O dicionário não é, porém, um simples livro com definições, pois integra também a obra «Heróis à Moda do Algarve», que não é nada mais que cinco divertidas histórias que utilizam algumas destas expressões ou termos.
Não é um projeto recente da editora «Lugar da Palavra», pois remonta a janeiro de 2010, quando foi iniciado um trabalho sobre linguagens marginais, para manter a vitalidade de um dos patrimónios imateriais mais ricos – a língua. Já existem oito volumes, cada um deles alusivo a uma região portuguesa (Porto, Lisboa, Alentejo, Madeira, Trás-os-Montes, Minho Açores), que contêm, no seu todo, cerca de 12 mil entradas. Faltava a região do sul de Portugal. Assim, o trabalho realizado com uma equipa de jovens estudantes da Universidade do Algarve (Miguel Brito de Oliveira, Diogo Simão, Nuno Soares, Catarina Gil, Andreia Mendes), coordenada por João Carlos Brito e por Miguel Brito de Oliveira, foi agora editado.
Não foi, todavia, um processo simples, pois primeiro foi necessário escolher os autores. Contactado pelo «barlavento», um dos coordenadores da obra Miguel Brito de Oliveira explicou que «os autores dos contos foram selecionados de duas formas. Por um lado, aqueles que têm amor à literatura e gostam de escrever, por outro, aqueles que ou nasceram no Algarve ou vivem na região há alguns anos e, como tal, têm conhecimento das expressões marginais», mostrando aptidão para passar as expressões de cariz especial para o papel.
A tarefa não foi fácil, pois havia quem, apesar de ter vocação para criar um conto, não conhecesse as expressões, nem tão pouco conseguisse escrevê-las, ou vice versa. Além de esta ser uma escrita de «cariz especial», tem que incluir o sotaque, «expressões e palavras da gíria algarvia e, nem todos, têm conhecimento desse vocabulário ou vocação para escrever com ele», adiantou em declarações ao «barlavento» o coordenador.
O trabalho acabou por ser trazido para o Algarve por Miguel, que trabalha com esta editora desde 2010 e conhece bem esta coleção «Heróis à moda de…». «Acompanhei a coleção desde o início, vi-a crescer e acho que é um projeto formidável no que toca à preservação e divulgação do património linguístico de cada região, que, cada vez mais, vem caindo em desuso», explicou.
Como Miguel Oliveira era autor na editora, sabia o que era necessário para criar o protótipo algarvio da coleção, e como reside no Algarve, decidiu avançar com o projeto. Acaba por ser importante para a região, que sofre com a forte permanência de turistas, está sujeita à influência dos estrangeirismos provenientes de todas as partes do mundo, havendo menos espaço para as expressões típicas.
Num segundo passo, foi preciso encontrar quem ainda soubesse alguns destes falares e vocábulos tão distintos do Algarve. «Para a realização dos Heróis à Moda do Algarve foi necessária uma vasta pesquisa, que passou, não só pela consulta dos poucos documentos que existem sobre o tema, como pela busca de pessoas, todas elas de gerações maduras que nos transmitiram conhecimentos sobre as expressões mais usadas outrora», disse.
Chegaram à conclusão que os mais jovens não conhecem a maior parte das expressões usadas nos tempos antigos. Devem saber alguns dos termos mais correntes como Má que jête, Maldeçoade Moçe. Há, contudo, muitas mais como as que fazem lembrar uma infância algo longínqua como Moçe, tá quiete uma migalha, ou palavras como mechas, xaringado, artelhos, avonde, demodes, ventas, griséu, caminéte ou gasiado.
«A pesquisa foi, sobretudo, [feita] por parte da coordenação da obra, uma vez que, as expressões usadas nos contos são fundamentalmente recolhidas pelos autores entre os membros mais velhos da família ou amigos, que ainda usam os regionalismos ou se lembram deles», confidenciou. No caso do dicionário já foi necessária uma busca mais detalhada, «sendo que o projeto consiste num dicionário, com alguns contos que servem como exemplo à utilização de algumas das expressões», e não o contrário. Assim, além das definições de palavras como alcagoita, que significa amendoim, é apresentada também a sua origem etimológica.