Um espaço exíguo com sacos de serapilheira e papéis velhos. Uma cadeira como a que se vê na pintura «O Quarto», de Van Gogh. Um homem ainda jovem, muito magro, usa um casacão velho e umas botas rotas.
A personagem é Tomás Vieira, um albufeirense da Guia. «É a memória do que restou dos portugueses. É ele quem narra as histórias dos outros, fantasmas que se cruzam em cena, e que vêm dar um pouco do seu relato. Para mim é uma experiência diferente por se tratar de alguém de Albufeira como eu, e por saber que houve pessoas daqui que morreram em Mauthausen», diz o jovem Luís Raphael, 23 anos, que interpreta o protagonista do monólogo.
O nome de Tomás Vieira é uma entrada no livro da morte de Mauthausen, na Austria. «Está no museu que abriu recentemente, junto com alguns objetos pessoais, por exemplo, do Manuel João, que era de Loulé. Um relógio e uma missiva que seria para a mulher», diz Luísa Monteiro, que assina o texto da peça e a encenação.
«O Tomás Vieira faz-me lembrar o túmulo do soldado desconhecido que visitamos quando somos crianças e que nos parece um pouco absurdo – se é desconhecido, como é que lhe prestamos homenagem? Ao que tudo indica, era algarvio da freguesia da Guia, de uma família de pessoas ligadas ao comércio do figo que faleceram no estrangeiro, nesta altura», revela.
«Sendo de Albufeira estas pessoas estavam em Paris, e seriam ligadas a atividades culturais, à resistência francesa e judeus. Desde o tempo da inquisição que os Vieiras eram perseguidos por causa dos figueirais», considera.
Segundo a escritora, há «uma familiar que ainda está viva, mas não fala nestas questões e, portanto, não me foi possível obter uma fotografia deste Tomás», explica.
Mas o que a levou a tocar no holocausto? «Todas as monstruosidades que vemos, dizemos, bem, isto é humano. O humano também é assim. Compreendo esta situação a título individual, numa psicopatia forte. Mas neste caso foram milhares de pessoas que cometeram assassínios em massa».
«Em toda a minha busca de relatos e depoimentos, tropecei num de uma dona de casa alemã que, na altura, escrevia cartas a uma familiar que estava em Londres. Dizia-lhe que tinha muita pena do que estava a acontecer ao povo judeu, lamentava ver as famílias a serem desmembradas. Mas, dizia ela, tinham fartura dentro de casa, tantas coisas e tão bonitas, que era muito bem feito».
«A atitude desta senhora, doméstica, que expressa um pouco aquele sentimento ao nível das altas patentes, leva-me a crer que o ser humano é esta coisa muito doméstica. E muito perigosa, porque é excessivamente centrada no seu próprio umbigo», explica.
«Se há 60 anos, uma simples dona de casa, poderia falar assim, interrogo-me se não poderia pensar de igual forma hoje? E se realmente estamos assim tão mudados em termos racionais, espirituais, ao nível do nosso crescimento dito humano como animais que somos?»
Uma história por contar
Desde que leu uma reportagem que mencionava a história de Casimiro Martins, um algarvio que partira para os Pirenéus franceses para ir trabalhar na construção civil com um irmão, acabando por morrer pouco depois no campo de concentração de Neuengamme, que o assunto não deixou de interessar a Luísa Monteiro.
«Têm sido descobertos novos filmes, há muita coisa para desenterrar. O que lamento, é que, em Portugal, nós não termos o culto memorialista. Não damos valor à história. Deveríamos fazê-lo, porque é perpetuando a memória que evitamos alguns erros. Não nos podemos esquecer que morreram 300 portugueses nos campos de concentração».
No entanto, o mais certo é esta estimativa, revelada recentemente num congresso que a escritora assistiu, pecar por defeito. «Os alemães não sabiam português, nem sempre escreviam os nomes da forma correta, nem sempre diziam que os presos eram de Portugal. O Tomás é um dos poucos escrito por mão alemã de forma correta. Há todo um trabalho que está por fazer, pegar nestes livros memorialísticos e verificar» novas pistas. «Nessa altura, Portugal estava deserto. Os homens iam tentar a vida noutras partes. Aqui ao lado, havia a Guerra Civil Espanhola. Restava a França. E iam a monte, para onde mais tarde se instalou o terror nazi».
«Tenho uma costela judia, isto também me diz algo. E só terminou há cerca de 71 anos. Foi ontem. Os nossos pais já eram pessoas crescidas quando aconteceu. A nossa indústria têxtil cresceu com o holocausto, fazendo sacos, roupas. Nós ficamos com o ouro dos judeus. Ainda fizemos campos de concentração benéficos para alemães, em Cascais e Carcavelos, com sol e praia para os acolher depois da guerra. Tudo isto causa-me imensas dúvidas».
«Não tanto em relação à nossa neutralidade» durante a Segunda Guerra Mundial, «não iria tanto pela via política, mas pelo lado humano. Esta peça justifica-se por isso mesmo. Lutar contra o demónio do esquecimento que é o pior deles todos».
Uma última pergunta: porquê um monólogo? «Porque permite um trabalho mais interior, mais de sussurro. Não quero que esta peça seja trágica. O que pretendi é que houvesse a voz de uma certa memória. O Tomás narra isto a partir do momento em que já está morto».
O pano desce e apaga, por fim, a sombra de uma «suástica distorcida, completamente despedaçada, mas que ainda existe, infelizmente» conclui.
Do Algarve para os campos nazis da morte
Tomás Vieira, carroceiro em Paris, nascido a 7 de março de 1890, em Albufeira, foi deportado para Dachau, a 9 de agosto de 1944, com outros oito portugueses, entre eles, os louletanos Casimiro Martins e Manuel João. A 14 de setembro desse ano foi transferido para o comando Ebensee de Mauthausen, uma unidade subterrânea de produção de armamento, a que os nazis deram vários nomes de código (Kalk-Calcário ou Zement–Cimento, entre outros) com o objetivo de disfarçar a sua função: o extermínio. O albufeirense entrou a 16 de setembro e foi-lhe dado o número 99347. Entre os campos satélite de Mauthausen, Ebensee era considerado um dos que tinha piores condições, e uma das taxas de morte mais elevadas. O registo do campo refere que Tomás Vieira morreu às 17h45, do dia 16 de novembro de 1944, em virtude de «broncopneumonia e problemas cardíacos». Testemunhos de outros judeus indicam foi objeto de experiências médicas, injetado com bactérias de tifo e cólera e vítima de espancamentos. Por este tipo de tratamento, tudo leva a crer que, além do seu nome judaico, também pertencia à resistência francesa.
9º Festival «t» traz estreias a Albufeira
São cinco noites de espetáculos, de 17 a 22 de março, que o Auditório Municipal de Albufeira acolhe no âmbito da nova edição do festival «t», organizado em conjunto pela Companhia de Teatro Contemporâneo (CTC) e pela Câmara Municipal. O programa abre com a estreia absoluta de «O judeu que guardou portugueses no Quarto de Van Gogh», pela CTC, na quinta-feira, dia 17. A peça volta à cena na segunda-feira, dia 21. Na sexta-feira, dia 18, é a vez de «I can’t breathe», a nova criação de Elmano Sancho que recebeu o Prémio de Crítica 2015 da APCT. Depois, o Teatro Estúdio Fontenova leva à cena um dos mais notáveis textos dramáticos de Natália Correia, «O homúnculo», no sábado, 19 de março. Todos os espetáculos são às 21h30. A exceção é «Branca de Neve», uma sessão especial para crianças a partir dos três anos, no domingo, dia 20, às 11h00. É uma criação coletiva de Cheila Lima, Daniela Onis e Paulo Lag. A encerrar, à noite, a CTC estreia a comédia lírica «Barão Medusa» de Erik Satie, também com encenação de Luísa Monteiro.
De texto curto a peça de teatro
A encenadora Luísa Monteiro sempre quis saber mais sobre Terezin (Theresienstadt), onde muitos intelectuais foram presos pelos nazis. «Aqueles judeus que, durante o dia, andavam com pedras de 50 quilos para trás e para a frente, sujeitos às maiores atrocidades e sevícias, e à noite, às escondidas, sem luz, nem nada, compuseram óperas, fizeram peças de teatro, continuaram porque tinham crianças. E as crianças precisavam da cultura. As paredes estão cheias de trabalhos e o campo é hoje um museu. Eles perpetuaram a memória. O que os salvou foi a cultura», diz Luísa Monteiro referindo-se a Alice Herz-Sommer, a pianista mais antiga do mundo, que faleceu aos 108 anos. Foi este o ponto de partida para um ensaio de página e meia, há dois anos, que somado aos casos dos algarvios vítimas do holocausto se transformou na peça «O judeu que guardou portugueses no Quarto de Van Gogh». Na encenação, há um momento de música cubana que destoa no contexto. Luísa Monteiro, enquadra-a muito bem. «Foi a primeira música que Fidel Castro proibiu mal chegou ao poder. E, portanto, é uma vez mais a arte e a alegria a ser condicionada pelo poder político».
A era dos novos imperialismos
Em maio, Luísa Monteiro vai publicar um novo texto, «Irina com cerejas do Japão» que foca o tema da atual ex-URSS. «É uma Irina de hoje, mas que não deixa de estar numa Rússia imperialista. Como sabes vivemos um tempo imperialista de eminência. Os jovens russos andam a tatuar o Presidente Putin na pele, todos querem seguir o serviço militar. Como sabes, estão a criar guetos para homossexuais e esta futura hegemonia, Isto assusta-me um pouco. Se a memoria não nos precaver contra estas situações, poderemos estar sujeitos de novo a estes atropelos horríveis» à humanidade. Na calha está também «Balzac e a costureirinha chinesa» que tem a ver com a revolução cultural na China. Só mais tarde é que «O judeu que guardou portugueses no Quarto de Van Gogh» virá a ser editado, junto com outros textos que estão nas pontas dos dedos…