisivo e a apatia do povo, que indiferente e descrente ficou em casa, são as duas notas mais fortes dos resultados eleitorais, refletindo a sociedade que somos. Uma sociedade do espetáculo que (ainda) prefere a fumaça da representação ao conteúdo. Veja-se o incrível resultado de Vitorino Silva e a eleição à primeira volta de Marcelo Rebelo de Sousa. Estas eleições abriram novas formas de participação na sociedade portuguesa; a candidatura de Sampaio da Nóvoa mostra que o tempo das causas e da cidadania veio para ficar e que depende de nós a construção do nosso tempo. Marisa Matias surpreendeu. Maria de Belém perdeu. Edgar Silva fragilizou o PCP. Resultados que se refletirão certamente no atual quadro governativo. Desejo serenidade aos intervenientes e um bom desempenho ao Presidente da República eleito.
Pedro Lopes | Administrador grupo Pestana
Já temos o novo Presidente da Republica eleito logo à primeira volta. Um cidadão que já foi líder partidário, que foi muitos anos comentador televisivo, onde granjeou grande respeito em toda a população. Venceu logo à primeira volta, limpinho. Não foi preciso gastar muito dinheiro para ganhar. Foi possível vencer sem o apoio das máquinas partidárias. E mostrou que é possível vencer e ser verdadeiramente independente de partidos e lobbies. E agora? Temos que continuar a aprender a viver do que produzimos, e gastar em despesa pública apenas o que cobramos em impostos. O nosso Estado tem funções e deveres fundamentais e insubstituíveis. Mas só pode gastar o que ganha. Há que fazer escolhas, por vezes muito difíceis. Continuar a pedir todos os anos dinheiro emprestado, mais e mais, leva sempre ao desastre. Ontem, hoje e amanhã.
Teresa Fernandes | Responsável de Comunicação da Águas do Algarve, S.A.
Em meu entender esta foi uma corrida às presidenciais já com um resultado final muito previsível. Para além da notória melhor preparação deste candidato relativamente aos restantes, Marcelo era desde há algum tempo, um elemento familiar de todos os portugueses, captando a nossa atenção para aquelas que eram as suas opiniões, e que de alguma forma, viriam a esclarecer as dúvidas do público em diversas matérias da atualidade. Sem quaisquer dúvidas, o seu papel enquanto comentador num dos telejornais mais vistos no país, foi decisivo para esta vitória, não obstante todas as suas outras reconhecidas qualidades. Ficam os sinceros parabéns e ensejos de que esta vitória oriente o país num novo rumo, com a esperança num futuro melhor, bafejado pela prosperidade e crescimento económico que sejam objetivos atingidos no final do mandato!
Elidérico Viegas | Presidente da AHETA
O distanciamento dos portugueses da vida política e dos políticos, consubstanciada numa progressiva e cada vez mais elevada abstenção, desacredita as instituições democráticas e retira credibilidade aos eleitos. Neste contexto, e apesar da legitimidade do próximo Presidente da República não estar em causa, o facto de o mesmo ter sido escolhido por menos de metade dos portugueses, evidencia fraquezas de regime que não podem, nem devem continuar a ser ignoradas. O overbooking de candidatos não chegou para mobilizar o eleitorado, nem veiculou mensagens motivadoras para recuperar a «Fé» há muito perdida. É de realçar a confrangedora falta de experiência política da maioria dos concorrentes. As reformas do sistema político não podem ser mais adiadas, sob pena de, num futuro próximo, os políticos, em nome do povo, se elegerem uns aos outros.
Miriam Tavares | Professora na Universidade do Algarve
A experiência de liberdade é aterradora para a maior parte das pessoas. Porque ser livre é ser responsável por si mesmo. É não ter ninguém, nem um deus, para culpar por tudo aquilo que não fizemos bem, ou que não funcionou. Para mim, é essa a explicação plausível para o nível absurdo e inadmissível de abstenções. Eleger um Presidente é um direito democrático e que, a maior parte de nós, não usa ou usa mal. É mais fácil sermos um país de queixinhas, do que assumirmos, com o nosso voto, a responsabilidade que daí advém. É mais fácil acovardar-se e deixar que decidam por nós. Ou não fazer nada por acreditar que não há mesmo nada a fazer. Lamento profundamente, não apenas o resultado das eleições, que ficou decidido na primeira volta, mas lamento ainda mais a covardia de muitos que renegam e que desprezam o direito constitucional de decidir democraticamente o seu representante.
José Vitorino | Presidente da União pelo Futuro do Algarve
Em primeiro lugar, votos de parabéns para o novo Presidente da República, num misto de vitória pessoal e das áreas políticas cujos partidos o voto nele recomendaram. Foi uma eleição limpa e indiscutível do candidato melhor preparado, com uma legitimidade absoluta e em todos os círculos eleitorais. Os candidatos verdadeiramente independentes tiveram beijos e abraços, mas muito poucos votos. O mais votado com 3,3 por cento, Vitorino Silva, foi a surpresa, recebendo sobretudo votos de protesto na classe política. Um povo desiludido e revoltado pouco votou, porque se sente mal e não vê futuro. Perante o estado calamitoso a que o Estado chegou, a tarefa do novo Presidente é ciclópica. Tem que unir a participação de todos e guiar-nos a horizontes de esperança. Presentes, esperamos que assim seja!
Luísa Monteiro | Escritora
Sófocles não deixaria de fazer uma tragédia a partir destas eleições. Há um novo sentimento edipiano: já não importa ocupar o trono do rei morto, antes entreter a Esfinge, enquanto Tebas apodrece. Nenhum candidato apresentou soluções ao mal de Tebas e todos deram tiros nos próprios pés. Oedipus (do grego, “pés furados”) Rex entrará numa Tebas doente, fechada, desinteressada quanto ao destino da própria Pólis; mas a Esfinge riu das tabuletas de Tino, das subvenções de Belém que Marisa agora não deve rejeitar no alto dos seus 5% de votos, do preconceito teatral de Nóvoa… a Esfinge gosta é de festa e quer lá saber se muralhas adentro a peste fede. Tirésias diagnosticou ignorância; como vidente, o cego vai estar atento ao rei antes do suicídio de Jocasta. Estas foram as eleições das televisões e não dos portugueses. Esperemos que Marcelo faça o que tem a fazer com o alfinete da «mãe».







