Primeiro que tudo, qual foi a motivação para escrever a «História do Acordeão no Algarve»?
Nuno Campos Inácio – A elaboração desta obra, com mais de 400 páginas, é a resposta a um repto lançado à Arandis Editora por Francisco Sabóia, fundador e Director da Casa Museu do Acordeão de Paderne e organizador das Grandes Galas Internacionais do Acordeão. A ideia inicial era apresentar uma obra que comemorasse a XXV Grande Gala Internacional do Acordeão no Algarve. No entanto, concluímos rapidamente que uma obra de cariz histórico sobre o acordeão no Algarve seria a melhor forma de honrar o Acordeão, os acordeonistas e professores de acordeão algarvios e o próprio trabalho desenvolvido por Francisco Sabóia, uma vez que a história do acordeão no Algarve, tal como no país e no mundo, estava por contar.
Que fontes usou e quanto tempo demorou a escrever o livro?
A obra demorou alguns meses a ser elaborada. As fontes usadas foram evoluindo à medida que o trabalho também se desenvolvia. Quando aceitei realizar esta obra tinha ao meu dispor todo o espólio da Casa Museu do Acordeão, composto por mais de 2000 peças, bem como o arquivo do jornal «A Avezinha», cujo Diretor, Arménio Aleluia, acompanhou de perto e deu notícia de praticamente todos os grandes eventos de acordeão realizados no Algarve nos últimos 30 anos. Á medida que o livro foi evoluindo foram surgindo outras fontes, com o contributo direto dos próprios acordeonistas. Aos poucos foram-se juntando contributos mais genéricos, sendo junto destacar aqueles que foram dados por Gonçalo Pescada, Hermenegildo Guerreiro, João Frade, Associação de Acordeonistas «Mito Algarvio» e Nelson Conceição. A parte mais antiga é inédita. Descobrir cartazes promocionais de festas e bailes das décadas de 1920/1930 é surpreendente. No entanto, o que mais me surpreendeu foi o facto de termos no Algarve alguns dos melhores professores e acordeonistas nacionais e mundiais, sem que esse facto tenha o devido eco na comunicação social e na sociedade civil. Só um dos professores de acordeão tem mais de 100 subidas ao pódio nacional e internacional; outro, formador de um campeão mundial e de vice-campeões, chegou a concorrer com cinco alunos e trazer cinco títulos de Campeão Nacional, um para cada uma das categorias em concurso. É méritos dos excelentes formadores e dos excelentes alunos que o Algarve produz. Qual tem sido a resposta da região algarvia a esse mérito?
Jacinto Palma Dias, historiador de Castro Marim, refere nos seus livros que o acordeão aparece no Algarve no final do século XIX sendo quase de imediato adotado no corridinho e baile mandado. Chama-lhe instrumento «impressionista». Concorda?
Acho que o acordeão é, acima de tudo, um instrumento impressionante, fortemente enraizado no Algarve. Há breves referências a acordeonistas mais antigos. No entanto, o acordeão tomou um lugar de destaque no Algarve logo após a I Grande Guerra Mundial, sendo o principal instrumento de animação cultural até à década de 1950. O acordeão está intimamente ligado à criação dos grupos folclóricos algarvios. O mais antigo grupo folclórico surgiu do mesmo evento que levou à formação da Primeira Orquestra Típica Algarvia, na década de 1920. O sucesso do acordeão, na minha opinião, deve-se ao facto de ser um instrumento que consegue, sozinho, encher um palco e animar uma festa ou bailarico. Praticamente todos os outros instrumentos precisam de um acompanhamento para conseguir esse mesmo efeito. Deste modo o acordeão é impressionante pela sonoridade e pela musicalidade que permite.
Como está hoje o acordeão no Algarve?
Está bom e recomenda-se. O Algarve possui dos melhores formadores e intérpretes do país, que dão cartas lá fora e obtêm sempre lugares honrosos. Conta entre os seus formadores com um Doutorado em Acordeão e possui escolas de referência. Podemos dizer que o acordeão faz parte da alma algarvia e isso tem sido cada vez mais evidente. A região algarvia é palco da Gala Internacional do Acordeão, uma das mais antigas do país com continuidade até ao presente, realizando-se este ano a 25.ª Edição; já recebeu dois Troféus Mundiais de Acordeão e este ano receberá pela terceira vez esse consagrado prémio internacional; em 2019 receberá pela primeira vez a Copa do Mundo; Tem ainda vários festivais e eventos ligados ao acordeão um pouco por toda a região. O Algarve pode-se orgulhar de ter uma nova «Geração de Ouro» do acordeão, composta por Campeões Mundiais, Vice-Campeões Mundiais, Campeões Ibéricos e dezenas de Campeões Nacionais, nas mais variadas modalidades.
É a primeira vez que escreve sobre instrumentos musicais. Quais são os próximos projetos?
Este foi um grande desafio, uma vez que não tenho qualquer formação musical. No entanto já tive uma maestrina que me aconselhou a fazer este mesmo estudo sobre outros instrumentos musicais, por ter ficado surpreendida com o resultado obtido. A participação de tanta gente ligada ao acordeão na elaboração do livro acho que demonstra isso mesmo. Para o futuro tenho vários trabalhos no campo literário. Pronto para publicação está o «Levantamento Histórico e Genealógico da Freguesia do Alferce», uma obra com 1800 páginas dividida em 3 volumes, que apenas aguarda o prefácio do Presidente da Câmara Municipal de Monchique. Em finais de abril deverá ser apresentado o «Guia Turístico de Albufeira», que está em fase de paginação. Tenho ainda em fase de conclusão um trabalho de História de Portimão, actualmente com 1400 páginas e estou a trabalhar num desafio que me foi lançado pelo Padre Mário, a elaboração da «História da Igreja Matriz de Portimão», que espero concluir a tempo de ser apresentado no dia 8 de dezembro.