Nos últimos tempos, as conversas que mantenho com amigos e conhecidos, em que, como é habitual, falamos dos outros, incluem amiúde a expressão «cromo». Fulano ou fulana é um cromo é expressão habitual e, ainda que talvez eu me mova num meio em que os cromos proliferam, julgo que talvez o mesmo se passe noutros meios.
Quando falo do meio em que me movimento é ao meio poético e literário que me refiro e é sabido que a maior parte dos escritores, se não todos, são autênticos cromos. E quando os meus amigos e conhecidos não são escritores são muitas vezes artistas, e sabemos que dizer de alguém que «é mesmo um artista» não é um elogio num país que desconfia dos criadores e da criação. Mas volto atrás para retomar a expressão «cromo» e o seu significado.
A expressão «cromo» pode referir-se a uma pessoa que tem um comportamento ridículo e nesse sentido o cromo é um ser patético e digno de piedade. No entanto, ainda que esse sentido pareça proliferar, o cromo é mais do que isso.
Segundo um dicionário consultado, «cromo» diz-se da pessoa que tem um comportamento considerado estranho, excêntrico ou ridículo. Com este conceito mais alargado percebe-se que muitos de nós podemos ser classificados como cromos e isto tanto mais quanto mais o cinzentismo alastra.
Mas afinal quem pode ser cromo e que carga tem a expressão? Para não falar de outros, falarei de mim. Sou escritor e defendo e divulgo a literatura, o que, deixando de lado a questão de o meu comportamento ser ridículo, facilmente será classificado como um comportamento excêntrico e estranho, num mundo em que a literatura tem tão pouca importância, levantando-se de imediato, sem apelo nem agravo, a possibilidade de eu ser um cromo.
Se acrescentar que sou indiferente ao futebol então as possibilidades de ser um cromo aumentam exponencialmente. Sabendo que uso cabelo comprido, a muitos não restarão dúvidas! Mas baralhando e voltando a dar, ser um cromo, neste mundo cada vez mais cinzento, será um defeito ou uma qualidade?
E desculpe-me o leitor que está a pensar, sim, eu sei que está a pensar que não é, é que não é mesmo um cromo, mas deixe-me dizer-lhe, mesmo que não seja um cromo, terá com certeza as suas cromices, as suas exuberâncias, as suas excentricidades. E não digo isto com malícia ou com intenção de o depreciar, mas porque acredito que quem não tem excentricidades, paixões, fortes inclinações vive provavelmente um dia a dia tão triste como um jardim sem flores. E quem me conhece sabe quanto eu gosto de flores! Até à próxima, cromices à parte.