Desenhador tem a cargo a personagem Wonder Woman, nome também dado à revista que conta as suas histórias e que é vendida por todo o planeta.
«Eu sou como aquelas equipas pequenas que estão na Liga dos Campeões com os grandes tubarões», começa por afirmar ao «barlavento», Miguel Mendonça, de 34 anos, natural de Faro e residente em Olhão.
O gosto pela banda desenhada sempre lhe correu nas veias. Em criança acompanhava as personagens Astérix e Obélix e as tão conhecidas Batman e Super-Homem. Também o estilo japonês manga fazia parte da sua coleção. Miguel Mendonça reproduzia as personagens em papel, logo desde a sua infância. «As pessoas diziam que eu tinha talento, que tinha futuro, mas isso fazia-me confusão. Olhava à minha volta e não via ninguém com essa profissão, a fazer banda desenhada», recorda.
Um pensamento que persistiu até à escolha do curso na Universidade do Algarve. «Eu nunca acreditei que pudesse fazer vida disto e por isso escolhi formar-me em design», justifica. Apesar de ter trabalhado alguns anos na sua área de formação, o desenhador, como gosta de ser tratado, decidiu arriscar e enviar o seu portefólio além fronteiras. Dois anos depois do primeiro contacto feito, surge a oportunidade na DC Comics, empresa norte-americana, especializada em banda desenhada e considerada uma das melhores do mundo.

«No final de 2015 comecei a desenhar a Wonder Woman, uma das personagens mais famosas da marca com décadas de história», relembra o artista. Hoje, a personagem feminina continua a ser responsabilidade sua. «Cada revista mensal tem cerca de 22 páginas e eu faço cerca de uma por dia. Trabalho 12 ou mais horas diariamente. Não estou sempre inspirado, mas não posso desenhar só nos dias em que tenho inspiração. Isso foi algo que me mentalizei desde cedo. Sou muito disciplinado porque há prazos para cumprir». Um trabalho árduo que é recompensado pela editora, uma vez que o ordenado acaba por ser superior à média. Segundo refere Miguel, cada página desenhada pode valer entre 150 a 600 euros, tudo depende «da qualidade do artista, quanto mais conceituado for, mais cobra».
A revista que o algarvio desenha é vendida a nível internacional. «Tenho os olhos do mundo postos em mim e isso cria muita pressão», admite.
Mas é também esse panorama que faz com que o desenhador goste tanto daquilo que faz. «É surreal quando pessoas de outra parte do globo me contactam a dizer que gostam muito do meu trabalho. Quando vou às convenções de banda desenhada, e tenho contacto com os meus fãs, é que tenho a percepção do impacto daquilo que faço. Chego a ter pessoas a oferecerem-me coisas. Tive um fã que me deu a versão francesa de uma revista para a qual eu desenhei. Já tive também um amigo meu a viajar na Alemanha que encontrou um dos meus livros. É surreal. Pergunto-me sempre se isto está realmente a acontecer».

Apesar de já ter ido aos Estados Unidos da América conhecer os seus colegas de trabalho, Miguel afirma com segurança que mudar-se não faz parte dos seus planos. «Não é algo que eu ambicione. Eu gosto de viver aqui. E hoje em dia, já não se justifica, pelo menos neste tipo de trabalho. O local geográfico onde estou a trabalhar não é importante».
Já sobre trabalhar em Portugal, o artista algarvio é também claro. «As editoras portuguesas não conseguiriam nada disto. Eu não conseguiria viver da banda desenhada em Portugal, teria sempre de fazer outra coisa em simultâneo e não é esse o meu objetivo».
Questionado quanto ao seu maior sonho ou ambição de futuro, o desenhador afirma que já foi alcançado. «Quero continuar o que tenho estado a fazer e melhorar todos os dias. Tenho alguns projetos pessoais, que ainda é cedo para os revelar, e irei futuramente focar-me neles. Por agora estou bem com este trabalho, a desenhar as personagens que sempre admirei».
Devagar se vai ao longe
A carreira profissional de Miguel Mendonça, desenhador de banda desenhada, começa com o design, a sua área de formação. Fez trabalhos para a web, de design gráfico e até de ilustração editorial. Contudo, o algarvio sentia que «havia sempre um voz que me sussurrava a dizer que a minha paixão não era aquela. Quando comecei a ouvir essa voz, foi impossível ignorá-la. Tive de seguir o que ela me dizia». E assim fez. Começou por criar o seu portefólio de «arte sequencial», durante «cerca de um ano». Ao mesmo tempo, criou um blogue onde publicava os seus trabalhos. Pesquisou todos os contactos de editoras estrangeiras que conseguiu e fez questão de o enviar. O que é que obteve? «Um verdadeiro nada», relembra. Mas, em vez de desistir, pensou: «tenho de fazer outro».

Passado mais um ano, e com um portefólio «refeito e melhorado», volta a entrar em contacto com as editoras. Desta vez, não lhe faltaram respostas. «Acabei por escolher aquela que era mais interessante para mim, uma editora mais pequena chamada Zenescope».
Com essa editora norte-americana, sediada na Pensilvânia, Miguel Mendonça colaborou por cerca de dois anos, onde realizou trabalhos para a revista Little Mermaid, em parceria com a autora Meredith Finch. Mais tarde, no final de 2015, a autora convida o algarvio para desenhar para a sua nova personagem, a Wonder Woman da DC Comics, editora americana, especializada em histórias aos quadradinhos e considerada uma das melhores do mundo. «Essa foi a minha porta de entrada para a DC Comics e até hoje está a correr muito bem».
Ilustração ao vivo nos Encontros do DeVIR
Miguel Mendonça começou o seu percurso de desenhador na ilustração editorial. Criava desenhos que ilustrassem artigos ou textos. Apesar de ter deixado essa área há alguns anos, aceitou o convite do Centro de Artes Performativas do Algarve (CAPA), para atuar num dos espetáculos da programação da quinta edição do festival Encontros do DeVIR. No sábado, 27 de abril, materializou o texto do ativista angolano Luaty Beirão. Enquanto o autor lia, o desenhador algarvio ilustrava-o numa tela projetada para o público. Luaty abordou a questão da guerra civil e da corrupção naquele país africano, temas que «nada têm a ver com a banda desenhada que eu crio», referiu ao «barlavento».

«Estas ilustrações não são algo que eu ainda costumo fazer, mas aceitei o desafio. Em dez minutos, tive de desenhar ao vivo. É muito diferente de desenhar no meu escritório uma página que me leva 12 horas a fazer». Para se preparar, começou por ler o texto e fazer a ilustração, sem tempo cronometrado. Mais tarde, teve um ensaio no CAPa. Em relação ao público algarvio, Miguel afirma que as pessoas «ainda não me conhecem, até porque muitas nem sabem o que é a DC Comics», empresa americana especializada em banda desenhada, para a qual o artista trabalha. No entanto, «é normal que isso aconteça porque em Portugal não existe a cultura da banda desenhada, há apenas certos nichos». De qualquer forma, «não ambiciono o mediatismo, estou feliz com o que tenho».