O filme português «O Velho e a Espada», de Fábio Powers, está em exibição no Cinema Cineplace Centro Comercial de Portimão.
Das assombradas florestas da Beira Baixa nasce uma energia maléfica. Sem temer Deus ou Homem, percorre vales e aldeias colhendo almas dos que se distraem com os prazeres do imediato.
É assim que começa «O Velho e a Espada», o novo filme de Fábio Powers, que chegou esta quinta-feira, 23 de outubro, ao cinema Cineplace do Centro Comercial de Portimão, com sessões diárias.
A obra, vencedora de mais de 30 prémios internacionais e selecionada para mais de 100 festivais, afirma-se como uma das produções portuguesas mais insólitas do ano. Mistura fantasia rural, tragicomédia existencial e humor visual num delírio de estética camp, prestando homenagem ao cinema de série B, ao anime e ao universo tokusatsu japonês.
O argumento acompanha António da Luz, o «bêbado da aldeia», que encontra uma espada amaldiçoada — com voz do ator João Loy, conhecido por dar voz a Vegeta em «Dragon Ball» — e é arrastado para uma jornada onde o heroísmo e a insanidade se confundem.
«O Velho e a Espada» é assumidamente um filme de série B contemporâneo que mistura comédia, drama e ação. Tem influências marcantes dos primeiros trabalhos de Sam Raimi e Peter Jackson, além de uma forte inspiração no tokusatsu japonês, como «Kamen Rider» e «Garo». Há também um toque de surrealismo ao estilo de Alejandro Jodorowsky.
À medida que a história avança, o foco recai sobre a solidão e o alcoolismo, explorados de forma psicológica, moral e social. O filme mergulha ainda nos mitos e lendas portuguesas, capturando o folclore transmitido de geração em geração, numa homenagem ao povo e aos seus costumes.
António da Luz interpreta-se a si próprio, como um homem marginal e alcoólico que descobre — num estado de embriaguez mística — a capacidade de ver as almas das pessoas. Essa premissa, que poderia soar a gag episódica, transforma-se numa poderosa alegoria sobre exclusão, trauma e regeneração.
Ao lado de uma espada falante — voz do veterano João Loy — António embarca numa odisseia tão absurda quanto emocionalmente genuína, atravessando uma paisagem rural encantada e assombrada, onde os mitos portugueses ganham corpo e voz.
Com ecos de Sam Raimi, Peter Jackson e Kurosawa, Fábio Powers cria um universo estético singular «onde o cansaço existencial e o gesto heroico coexistem em permanente tensão». O realizador descreve o filme como «uma celebração do exagero, do humor e da estética do insólito, com uma liberdade criativa pouco comum no cinema português».
A produção contou com recursos limitados e forte envolvimento comunitário, nomeadamente do grupo Váatão Teatro e da Associação Marafona Encantada. A espada — elemento central da narrativa — foi desenhada por Anna Cernawsky e construída por Paula Nunes, num equilíbrio entre simbolismo medieval e estética cyberpunk.
Entre as curiosidades, destaca-se o uso de uma Famel Zündapp semelhante à mota de «Balas & Bolinhos», hoje peça quase de coleção.
A voz do padre demoníaco pertence a Paulo Espírito Santo, também ligado a «Dragon Ball», e o trailer japonês foi narrado por Sora The Troll, youtuber e dobrador popular no Japão.
«O Velho e a Espada» é, nas palavras do realizador, «um filme artesanal e profundamente culto, feito com paixão e risco». Em paralelo à longa-metragem, estão em desenvolvimento uma banda desenhada e um jogo mobile, tornando-o num verdadeiro projeto transmedia português.
Entre a fantasia e o absurdo, Fábio Powers propõe uma reflexão poética e grotesca sobre o tempo, a perda e a persistência do espírito humano. Ou, como se lê no início do filme, sobre «o que acontece quando o sagrado se dilui no quotidiano».






