Quase a terminar o ano de 2015, surgiu a triste notícia que os mais próximos temiam: numa fria madrugada de dezembro, desapareceu Cândida Margarida Ventura. Combatente anti-fascista, insigne portuguesa, cidadã exemplar, foi talvez uma das últimas depositárias de valores e de um carácter que tanta falta fazem na nossa incipiente democracia do século XXI.
Conheci-a em Portimão, numa animada campanha eleitoral autárquica em finais de 2001. Do alto da triste ignorância dos meus 27 anos, não só desconhecia o percurso daquela senhora com um ar aparentemente frágil, como nunca tinha sequer ouvido falar do seu nome e da sua luta. Os acasos que o destino às vezes tece, encarregaram-se de desfazer o meu imberbe desconhecimento e de, ao longo de quase 15 anos, proporcionar-me o prazer e o privilégio ímpares de privar com uma mulher única, com uma história de vida que, de tão intensa e preenchida, vale por várias vidas!
Mais do que lembrar neste momento doloroso o longo percurso de Cândida Ventura, marcado pela clandestinidade, pela prisão e tortura às mãos da PIDE, pelo longo exílio e pela coerente ruptura com o Partido Comunista Português (PCP), a seguir ao 25 de abril, cabe aqui evocar a personalidade singular de uma mulher que soube pôr de lado as suas necessidades e conveniências pessoais, para privilegiar, sempre e em toda a parte, a luta pela liberdade, pela dignidade da pessoa humana, pela afirmação da Mulher e da condição feminina e pela Democracia!
Quando hoje olhamos para as denominadas «figuras públicas» que povoam a nossa sociedade democrática e constatamos que tantas vezes abundam a vaidade oca, a busca desesperada de protagonismo e a necessidade incessante de «orientar a vidinha», ganha um redobrado significado recordar a postura desta figura impar do século XX português, injustamente esquecida (como amiúde sucede no nosso país) e que, pagando um elevado preço a nível pessoal, familiar e profissional, colocou sempre a defesa intransigente daqueles valores à frente dos seus interesses pessoais.
A atitude que Cândida Ventura tomou aquando da invasão de Praga pelos tanques soviéticos (em 1968), afrontando a posição seguidista então assumida pelo PCP e por Álvaro Cunhal, constitui um exemplo paradigmático da sua têmpera inquebrantável. Mas a sua pública dissidência e ruptura com o mesmo PCP, num tempo em que era fácil ser militante deste partido, em pleno rescaldo do PREC, marcam indelevelmente o carácter, a coerência e o exemplo maior de uma grande figura da nossa sociedade, cuja história deve ser transmitida aos portugueses de amanhã.
Como assinalava Henrique Monteiro numa crónica publicada na edição online do «Expresso», não deixa de ser estranho – e, acrescentamos, quase trágico – que a morte de Cândida Ventura tenha merecido uma tímida referência na imprensa e na sociedade portuguesas. Num país e num regime que soubessem valorizar os seus filhos mais ilustres, certamente que este momento triste seria aproveitado para lembrar um exemplo de vida tão marcante, de alguém que soube abdicar de si, tantas vezes, em nome de valores colectivos que considerava bem mais relevantes. Cândida Ventura – ou «Catarina», numa das muitas identidades que assumiu na clandestinidade para fugir à PIDE – merecia uma homenagem pública desta Democracia, que tanto ajudou a instaurar.
Mais do que comendas, medalhas ou condecorações, que, aliás, desprezava (também nisto era diferente…), merecia que todos nós divulgássemos incessantemente o seu exemplo de vida, a sua dignidade, a capacidade de indignação até ao fim dos seus dias, o seu carácter único, de amante activa da Liberdade e dos Direitos Humanos. Também aí, falhamos! Porque Cândida Ventura, afinal, era maior do que Portugal! Até Sempre, Catarina!
João Gonçalves Caetano | Amigo de Cândida Margarida Ventura e membro da Assembleia Municipal de Portimão (Coligação SERVIR PORTIMÃO)