Ao acompanhar as primárias para a eleição do próximo Presidente dos Estados Unidos da América, ficamos com a impressão de que metade daquela nação se está a tornar socialista. Quando vemos a percentagem de norte-americanos que está a votar em Bernie Sanders, comparado com o número dos que votam em Hillary Clinton, essa ideia tem de nos assolar o espírito. Mas não será com certeza bem assim.
O que observamos nas notícias que nos chegam, são percentagens relativas a todos os que votaram nessas primárias. No Iowa, houve um empate técnico entre Hillary Clinton e Bernie Sanders, 50 por cento dos votos para cada um, sendo que o terceiro candidato, Martin O’Malley, teve um resultado residual. Num país com uma população de 320 milhões, aproximadamente, tendemos a pensar que os resultados das primárias exprimem o pulsar da nação. Não creio que seja exatamente assim.
Mas voltemos às primárias e à perceção que temos da recetividade das propostas de Bernie Sanders, candidato assumidamente socialista, coisa que nunca foi bem recebida nos Estados Unidos, sendo que o seu resultado é por isso mesmo uma surpresa. No Iowa, os resultados foram: Hillary 49.5 por cento, Sanders 49.5 por cento e Martin O’Malley 1 por cento. No Iowa votaram em Sanders 697 pessoas, em Hillary 701 e em O’Malley 8 pessoas. Em números absolutos, a coisa parece muito menos espetacular.
Mas a questão que causa espanto é o sucesso das propostas de Bernie Sanders numa nação alérgica a tudo o que possa soar a socialismo. Ganhou a seguir em New Hampshire, por 60 por cento contra 39 por cento de Hillary Clinton. A explicação, para mim, é que o seu eleitorado é muito mais focado e militante. Um pequeno grupo de pessoas, altamente motivado e profundamente focado no objetivo consegue ser muito mais eficaz que uma enorme massa.
Temos o exemplo em Portugal do casamento homossexual e a adoção por casais homossexuais. Um número reduzidíssimo de pessoas, com uma agenda que não diz nada à grande maioria dos portugueses, conseguiu promover uma agenda profundamente eficaz e em meia dúzia de anos, passar de uma legislação que não reconhecia o casamento gay para uma legislação que consagra o direito a casais homossexuais de adotar uma criança.
E isto são lições poderosíssimas acerca de novas maneiras de fazer política. Os objetivos das maiorias ficam sempre em segundo lugar porque essas maiorias da população, por serem maiorias, têm interesses demasiado diversos, demasiado dispersos. As minorias ou ideias inovadoras não.
Conseguissem os algarvios estar focados no Algarve e nos nossos interesses, e apenas nesses, e questões como a exploração petrolífera ou as portagens na Via do Infante já fariam parte da história.
Estamos demasiado divididos em termos políticos, e a política partidária hipoteca a construção de um Algarve melhor. É altura de os nossos representantes, os autarcas eleitos pelos algarvios, deixarem de lado questões menores e trabalharem a sério em conjunto, para lá de declarações muito interessantes mas que não passam disso mesmo. E mostrarem que estão ao serviço dessa comunidade de interesses comuns que é o nosso Algarve, e que defendem a nossa economia, os nossos postos de trabalho, as nossas empresas e o nosso modo de vida.
O nosso objectivo é um Algarve melhor. A prosperidade dos algarvios. Foquem-se nisso. Precisamos de uma agenda política regional que esteja para lá dos interesses imediatos dos partidos. Uma agenda politica que esteja ao serviço do Algarve e dos algarvios.
Opinião de José Eduardo Sousa | Militante centrista