A lata é branca, simples e evoca memórias do passado de uma importante indústria conserveira, como é exemplo as trabalhadoras de avental e lenço na cabeça a descabeçar o peixe de pé ou o galeão a vapor que transportava para terra os resultados de um dia de faina.
O Museu de Portimão, que até costuma estar fechado às segundas-feiras, abriu de propósito, entre as 18 e as 20 horas, de 31 de outubro, para se tornar num pequeno posto de correio, onde foram lançados a coleção filatélica em lata, a pagela com a série completa e realizada a aposição do carimbo de primeiro dia, com o símbolo de uma sardinha.
Ao «barlavento» as funcionárias portimonenses dos Correios de Portugal, que tomou a iniciativa de homenagear a indústria conserveira nacional, contaram que a adesão à compra foi grande, assim como a correia à Estação Manuel Teixeira Gomes, que desde as 9 horas colocava o carimbo de primeiro dia. A lata custa 4,25 euros.
Os CTT decidiram homenagear esta atividade, com os selos alusivos à indústria conserveira nacional, porque «tem uma história marcante no panorama do país, não havendo outro local mais adequado para este lançamento do que o Museu, um polo cultural da história industrial e marítima», justificou Pedro Rodrigues, diretor regional dos Correios de Portugal.
Para José Gameiro, diretor científico do Museu de Portimão, faz sentido este lançamento ser em Portimão, «porque as imagens escolhidas são do nosso arquivo, são fotos do saudoso fotógrafo portimonense Júlio Bernardo e também do arquivo industrial das fábricas» locais.
Graças às qualidades e potencialidades gastronómicas na criação e reinvenção de novos produtos e sabores, as conservas portuguesas têm um inegável prestígio nacional e internacional. Esta foi a forma encontrada pelos CTT para homenagear o sector. São 50 mil séries enlatadas em embalagem serigrafada. Além da parceria, no lançamento, com a Câmara Municipal de Portimão e a Docapesca, nesta aventura embarcou também a mais antiga fábrica de conservas em laboração no mundo, a firma «Conservas Ramirez», fundada em 1853. O acaso é que a empresa foi criada no mesmo ano em que foi lançado o primeiro selo português – o célebre D. Maria II, posto a circular a 1 de julho de 1853 nas versões de 5 réis e de 25 réis.
O design dos selos, que têm um formato 80 por 30,6 milímetros, esteve a cargo do Atelier Pendão & Prior/Fernando Pendão. A presidente da Câmara Municipal de Portimão Isilda
Gomes enalteceu o valor da memória e o simbolismo. «Levar uma lata de selos para casa é também um símbolo da difusão a nível mundial, porque estes selos não sabemos onde vão parar. Alguém vai ver estas imagens do nosso museu noutro ponto do mundo. E este selo vai andar daqui por uns anos nas mãos de filatelistas, sendo também um marco cultural, pois refere-se ao passado desta cidade».
A cerimónia mereceu ainda a participação de José Apolinário, secretário de Estado das Pescas, que enalteceu a vertente económica da atividade. «Começo por destacar as pessoas que fizeram este sector, que é uma indústria de resilientes. Vale hoje ainda, em termos de matéria processada, cerca de 235 milhões de euros à escala nacional». Aliás, para o governante este é um forte elemento de emprego e de exportação, porque é enviado para todo o mundo.
Recordando a história desta atividade, José Apolinário explicou que a localização destas fábricas também acompanhou a localização da sardinha. «A primeira fábrica no país foi criada em Setúbal, no Algarve foi em Vila Real de Santo António, mas Portimão foi sempre um enorme centro dinamizado pela família Júdice Fialho. Havia também a Fábrica Feu e outras. Temos uma indústria conserveira muito virada para a sardinha e, à medida que esta foi passando mais para o centro e norte, as fábricas foram acompanhando a deslocação», resumiu. A verdade é que, cada vez mais começam a surgir novos produtos e projetos, que dinamizam o sector.
No entanto, desta vez, não foi a sardinha que acabou na lata. Foram selos. A única dúvida para quem adquire a coleção é se a abre ou não, mas se não o fizer não verá os selos ao vivo e a cores…



