Do ponto de vista académico, os distúrbios da fala e da linguagem são habitualmente avaliados e discutidos como entidades distintas. Os primeiros consideram-se como o resultado de alterações na produção fonológica e articulatória, envolvendo uma ou mais deficiências, tais como a respiração, fonação, ressonância e/ou articulação. Por seu lado, os distúrbios de linguagem, abrangem alterações de ordem cognitiva, onde se incluem a maioria dos sub-sistemas linguísticos (fonologia, sintaxe, semântica e pragmática).
Embora esta dicotomia possa ser útil em termos classificativos para os diferentes distúrbios da comunicação, não determina que a fala e a linguagem ocorram como processos separados de forma linear, nem que não haja entre eles uma interação e influência dinâmicas, sobretudo observadas durante o período de aquisição e desenvolvimento da linguagem.
A importância da Dispraxia Verbal no desenvolvimento da linguagem das crianças, mereceu que fosse o mote do dia Europeu da Terapia da Fala 2016, cujas comemorações ocorrerão a 6 de março e, que terão como objetivo proporcionar informações que promovam uma melhor articulação entre serviços, intervenção e apoios disponíveis.
A Dispraxia Verbal do Desenvolvimento é descrita como uma inabilidade do planeamento motor para sons da fala, presente na criança que não sofreu qualquer tipo de traumatismo ou lesão cerebral. Para alguns autores, é considerada um subtipo dos Distúrbios Específicos da Linguagem, sendo que as crianças nesta situação apresentam uma compreensão normal ou próxima do normal, mas com graves dificuldades na organização articulatória dos sons para a fala. Os seus enunciados são curtos, do tipo telegráfico. As vogais são muitas vezes distorcidas, tornando o discurso muito «plano» e monótono.
Habitualmente observa-se uma relação entre as desordens neuromotoras da fala e as desordens de linguagem, não como coexistentes, mas como interdependentes. Ou seja, parece claro que, principalmente, durante o período de aquisição e desenvolvimento da linguagem, há uma interação entre o controlo motor da fala e a formulação da linguagem, e que estes não devem ser avaliados, nem intervencionados separadamente.
Podem existir diferentes graus de severidade da Dispraxia Verbal do Desenvolvimento (leve, moderada ou grave) e estima-se que a sua prevalência seja de 1-2 por 1000 nascimentos, ocorrendo mais no sexo masculino que feminino (9:1), contudo manifestando-se de forma mais grave quando ocorre nas meninas. Sabe-se contudo que só 4,3 por cento dessas crianças são encaminhadas para a Terapia da Fala, apesar de ser unânime que se não intervencionada de forma precoce, esta condição afeta gravemente a comunicação social e a progressão escolar.
Os bebés com Dispraxia Verbal do Desenvolvimento são habitualmente silenciosos e as suas primeiras palavras aparecem tardiamente (entre os 19 meses e os 4 anos de idade), da mesma forma que a idade média para formular frases de duas palavras (entre os 33 meses e os 7 anos). Evidenciam audição normal, utilizando expressões faciais e palavras isoladas para ampliar a sua comunicação.
É igualmente notório o esforço destas crianças para procurar posturas articulatórias e sequências corretas, bem como a frustração quando tentam produzir um som ou uma sequência de sons e não conseguem. Consoantes iniciais e palavras compridas apresentam maior grau de inconsistência de erros.
Para além disto, a imitação de sons também é de grande dificuldade de execução (alteração na programação motora) e, posteriormente na leitura de um texto, os erros são mais frequentes nas palavras que têm maior valor linguístico e naquelas que são essenciais para a comunicação.
Uma maior interação entre família, escola e Terapeutas da Fala proporcionará resultados mais positivos ao nível da intervenção. A abordagem centrada na criança e na família, bem como o envolvimento e a continuidade das práticas por parte dos cuidadores e dos professores, permitirão processos educativos mais inclusivos e consequentemente de maior sucesso para estas crianças.
Espaço saúde do Hospital Particular do Algarve