O que tem uma passadeira em comum com um partido político? Ambos reaparecem nas ruas dos nossos municípios de quatro em quatro anos.
E quanto mais nos aproximamos do dia 12 de outubro, mais vemos um aumento nas obras públicas, nas visitas aos bairros e associações, nos cartazes nas rotundas e restante poluição visual política… assim como uma proliferação de peritos sediados em cafés e seções de comentários.
Em Faro, a cidade onde vivo, trabalho e sobrevivo, é palpável a sensação que os eleitores e eleitoras têm mais convicção acerca do que não querem para tomar o leme da cidade, ao invés de acreditar ferventemente na existência de soluções credíveis e viáveis.
Dada a minha proximidade pessoal e emocional a muitos dos/as protagonistas que antagonicamente disputam por uma oportunidade de moldar Faro às suas visões, abstenho-me de qualquer tipo de leitura detalhada acerca dos mesmos.
Porém, este meu posicionamento não implica que tenha de abdicar da minha voz – usando-a assim para realçar a força política mais relevante e importante em jogo: o cidadão e cidadã individual.
O patrão sou eu!
Tenho reparado numa certa lógica de contrariedade acerca da percepção do papel dos/as políticos/as e do/as cidadãos/ãs; em que os segundos assumem uma total transferência de responsabilidades para os primeiros a partir de o momento em que o voto entra na urna.
Tendo noção que esta linha de pensamento pode ser facilmente distorcida, antes de prosseguir, quero reforçar o óbvio: se os políticos são eleitos e pagos para fazer esse trabalho, é normal que haja uma transferência de responsabilidade, até certo ponto. Compreendo também que os eleitores/as têm vidas complexas que não permitem uma microgestão e escrutínio detalhado de tudo o que se passa dentro de uma Câmara Municipal ou Junta de Freguesia.
Mas, com isto em mente, recuso-me também a aceitar a inexistência de um meio-termo entre os extremos de ter todos/as os cidadãos/ãs sentados no escritório das pessoas eleitas, e o total desapego durante quatros anos até à próxima eleição.
Se encararmos o voto como um ato de contratação, e a campanha política como uma entrevista de emprego… rapidamente chegamos à conclusão de que o Patrão somos nós.
«Patrão fora, dia santo na loja»
Não sou o maior adepto de banalidades de cariz relativamente conservador, mas neste caso creio que o ditado acima encapsula muita da lógica relacional entre governantes locais e eleitores/as.
Num contexto laboral, a entidade patronal nem sempre se debruça sobre todas as tarefas e microtarefas dos seus colaboradores, mas uma presença assídua da liderança (gestores, chefes de divisão, etc.) assegura alguma qualidade e continuidade no trabalho – nem que seja em caso de dúvidas, aconselhamento, ou mediação de conflitos.
Esta analogia estendida a um executivo autárquico apela a uma interação e presença maior, e continuada, por parte de quem os elegeu. Nós, votantes, podemos não assinar papelada, mas somos os principais afetados pelas decisões que não monitorizamos.
Ao nosso dispor temos todo um conjunto de ferramentas para esse fim, das quais enumerarei apenas as mais obvias:
- Assembleias Municipais;
- Manifestações;
- Jornalismo;
- Ativismo civil;
- Redes Sociais.
- Assembleia Municipal
Assembleias Municipais
As Assembleias Municipais (AM) são espaços de deliberação política, tomada de decisões, e de cariz público. Isto quer dizer que, além de todas as competências e obrigações associadas com a AM, a participação por parte do público geral é um direito dos Munícipes.
A participação na Assembleia Municipal é uma ferramenta crucial para a exposição de problemas ou opiniões, pedidos de esclarecimento, ou confronto (diplomático e civilizado) de incongruências para com os responsáveis.
É uma também uma sala de reuniões onde o patrão (os/as votantes) não se encontra consistentemente presente na integra.
Manifestações
Nem sempre a via formal é sinónimo de eficácia. E como tal, por vezes a arena do debate e pedido de esclarecimentos não é a mais apropriada; devido exatamente à sua diplomacia inerente e falta de impacto e alcance. Nestes casos, trazer visibilidade e angariar apoio além das pessoas que já estão sensibilizadas é um passo crucial.
Quando organizados corretamente, atos de protesto conseguem elevar o debate para novos patamares, tanto moral como numericamente. Por outro lado, nos piores casos, este tipo de manifestações corre o risco de descredibilizar toda uma problemática, fazendo muito mais mal que bem, e aumentando o distanciamento entre os decisores políticos e todos aqueles que sentem as consequências das suas decisões.
Porém, se os canais apropriados não respeitam o desconforto, sofrimento ou luta de alguém, é sempre legitimo trazer esse mesmo desconforto para as ruas, e com o mesmo abrir forçosamente as portas da humanização de problemas reais.
Os líderes eleitos -sejam eles locais, regionais, nacionais ou internacionais- têm a obrigação de se preocupar com as vidas com que se comprometeram a cuidar, através de uma gestão justa e inteligente dos recursos coletivos depositados em suas mãos.
Jornalismo
Independentemente de uma análise mais aprofundada acerca da saúde do jornalismo, o mesmo continua a ser uma fonte de credibilidade, e de consciencialização. Mesmo com todos os ataques e tentativas de desmantelamento desta indústria e pilar democrático, o impacto notável do jornalismo continua a ser palpável.
Como tal, esta ferramenta pode ser central na responsabilização daqueles que nos deveriam de servir. O papel de canalização das vozes no terreno, de forma institucional e disseminadora, significa que além do simbolismo de atos de protesto, os profissionais da comunicação social podem expor a mensagem, e, em simultâneo, exigir respostas a quem de direito.
Acrescendo à força institucional do jornalismo, a capacidade adicional que a maioria dos/as cidadãos/ãs têm para contribuir com conteúdos, como a captação de imagens e testemunhos na primeira pessoa e em tempo real; predominantemente através de smartphones.
Ativismo civil
As carências sociais e materiais que vemos no dia-a-dia dos nossos municípios são problemas que, moral ou legalmente, são da responsabilidade de quem nos governa (local, regional, nacional e internacionalmente).
Na prática, os políticos que elegemos deveriam ser excelentes gestores dos recursos que nos pertencem a todos.
A manutenção do espaço público, a resposta a problemas materiais, a coesão social e territorial, o acesso à educação/habitação/saúde, o desenvolvimento cultural, e muito mais…
São campos que, de uma forma ou de outra, deveriam estar no radar de quem cuida de todos – com o que é de todos.
Num mundo perfeito as obrigações corresponderiam a ações – mas o mundo está tão longe de ser perfeito… E uma forma não tão aparente de responsabilizar quem está em posições de poder, é através do exemplo.
Claro que cidadãos/ãs individuais carecem dos mesmos recursos de uma Câmara Municipal ou Junta de Freguesia, mas isso não implica que sejamos completamente indefesos ou passivos:
- Se a má gestão resulta numa quantidade anormal de lixo nas ruas, temos sempre a possibilidade de apanhar; pontualmente lixo ao longo do nosso dia – ou até organizar campanhas voluntárias de limpeza de espaços públicos;
- Se existem casos de fome no nosso bairro, podemos tentar angariar comida no seio da nossa comunidade;
- Se existem buracos nos passeios, espaços não acessíveis para pessoas com deficiência, ou jardins malcuidados, podemos angariar fundos para contratar quem o faça – ou arregaçar as mangas e fazê-lo nós próprios (se para tal tivermos capacitados),
- Se faltam espaços ou iniciativas culturais, podemos organizar os nossos próprios eventos, produzir as nossas peças de arte públicas ou criar os nossos palcos – presencialmente ou online;
- Se algum espaço não é verdadeiramente inclusivo e seguro, podemo-nos mobilizar para mudar a disposição física e social do mesmo.
Claro que nenhuma destas opções é ideal, e tenho criticado abertamente situações em que o voluntariado e associativismo substituem as responsabilidades governamentais…
Mas esta não é uma questão que encontrar medidas duradouras e definitivas para problemas sistémicos. Esta é uma forma de reforçar laços comunitários, de aumentar o conhecimento especializado de causa, e de legitimar ainda mais as exigências feitas pelos/as munícipes.
Quando não somos ouvidos, vistos ou acreditados, todo o conhecimento é uma arma de resistência e responsabilização, toda a ação é um passo no sentido da mudança, e toda a credibilidade transferida para os/as cidadãos/ãs, resulta em direta proporção numa descredibilização de quem de direito – com um impacto direto e palpável na sua legitimidade de ocupar tal posição. Essencialmente, temos os recibos para comprovar aquilo que nos é devido.
Redes Sociais
As redes sociais posicionam-se numa extensão mais direta da lógica do jornalismo. Porém, a acessibilidade imediata, e falta de barreiras formais à publicação, significa que, apesar da hipótese de produzir um maior volume de conteúdos, os mesmos poderão não atingir a escala e impacto desejados.
Mesmo assim, se por motivos diversos não consigamos receber a atenção desejada dos media tradicionais, a mobilização de atenção através das redes sociais é um passo legitimo. Por outro lado, estas plataformas tendem a priorizar o entretenimento, e convém ter noção da necessidade de atingir um equilíbrio comunicativo entre o que vende e o que passa a mensagem de forma clara, credível e legitima.
Esta lista não é compreensiva, existindo ainda outros recursos (como por exemplo a desobediência civil, a educação não-formal, e outros) mais complexas para a responsabilização das pessoas eleitas. Porém, estes são claramente os passos mais diretos, acessíveis e racionais de tomar numa primeira instância de descontentamento e monitorização.
Adicionalmente, nenhuma destas ferramentas existe num vácuo, devendo ser complementares na sua utilização. Por exemplo, se um problema é legitimo o suficiente, o mesmo merece exigências tanto na AM, como nas ruas, como nos jornais…
Tentemos ser patrões mais responsáveis
O panorama político atual está – posto de uma forma leve – um caos. Um pouco por todo o país, e por todo o mundo, sentem-se os sintomas de democracias enfraquecidas, povos enraivecidos e valores revertidos.
Agora, mais do que nunca, temos a obrigação de ser Patrões Responsáveis. Presentemente o nosso negócio -a Democracia- corre um risco real de falência, os colaboradores não sabem Colaborar, e o armazém está em chamas. Ainda conseguimos manter uma frente de loja relativamente apresentável, mas creio que esteja na hora de aparecer mais assiduamente, exigir responsabilidades, gerir conflitos, reforçar a nossa autoridade, e, salvar e reconstruir o que ainda resta. Lembremo-nos que neste ramo não se vendem produtos, cuidam-se de vidas – e em caso de asneiras não existem resgates financeiros ou políticos capazes de reverter negligências fatais.