Espreito o novo livro de Adão Contreiras e confesso-me intrigado. Se o título já era intrigante – «Mostruário de Títulos para Poemas» – o conteúdo não lhe fica atrás. Adão Contreiras realizou inúmeras exposições de pintura e escultura e publica agora o seu terceiro livro em três anos. O livro em causa encontra-se publicado na coleção 4águas da editora com o mesmo nome e é provável que passe despercebido, o que também me intriga.
A qualidade referida é uma das que mais aprecio. Ser intrigante é o contrário de ser mais do mesmo, de não ser aquilo que com mais facilidade encontramos no dia a dia. Algo intrigante é algo que nos interpela, que nos deixa curiosos, que desperta a nossa a nossa inteligência e a nossa criatividade. No meu caso particular, algo sobre o qual, caro leitor, me apetece escrever e escrever-te.
Em Faro, onde vivo, tenho conhecido nos últimos anos alguns novos locais/estabelecimentos comerciais que me têm intrigado e que me continuam a intrigar. Uma cidade sem locais de encontro é uma cidade morta e Faro estava e ainda está numa desagradável letargia de que o longo encerramento do Café Aliança foi até há poucos dias um sinal evidente. Destaco alguns desses locais, sem prejuízo de outros, que deixo ao teu cuidado lembrar, caro leitor.
Ocorre-me assim, sem pensar muito, a «Sardinha de Papel», nome que sugerirá talvez uma peixaria ou uma livraria, mas que é uma organização comunitária e um espaço muito agradável de exposição e venda de artesanato. A seguir, para dar mais dois exemplos, agora na restauração, aponto «A Venda» e a «Mavala Osteria Italiana», cada uma delas com características singulares, que te convido, caro o leitor, a descobrir. São espaços tão intrigantes e estimulantes como o livro inicialmente referido, um livro de poemas que (aparentemente) não contém poemas.
Atrevo-me a dizer que Faro (e quem diz Faro diz o Algarve) é cada vez mais um intrigante lugar de cultura e os exemplos que apontei são disso uma pequena prova. O leitor que se deixe intrigar, que deixe levar pela curiosidade, livros e locais intrigantes não faltam.
Adão Contreiras vive nos Gorjões (no campo, num Algarve diferente mas igual a si mesmo, em que em dois bancos corridos junto à estrada se põem as notícias em dia), lugar onde vive também o músico de jazz Zé Eduardo e, caro leitor, se tiver a sorte de ir a uma das festas que ali ocasionalmente se realizam, perceberá que a cultura (seja qual for o significado que se der à palavra) está viva a sul e recomenda-se.
Termino com um dos títulos/versos do livro, mais precisamente o da página 79: «nada tem peso a não ser a minha imaginação».
Até à próxima, caro leitor, e deixa-te intrigar.
Luís Ene | Escritor