Fundada na Nova Zelândia, a NXW – Nutrition from Water muda-se para o Algarve para produzir proteína de microalgas e transformar a região num polo europeu da nutrição do futuro.
A procura por proteína de origem animal cresce a um ritmo que o planeta poderá não conseguir acompanhar a médio prazo. As microalgas, contudo, podem oferecer uma solução. Portugal tem vindo a dar passos nesse sentido e, com isso, captou a atenção internacional.
Nascida na Nova Zelândia, a NXW – Nutrition from Water está em fase de implementação no Algarve.
«O nosso objetivo é utilizar microalgas para produzir proteínas alternativas», explica David Sousa, gestor de operações de negócio da empresa, para quem a motivação é evidente. «Existe uma procura muito grande por proteína de origem animal e sabemos que toda essa produção tem um impacto ambiental muito grande. As proteínas de microalgas permitem reduzir essa pegada, com o mesmo valor nutricional.»
O desafio passa por criar um produto com a mesma riqueza em aminoácidos essenciais e a baixo custo. «O futuro só será sustentável se estas proteínas puderem ser produzidas a preços acessíveis e distribuídas em regiões com maiores carências alimentares», reforça.
Fundada em 2020 na Nova Zelândia por Alexander Worker, a NXW expandiu-se rapidamente para os Estados Unidos da América (EUA), em busca de investimento e de mercado. A escolha seguinte recai sobre Portugal.
A administração «percebeu que o nosso país tem bastante valor nesse sentido. Temos uma costa bastante extensa e isso acabou por chamar a atenção para abrir uma filial aqui», resume David Sousa.

A decisão não foi apenas geográfica, já que no Algarve encontraram um ecossistema científico e empresarial preparado para apoiar a inovação azul. O contacto com o CRIA – Divisão de Empreendedorismo e Transferência de Tecnologia da Universidade do Algarve (UAlg) e com o GreenCoLab, laboratório colaborativo de investigação em microalgas, abriu portas a uma rede de conhecimento e infraestruturas de investigação e desenvolvimento (I&D).
Hoje, a empresa trabalha lado a lado com investigadores e técnicos destes centros, «partilhando equipamentos, espaço de laboratório e know-how». A parceria permite acelerar processos de desenvolvimento que, de outro modo, demorariam anos. «O objetivo é conseguirmos retirar o sabor, o cheiro e a cor das microalgas, para que a proteína possa ser adicionada a qualquer produto, seja um iogurte ou um gelado, sem alterar o resultado final», explica David Sousa.
O salto de uma boa ideia para uma solução viável exige recursos humanos altamente qualificados. É aqui que o financiamento público do Programa Regional ALGARVE 2030 tem um papel decisivo. «Vai permitir contratar recursos humanos altamente qualificados», sublinha o gestor.
Graças a este apoio, a NXW já tem cinco pessoas a trabalhar — entre as quais investigadores doutorados vindos de outros países — e prevê chegar a um total de dez colaboradores no final de 2025.
«Para uma empresa em início de atividade é muito difícil competir com salários de grandes empresas já bem estabelecidas no mercado. Este apoio dá-nos competitividade para captar as pessoas essenciais, desde a área do negócio até ao laboratório», reforça.
Além dos postos de trabalho, o investimento possibilitará que, a médio prazo, o Algarve se possa tornar num polo europeu na produção de proteína marinha alternativa.
Marine Way: a proteína em pó
A investigação já permitiu criar amostras em pó com diferentes concentrações de proteína: 30, 50, 70 e até 80%. O produto, batizado de Marine Way, é «ainda experimental», mas já foi apresentado a potenciais clientes.
No entanto, há desafios comerciais a ultrapassar. As proteínas marinhas são ainda significativamente mais caras do que as de origem animal. «Atualmente, as empresas pagam muito menos pela proteína animal e os nossos custos de produção ainda são muito elevados», compara.
A prioridade é conseguir que as versões de 70% e 80% atinjam o equilíbrio ideal de textura, emulsão e estabilidade, de forma a responder às exigências da indústria alimentar.
O Algarve como laboratório vivo
O posicionamento da empresa no Algarve não é apenas estratégico, é também simbólico. A região é hoje um dos hubs «mais relevantes de inovação ligada à economia azul».
A Universidade do Algarve (UAlg), os centros de investigação, startups e empresas mais maduras estão a colaborar para transformar o potencial do oceano em valor económico sustentável.
Neste contexto, a NXW é um exemplo de uma empresa internacional que decide transferir recursos e conhecimento para o sul de Portugal porque encontra parceiros capazes de transformar investigação em produto.
Este caminho, contudo, não será imediato. O processo de investigação é demorado e o mercado exige preços competitivos. A ideia é que a proteína de microalgas possa vir a ser uma alternativa viável para países desenvolvidos, assim como também uma solução acessível para regiões em que a insegurança alimentar é uma realidade.

Portugal assim tem a oportunidade de se afirmar como pioneiro nesta transição. «O nosso objetivo é crescer de forma sustentável e trazer esta nova forma de nutrição saudável para a população mundial», conclui David Sousa.
Num mundo em que a alimentação do futuro depende dos limites do planeta e da capacidade científica para os ultrapassar, as microalgas podem vir a ser mais do que um ingrediente. E o Algarve pode ter algo a dizer na definição desse caminho.
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Reportagem publicada no livro «Algarve – Economia Azul: Inovação e Fundos Europeus na Região», editado em outubro de 2025 pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Algarve, com produção editorial do jornal barlavento.
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