Greve geral contra o pacote laboral do Governo no Algarve encerrou hoje Centros de Emprego, escolas, afetou saúde, comércio, transportes e levou ao cancelamento de mais de 40 voos no Aeroporto de Faro.
A Greve geral contra o pacote laboral proposto pelo Governo de Luís Montenegro está a ter impacto em vários setores no Algarve, com Centros de Emprego do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) encerrados, escolas fechadas, serviços de saúde em mínimos, transportes interrompidos, adesão na recolha de lixo em vários concelhos e mais de 40 voos cancelados no Aeroporto de Faro, segundo revelou ao barlavento Catarina Marques, responsável da USAL – União dos Sindicatos do Algarve.
Até ao meio-dia de hoje, o balanço feito pela dirigente sindical aponta para «uma grande adesão nos setores da saúde e «educação», com «centros de saúde» e «hospitais nos serviços mínimos».
Nas escolas, segundo Catarina Marques, houve «provas que não se fizeram». A paralisação também afetou os transportes, com «mais de 40 voos no Aeroporto de Faro cancelados» e «uma grande perturbação nos transportes ferroviários», também com serviços mínimos.
A dirigente sindical referiu ainda «alguma adesão» nos transportes rodoviários e na «recolha de lixos e gestão de resíduos urbanos». Na Câmara Municipal de Silves, disse, a adesão no setor dos lixos «foi a 100%».
A greve também chegou à grande distribuição e ao comércio. Catarina Marques apontou adesões «nos hipermercados, no Auchan, no Lidl, no Pingo Doce», com impacto em diferentes áreas.
«Nuns casos, na frente de loja; noutros, nos frescos, pastelaria ou reposição. Portanto, também temos dados da grande distribuição e comércio», afirmou.
Nos serviços públicos, a dirigente da USAL disse que os Centros de Emprego de Olhão, Silves, Portimão e Loulé estavam encerrados. Também a Algar regista grande adesão, «principalmente em Portimão».
A indústria conserveira de Olhão também aderiu à greve. Segundo Catarina Marques, os sindicatos tinham apurado «50% de adesão», mas com «possibilidade de crescer».
Questionada sobre se esperava uma adesão superior à última greve geral, em dezembro, Catarina Marques respondeu que sim.
«Pelas notas e pelas informações que temos recebido, sim. Acho que isto tem sobretudo a ver com a maior consciência que os trabalhadores estão a ter do verdadeiro conteúdo deste pacote laboral», afirmou.
A dirigente sindical considerou que, apesar de a greve anterior ter sido «mais publicitada», a adesão de hoje pode revelar uma maior percepção por parte dos trabalhadores sobre «a gravidade daquilo que o Governo quer fazer».
Catarina Marques acusa o Governo de Luís Montenegro de ter «uma atitude de arrogância» e de seguir «uma linha política de ataque aos trabalhadores, ao povo deste país». «E é cada vez mais clara», afirmou.
Para a responsável sindical, essa linha política insere-se nas «políticas de direita» que, no seu entender, têm sido «perpetuadas por sucessivos governos».
«É sempre a beneficiar o patronato, o grande capital, os grandes grupos económicos, e sempre a prejudicar os trabalhadores», disse.
Catarina Marques também criticou Pedro Passos Coelho, antigo primeiro-ministro no tempo da Troika que foi particularmente duro na região do Algarve, e associou o seu regresso ao debate político a uma linha «má» e «prejudicial» para os trabalhadores.
«Agora vemos ressuscitar Passos Coelho, que até está muito colado ao Chega, porque, para onde agora o Ventura tem andado, o Passos Coelho anda atrás», disse.
A sindicalista defendeu ainda o pacote laboral apenas beneficia «um por cento da população do nosso país. Então, e os outros 99%? Os governantes não deviam servir o povo?», questionou.
Para Catarina Marques, trata-se de «um ataque mais visível, mais agressivo» aos trabalhadores.
A proposta do Governo deverá ser discutida e votada na Assembleia da República. A responsável sindical disse que será necessário acompanhar a votação de perto, pois poderá haver surpresas .
«Não sabemos o posicionamento do Chega, não sabemos o posicionamento do PS. Não sabemos se vão estar ao lado dos trabalhadores, como muitas vezes apregoam, ou se depois, no fim de contas, votam para que o pacote laboral passe», afirmou.
Catarina Marques também admitiu que o Presidente da República, António José Seguro, possa ter um papel decisivo, mas para já, também ninguém sabe o que irá fazer.
«Pode vetar, pode não vetar, pode achar que tem matéria para ir para o Tribunal Constitucional, ou não. Portanto, é uma incógnita», disse.
Aconteça o que acontecer, «o determinante, de facto, vai ser a luta dos trabalhadores. E, mesmo que este pacote laboral seja implementado, também vai ser a luta dos trabalhadores que depois o vai derrotar na mesma. A história tem-nos ensinado e tem-nos mostrado que os governantes que temos tido não estão do nosso lado, dos trabalhadores, do lado do povo. Por isso, tenho alguns receios, mas vamos estar atentos», concluiu.
Dezenas de pessoas, incluindo muitos jovens estiveram presentes esta manhã na praça de greve em Faro, que teve lugar na Praça Alexandre Herculano.


