Um jovem de 20 anos, natural de Portimão, a estudar fotografia em Lisboa, na ETIC. O seu sonho, desde muito novo, ser fotojornalista. E já vai trilhando esse caminho, a par dos estudos. Muito recentemente, fez uma grande exposição com trabalhos de fotojornalismo, em Lisboa e em Portimão, que foi um sucesso. O «barlavento» foi tomar café com o João, para tentar saber mais sobre ele.
barlavento – Com que idade começaste na fotografia?
João Porfírio – Com 15 anos.
E como surgiu esse amor, tão novo?
O meu pai sempre teve grande gosto e interesse pela fotografia, ainda no tempo do analógico. Tem imensos slides. Apesar de não ter muita relação com ele, acho que o bichinho ficou, vem dos genes. Desde cedo comecei a fotografar, quando me ofereceram uma compacta. Achava que era a melhor máquina do mundo que tinha nas mãos e, com 15 anos, até aviões num festival aéreo fui fotografar com aquilo (risos). Tive pessoas que sempre me incentivaram e ensinaram e fui crescendo como fotógrafo. Até que decidi: «É mesmo isto que quero, porque sou feliz, quando fotografo».
Foi quando decidiste ir para Lisboa tirar um curso de fotografia. Como é que está a correr?
Está a correr bem, embora eu levasse expetativas demasiado elevadas. É muito genérico. Mas não estou desiludido, porque o fotógrafo faz-se por si. Não posso estar à espera que um curso me transforme num fotógrafo. Tenho de ser eu a trabalhar para isso.
No momento atual, toda a gente é «fotógrafo», tirando fotos com telemóveis e maquinetas. E pensam que não é necessário contratar um profissional para fotografar eventos ou publicidade. Como vês um profissional a sobreviver, neste contexto?
Tenho algum medo disso e espero que as pessoas, daqui a relativamente pouco tempo, percebam que, se querem um trabalho com qualidade, têm de contratar uma pessoa que o faça com qualidade. Uma das coisas que mais critico, na escola onde ando, é a mecanização do fotógrafo. É ridículo, numa escola onde se ensina fotografia, fazer-se um evento e colocar uma máquina em que se carregava no écran, tinha cinco segundo para posar e, depois, saía a foto tipo Polaroid. Se já se começa com esta filosofia nas escolas, nem quero imaginar o que se passa no mercado de trabalho. Também, na comunicação social, já se pede aos jornalistas para tirar as fotos, até com telemóveis, para evitar custos com o fotógrafo.
Tu começaste no fotojornalismo. É esse o caminho que desejas trilhar?
Absolutamente. Não quero moda, nem publicidade. Não me identifico.
Tu já fazes trabalhos cá fora e, por isso, consegues entender as diferenças entre a realidade e a escola. É muito diferente?
Não tem nada a ver.
E pensas que haverá mercado de trabalho para tanta gente que envereda por aí, se já se pede aos jornalistas para fotografar também?
Um professor meu, que é um grande fotojornalista português e com quem já trabalhei, sempre me disse para não desistir, porque não conhece nenhum bom fotógrafo que não esteja empregado. Aconselhou-me a esforçar-me para ser um desses bons, porque quem não tem emprego, ou é mediano, ou foi de arrasto. E é isso que eu faço: esforço-me ao máximo.
Que pensas fazer, quando acabares o curso? Prosseguir os estudos lá fora, para conheceres outras realidades?
Já tenho o destino traçado e, geralmente, consigo fazer tudo o que penso. Acabo o curso de dois anos, em junho, com possibilidade e entrada direta numa universidade em Londres. Mas tenho cinco anos para fazê-lo. Decidi não ir já e fazer o estágio profissional, porque é uma mais-valia conhecer profissionais de outros jornais e de outras agências. Em novembro, vai abrir um curso de fotojornalismo, noutra escola de Lisboa, uma especialização de um ano. Quero fazê-lo e, no final, o respetivo estágio. Em menos de dois anos, fazer dois estágios. Depois, se não conseguir emprego fixo, ir para Inglaterra.
Na tua opinião, o que é um bom fotojornalista?
Carateriza-se por nunca estar satisfeito. Numa reportagem, por exemplo, achar que podia ter feito melhor e voltar lá, no dia seguinte, para fotografar a pessoa, ou o local, de modo diferente. Ou estar numa situação de conflito e procurar aquilo que pouca gente vê. Tem de ser curioso e inteligente para perceber o que vai vender, o que choca. O fotojornalista quer chocar as pessoas. Se o público olhar para uma foto sua e chorar, é o auge.
Queres dizer que o fotojornalistas vende desgraça?
Não! Chorar no bom e no mau sentido. Uma fotografia que me fez chorar, ultimamente, por ser enorme, foi a capa do Público no dia a seguir ao funeral do Manoel de Oliveira. Fez-me chorar de emoção, porque estava ali contada uma história numa foto. Não é necessário ler nada para entender.
Aprende-se a ser fotógrafo nas escolas?
O fotógrafo está dentro de nós. Eles ensinam-nos a ser tecnicamente corretos. A fotografia não se ensina; ensina-se a técnica da fotografia. Ou se é criativo, ou não; ou se é original, ou não. Podemos ter uma fotografia tecnicamente perfeita, mas, se a criação não estiver lá, é o que toda a gente faz. Não se diferencia entre o fotógrafo «x» e o «y». Somos nós que temos de ser inteligentes e desenhar o nosso caminho. Se não houver essa arte em nós, acabamos o curso e vamos para outra coisa qualquer. O curso, como qualquer outro, é um suporte.
Preto e branco ou cor?
Preto e branco. Porque eu pretendo contar histórias e mostrar emoções. E o preto e branco não demonstra tudo; deixa sempre aquele «quero mais», para se ir à procura. As cores distraem muito. Se houver um olhar no preto e branco, vamos diretamente ao olhar e ao encontro da pessoa fotografada, que é o que pretendo. Dá dramatismo e confere peso à imagem.
O teu sonho como fotojornalista?
Entrar na Reuters.