barlavento – Está em Portimão a apresentar a peça Noivo por Acaso. O que é que o público pode esperar?
Fernando Mendes – O meu papel é o de um empreiteiro, que vai ver uma obra para fazer o orçamento e como, não todos, mas muitos empreiteiros deste país, tentará enganar o homem e ganhar algum. Ou seja, o triplo ou o quádruplo do orçamento justo. É uma agência matrimonial, onde virá um sujeito riquíssimo que quer arranjar uma mulher para casar. Como chego à mesma hora, o dono da agência pensa que sou essa pessoa. Logo aí começa a história. Eu vou sempre pedindo mais dinheiro.
Em palco estão também Jorge Mourato, Carla Andrino e Patrícia Tavares…
É engraçado que eles, além de serem grandes atores, fazem três personagem cada um. Estou sempre ali no meio. E vai aparecendo cada uma pior que a outra. Uma talvez seja gira, mas o resto é uma desgraça. Tenho de estar ali para ganhar, além do dinheiro do orçamento, uma percentagem das raparigas. Só não conto o final. Mas a ideia é muito gira e a peça está muito bem escrita.
A expetativa a nível de público é boa? A estreia esgotou.
As estreias esgotam sempre. Agora temos que trabalhar para promover ao máximo. Andamos com a carrinha, o avião sobrevoa a praia, andamos a distribuir flyers. No programa Preço Certo, que está gravado, digo que venho para Portimão, portanto está tudo no bom caminho. Aqui é engraçado, ou não, que as pessoas vêm muito à última hora adquirir o bilhete. Por isso, ficamos sempre na expetativa. Mas acho que vai correr bem, e as pessoas sairão satisfeitas.
É difícil levar as pessoas ao teatro hoje em dia?
É. Por exemplo, em Lisboa há muita concorrência, há muitos teatros, felizmente. Lembro-me quando me estreei, uma peça estava um ano em cena e sempre com público. Hoje, é impossível. O Parque Mayer, tinha quatro teatros a funcionar e trabalhava-se todos os dias. Agora só trabalhamos aos fins de semana, porque não há público para a semana. É complicado ser ator, mas a televisão ajuda muito. Se uma pessoa gosta de um ator ou atriz na televisão é muito mais fácil ir vê-lo ao teatro.
Portimão é paragem obrigatória para apresentar as peças de teatro. Sente-se bem nesta cidade?
Sinto-me muito bem aqui. As vindas ao Algarve começaram na Fábrica do Inglês há, mais ou menos, 13 anos. Infelizmente fechou, mas tivemos sempre o convite para virmos cá no mês de agosto. Este é o terceiro ano não consecutivo, porque em 2015 acho que não estivemos em Portimão. E este é um teatro com condições extraordinárias. O sítio é ótimo e espero que corra tão bem como têm corrido os anteriores.

A ideia também é essa. Não trabalhar só para o Algarve, mas aproveitar também as pessoas que estão de férias. E são muitas. Acho que a grande maioria do público é de norte a sul do país, mas também há emigrantes. Há muita gente da França e da Suíça, que veem a televisão, mas não o teatro. Já me aconteceu ficarem surpreendidas, porque muitos deles não faziam ideia que eu era ator, pois pensavam que só apresentava o Preço Certo.
O concurso televisivo deu-lhe uma grande visibilidade. No entanto, são 35 anos de carreira em que trabalhou com grandes nomes…
Sim. Grandes nomes e muitos que, infelizmente, já desapareceram. Em pouco tempo desapareceram muitos. É a lei da vida, mas custa um bocadinho.
Trabalhar com eles fez com que se tornasse no ator que é hoje?
Sim, sim! Aprendi muito com eles. Nos últimos tempos foram embora o Camilo, o Nicolau, o Nicholson. Tive a sorte de trabalhar com essa gente toda, que sabia muito de teatro. Com quem eu aprendi muito foi com o Henrique Santana, que já faleceu há muito mais tempo. Tive essa sorte de ter trabalhado e aprendido muito com eles. Acharam que eu tinha algum talento para isto e ajudaram-me muito. Fico-lhes grato para sempre.
Tem ainda a grande herança do seu pai?
Sem dúvida. Aliás, começo no teatro, porque o meu pai era do teatro. Se calhar nunca seria ator… Vem daí, de começar a ver teatro desde criança, no Parque Mayer, onde os quatro teatros estavam sempre cheios. Ser filho de quem sou, gostar de ir ao teatro e ficar com o bichinho… ter a sorte de vir, mas não como ator. Comecei como ajudante de contrarregra, a pintar sapatos, pintar cenários, ir às compras. Acho que só fez bem, porque trabalhar nos bastidores, é muito importante. Começar por aí…
Torna as pessoas mais humildes?
Sim. Acho que sim. Hoje corre bem, amanhã não corre, portanto 
Se tivesse que escolher entre televisão e teatro, qual seria?
Acho que o teatro. No Preço Certo também tenho o público. Há pessoas que perguntam se já estou cansado. Não, não estou. Todos os dias é diferente, os concorrentes é que mandam no concurso, porque eu vou atrás deles.
É muito à base do improviso?
É. Não há um texto. Já no teatro também tenho o público ali, mas é a luta que dá fazê-los rir.
Porque é mais difícil fazer rir?
É muito difícil. Nós sabemos que, numa localidade, o público riu-se muito em determinadas partes da peça. Quando mudamos, vimos que se riem noutras. E é esse o desafio, para nós atores que estamos em cima do palco. Ao mesmo tempo, é bom para puxarmos pelo público e por nós também, porque queremos ouvir… O mais importante para o ator é ouvir a gargalhada e o aplauso. Então temos que ir à procura. São as tais técnicas que se aprenderam há uns anos.
Apesar da agenda preenchida com a televisão, continua sempre a encontrar espaço para o teatro?
Sim, porque primeiro é algo que gosto e depois trabalho com gente que gosto. Tenho a sorte de escolher as pessoas. Neste caso, os autores que escreveram o Noivo por Acaso também tiveram uma quota-parte, mas a decisão final é minha. É bom andarmos pelo país inteiro, de norte a sul do país, porque dá-nos traquejo. No entanto, não é só o teatro… temos a restauração que é importante antes do espetáculo (risos).
Em Portimão, as sardinhas estão boas?
Estou a comer muito peixe e as sardinhas estão muito boas. No restaurante Dona Barca são um espetáculo. Sofro muito é com o calor. É por ser gordo também…
Já se habituou a este termo que as pessoas usam com carinho?
Bem, até fui eu que o puxei. Não me importo nada. Devia de emagrecer uns dez quilos, pois era bom para a saúde. Mas ficava gordo na mesma. Para ficar com o peso certo tinha que perder 50 quilos, porque já pesei 60 quilos. Se conseguisse chegar aos 100 já era bom.