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Urge conhecer o que há 423 anos poderia hoje ser objeto de estudo e exposição no Algarve.

Não sendo a primeira vez que reforçamos a importância de reconhecer a Biblioteca de D. Fernão Martins Mascarenhas, Bispo do Algarve, o estado atual dos nossos conhecimentos indicia-nos que, em breve, poderemos resolver um problema antigo que já poderia ter sido solucionado.

Os últimos contactos com a Bodleian Library, em Oxford, permite-nos salientar que, a totalidade de livros encadernados com as suas Armas heráldicas, não serão 65 livros correspondentes a 60 autores, mas 66 obras de 61 autores. Muitas estão dispersas, embora ainda não saibamos se no todo, ou em parte.

Obra de Pedro Guerra de Lorca com o título «Catecheses mystagogicae pro aduenis ex secta Mahometana. Ad parochos, & potestates» impresso em Madrid no ano de 1586. Dimensões: 210 mm x 150 mm. Encadernação em couro com aplicação de quatro golfinhos em ouro. Ao centro, as Armas de D. Fernão Martins Mascarenhas. Trata-se de uma obra sobre a conversão dos mouros. Este título não consta no inventário de K.M.Pogson (1922).

O que é facto é que ao longo de mais de três décadas têm sido publicados artigos em revistas municipais e jornais, sobre esta coleção, sendo a mesma apenas conhecida através de um inventário de 1922 da autoria de K.M. Pogson, com o título «A Grand Inquisitor and his library».

A constatação de existir mais uma obra encadernada com as Armas de D. Fernão Martins Mascarenhas que não vem referida no inventário de 1922 é uma novidade. Trata-se da única obra de Pedro Guerra de Lorca com o título «Catecheses mystagogicae pro aduenis ex secta Mahometana. Ad parochos, & potestates», datada de 1586, sobre a conversão dos mouros.

Como se poderá depreender, não temos a certeza se o Bispo do Algarve era detentor de apenas 66 obras encadernadas ou se, existirão muitas outras, pois, como salientámos, o citado inventário do século XX está incompleto.

Destaca-se ainda a entrada do primeiro manuscrito, em língua portuguesa, como parte integrante da Bodleian Library, que possui mais de 200 folhas, com dedicatória do seu autor, António Pereira, a D. Fernão Martins Mascarenhas.

Um dos objetivos da expedição que me proponho a realizar, é digitalizar o manuscrito de António Pereira para que possa ficar no Algarve, reconhecido como a primeira obra manuscrita da Bodleian Library.

Aliás, após a localização, observação e estudo de todas as obras com a heráldica do Bispo D. Fernão Martins Mascarenhas, poderão ser criadas condições de autorização para que algumas possam vir a constituir, por exemplo, uma exposição itinerante (e temporária) a realizar no Algarve, sobretudo nas localidades onde a ação do Bispo se fez sentir.

Guilhermus Alvermus Parisiensis, Opera. Esta obra foi publicada na Alemanha, na tipografia de Georg Stucks, Nuremberga, em inícios de abril de 1496 (folio). Raridade a nível internacional.

D. Fernão Martins Mascarenhas legou-nos um conjunto de bens patrimoniais como o Colégio de Santiago Maior, em Faro.

Participou na obra de ampliação do Convento de Nossa Senhora do Carmo e foi mediador entre o Rei Filipe II e a Câmara Municipal de Lagos na construção do Convento da Trindade.

Em 1614, concretizou a desanexação de Quelfes da freguesia de São Pedro de Faro, para constituir uma nova, e nesta ficou incluído o Sítio ou Logar do Olham (Olhão).

Em Portimão fundou um Colégio para o ensino das Humanidades, à responsabilidade dos jesuítas. Em 1598 elevou a freguesia São Brás de Alportel.

No ano de 1606, os frades Paulistas tendo deixado a sua Ermida (hoje designada por Senhora da Saúde) iniciaram a sua instalação E a Ermida de Nossa Senhora da Ajuda, a qual viriam a fundar, no ano de 1607, após a transformarem em Igreja de São Paulo, no Convento dos Capuchos da Piedade de Tavira.

Conhecer a importância da biblioteca do Bispo será, no mínimo, um valor acrescentado à sua notabilidade enquanto agente do desenvolvimento e enriquecimento dessas localidades nos séculos XVI e XVI.

Os apoios das autarquias destes concelhos deverá ser algo que os respetivos autarcas não poderão deixar passar em branco quando solicitados a colaborar para o esforço financeiro deste projeto, onde não só a sociedade civil participa, mas também entidades oficiais.

Retrato (Quadro a óleo) de D. Fernão Martins Mascarenhas enquanto Reitor da Universidade de Coimbra (1586-1594).

Importância para a cultura regional algarvia

Quando entrou na Diocese do Algarve, D. Fernão Martins Mascarenhas era portador de um conjunto de livros que, no seu tempo, eram considerados a excelência dos bibliógrafos.

Tornou-se na mais famosa coleção particular de um português.

Algumas obras terão provindo de visitações que a Inquisição fazia no país e no então Reino do Algarve. Embora, nos 22 anos em que esteve à frente da Diocese, não se conhecem perseguições a cristãos-novos e a judeus, além dos autos levantados pelo seu predecessor.

D. Fernão Martins Mascarenhas, nobre por nascimento, no seu percurso tornou-se Mestre em Artes pela Universidade de Évora; Reitor da Universidade de Coimbra, Bispo da Diocese do Algarve e Inquisidor-Geral (entre os reinados de D. Filipe I e D. Filipe III de Portugal). Em toda a História de Portugal conhecemos poucas personalidades com estes atributos.

O saque da sua livraria foi notícia junto de D. Filipe II e do Papa Clemente VIII, em 1604.

O conjunto de 66 obras (91 volumes) encadernadas com as suas Armas (heráldica de domínio eclesiástico) entre os mais de 200 livros levados para Oxford em 1596, quando da entrada, na cidade de Faro, de Robert Devereux, 2º Conde de Essex, considerado o «favorito» da rainha Isabel I de Inglaterra, fizeram parte do primeiro núcleo que deu entrada na Bodleian Library em 1605.

Os seus livros ao irem, da forma como foram, para o estrangeiro, poderiam ter ficado em Faro quando se despediu das suas funções de Bispo, a 4 de julho de 1616.
É verdade que entretanto poderiam ter sido levados para Lisboa, mas alguns poderiam também ter ficado em Faro.

Hoje seriam parte integrante da Biblioteca Diocesana; do Arquivo da Sé ou até da atual Biblioteca Municipal ou do Arquivo Distrital de Faro, onde apenas se conhece uma carta em pública-forma, dirigida à autarquia farense, datada de 1596, pedindo o acolhimento de náufragos turcos.

O principal objetivo da viagem é conhecer uma das mais famosas bibliotecas particulares dos séculos XVI a XVI, saqueada de Faro em 1596 por Robert Devereux, encontrando-se a mesma hoje em Oxford, Reino Unido. Do conjunto dos livros conhecidos (66 livros de 61 autores) tentar digitalizar três: dois incunábulos do século XV; um manuscrito em língua portuguesa datado de 1596, o qual foi o primeiro a constituir o Fundo Documental da Bodleian Library, e a única obra editada de Pedro Guerra de Lorca, datada de 1586. Constituindo este espólio um dos mais importantes conjuntos de livros para a cultura do Algarve e de Portugal, em breve, será aberta uma conta de crowdfunding para angariação de donativos para financiar a expedição Faro – Oxford.

Importância para a cultura europeia

Das poucas bibliotecas particulares que hoje temos conhecimento terem existido para os séculos XVI e XVII, a de D. Fernão Martins Mascarenhas não pode ser esquecida, pois, não nos tendo deixado um inventário (o que seria importante para sabermos que obras possuía ao momento do saque de Faro), sabemos, contudo, do seu valor não só pelo pela publicação do inventário datado de 1922, como também pelas leituras que podemos fazer ao ler trabalhos de estudiosos ingleses que as mencionam.

Não esqueçamos que este antes do saque a Faro em 1596, Robert Devereux veio de Cádis e também terá sido portador de livros saqueados dessa cidade.

No entanto, o conjunto de livros do prelado português contribuiu para o início da constituição da Bodleian Library, sendo uma das maiores personalidades do seu tempo integrada num complexo contexto sociopolítico e religioso dos finais do século XVI e anos 20 do século XVII.

Brasão de Armas do Bispo do Algarve, D. Fernão Martins Mascarenhas.

Conhecer os livros que leu e que terão contribuído para um conjunto de tomadas de decisão que influenciaram a História de Portugal, constitui uma prerrogativa daqueles que pretendem entrar no domínio do conhecimento das biografias das personalidades que mais se destacaram na historiografia portuguesa.

Não esqueçamos que alguns destes livros, pela tiragem limitada, tipografia que os imprimiu, entre outros aspetos, são muito difíceis de encontrar. A existência de dois incunábulos do século XV e de um manuscrito em língua portuguesa (o primeiro a entrar na Bodleian Library ) da autoria de António Pereira, com uma dedicatória a D. Fernão Martins Mascarenhas, não é algo que possa passar despercebido.

Para termos uma noção da quantidade de incunábulos existentes em todo o mundo (incluindo várias edições da mesma obra), os elementos de que dispomos indicam o número de 30 mil. Na Biblioteca Nacional de Portugal, temos conhecimento de 1500. Na Bodleian Library existem 7000 exemplares.

Objetivos e motivação da expedição Faro – Oxford

Embora não sendo raro para o todo nacional nos séculos XVI a XVII, pela primeira vez, ficaremos a conhecer a constituição de uma biblioteca algarvia com encadernação própria e identitária, não bastasse a raridade de algumas das obras e o eventual comentário (ou reflexões) por parte do seu proprietário com assinatura sua que poderemos vir a encontrar.

Com as condições tecnológicas atuais, todos esses 66 livros encadernados (ou mais) deverão ser digitalizados ao nível das respetivas capas ou frontispícios. Para termos uma noção dos custos, apenas o manuscrito de António Pereira tem 200 folhas.

Este é um trabalho que deve ser espaçado no tempo, pois em primeiro lugar é necessário localizar as obras, observá-las, e realizar uma verdadeira compilação das mesmas.

Seguir-se-á a digitalização (incluindo os respetivos frontispícios daquelas que não possam ser mostradas em Portugal) e, finalmente, as devidas autorizações legais que possam fazer parte de uma exposição no Algarve.

Esse será o nosso trabalho futuro.

Na verdade, há cerca de três anos, chamámos a atenção aos interessados (sobretudo aos potenciais financiadores deste projeto de expedição, tendo obtido resposta apenas de duas entidades, num conjunto de 16 municípios e de uma dezena de Juntas de Freguesia).

Entendemos por isso, reforçar, aqui e agora, a importância deste projeto para a região, noticíado pela primeira vez neste jornal.

Não pensamos que haja falta de sensibilidade, apenas diremos que o Algarve não pode desperdiçar uma oportunidade que, a médio prazo, lhe traria diversos dividendos, entre os quais a notoriedade de saber preservar o que lhe diz respeito, além de estar a contribuir a valorização do património bibliográfico dos séculos XVI e XVII.

Pela nossa parte estamos disponíveis para que isso possa vir acontecer.