Era uma vez, há muitos, muitos anos, um mouro velho que vivia feliz no amor da sua filha e da sua religião, assim dizia ele, e, ainda que falasse verdade, era óbvio que o amor mais forte era o que nutria por sua filha. E quis o destino, ou Alá, que Ali Abdul Ali, assim se chamava o mouro, viesse a ser colocado perante o dilema de ter de escolher entre a sua filha e a sua religião. Mas não nos adiantemos, leitor.
Por essa altura planeavam os cristãos um cerco ou ataque surpresa ao castelo, que a imaginação dos guerreiros é limitada e prática e, para o efeito, tinham sido enviados alguns batedores, entre eles um belo jovem de cabelos louros, órfão de pai e mãe, criado na doce adoração pela irmã mais velha, mulher muito devota e intransigente. Este jovem vai ter um papel importante. Mas não nos adiantemos, leitor.
A mulher do mouro morrera por ocasião do nascimento da filha, momento em que ele decidiu nunca mais amar alguém que não fosse a filha, jovem alegre e um pouco fútil que tardava em casar. Indignava-se o mouro e censurava a filha, mas em segredo dava graças a Alá por ter o amor da sua filha só para si. E por esta altura já o leitor percebeu que rumo esta história vai tomar, mas não nos adiantemos.
Esta história que conto já foi contada antes e eu não me desviarei muito, apenas a contarei à minha maneira, como se fosse contada pela primeira vez. Mas recolha-se o narrador e deixe que a história se conte.
Quis o destino (e quer a história) que o cristão encontrasse a moura e ambos se apaixonassem, perante o horror e o desespero daqueles que mais os amavam. E as religiões de ambos, pai e irmã, ainda que diferentes e mesmo antagónicas, diziam a ambos o mesmo, que a moura e o cristão deviam renegar o seu amor. Por isso eles decidiram fugir juntos, mas tal nunca viria a acontecer e acho que ninguém se surpreenderá se o disser já, sem mais delongas.
Foi o cristão encarregado de liderar um ataque surpresa, pela calada da noite e veio a ser morto pelo pai da sua amada que, ao contrário do que eu próprio antecipara, deixou que o amor pela sua filha ficasse em segundo plano. Tivesse a jovem moura se matado também e a história terminaria aqui, mas a história que se quer contar é outra história. Vejamos então!
Na fuga, porque a vitória lhe fugia, tropeçou o mouro velho, bateu com a cabeça e morreu logo ali. Conquistado o Castelo, veio a irmã do cristão enterrá-lo e, perante a visão do irmão que tão amado lhe fora, enlouqueceu e perdeu para sempre a razão. A jovem moura, que se sabia grávida, partiu para longe e, ainda que não o possa confirmar, sei que foi feliz, porque assim o escrevo. E o mesmo para o filho, que a felicidade é sempre generosa, até numa fábula tão desgraçada como esta.
E assim, querendo apenas contar uma pequena história, ou que ela se contasse, não resisti a meter o bedelho, por assim dizer, com as minhas considerações de autor sempre interessado em discutir a própria escrita, que afinal nada mais é do que a minha forma de contar.
Crónica «Da minha janela vê-se o Algarve» de Luís ENE.