O «barlavento» foi à FATACIL e quase não encontrou artesãos algarvios. Entre os muitos, de outras paragens, descobrimos Ana Rita Caleiro, uma jovem de 33 anos, comunicadora nata, natural de Setúbal, a viver em Lisboa, e com uma forte ligação a Odiáxere, pelo casamento e pela horta que lá possui.
A sua história é semelhante a tantas outras, cada vez mais corriqueiras: uma licenciatura em Comunicação Social, um emprego na área das Relações Públicas durante nove anos, o desemprego… e a necessidade de mudar de carril, para continuar a viagem pela vida.
Neste caso, aconteceu há três anos e meio com a decisão de realizar o seu sonho de negócio: «aliar a arte à força das palavras».
barlavento – Em que consiste «Palavras com arte»?
Ana Rita Caleiro – É um projeto de artesanato personalizado que gera emoções e que vai muito para além do simples artesanato. Agarro em peças que são apenas úteis, como bolsas para telemóveis, marcadores de livros, porta-chaves ou bolsas para tablets, e acrescento-lhes um cunho emocional, através da força da imagem das palavras.
Pode explicar melhor?
Ninguém espera abrir uma peça de artesanato, uma bolsa para telemóvel, por exemplo, e encontrar no seu interior uma imagem sua, de um filho, de alguém ou algo muito especial, acompanhada por uma frase que vai despertar em si emoções fortes, atingindo um ponto sensível.
Onde vai buscar essas palavras ou frases emotivas?
Podem ser fornecidas pelo cliente, ou de um portfólio que possuo, com frases já divididas por temas, de minha autoria, de Fernando Pessoa, Florbela Espanca e outros. Mas a escolha será sempre do cliente, porque os meus trabalhos são personalizados. São peças exclusivas!
E o trabalho base onde insere as «emoções» é seu, ou de outros?
De minha autoria, desde a idealização e o design, aos moldes, manufaturação em polipele, furação e processo manual de coser. O meu pai idealizou uma máquina para fazer a perfuração integral de peças planas, mas a maioria ainda é feita com um alicate, furo a furo. Desenvolvo também a parte criativa associada à imagem. Se esta for fornecida pelo cliente, maquetizo-a com a frase escolhida e envio ao cliente para aprovação.
Contudo, para fazer feiras, necessita de muito material standard?
É verdade. Por isso criei porta-chaves com nomes, que têm tido muita saída. Tenho um leque de nomes de pessoas e, depois, faço o acróstico, a decomposição da palavra na vertical, em que cada letra dá origem a uma característica. Faço-o com base em pessoas que conheço e, como tudo o resto que faço, é emocional, a forma como sinto as pessoas com aquele nome. E as pessoas identificam-se bastante, é quase o retrato delas. Quando não tenho a peça pronta, tenho a base e posso coser na própria hora. O cliente observa-me a trabalhar ao vivo, o que faz com que valorize mais a peça, pois vê que tudo foi feito manualmente. Gosto muito de conversar com as pessoas, explicar o que é este projeto de emoções e acaba por ser uma mais-valia, porque, quando se olha para o stand, não se percebe o potencial que o mesmo encerra.
Mas também tem outra marca, a «Momentos com Arte». Em que consiste?
Foram um chavão que criei para integrar um conjunto de pequenos projetos que achei que geravam momentos especiais. O grupo «Tudo Bem», que já tenho há 13 anos, em que cantamos na celebração de casamentos na igreja, abordando não só os temas litúrgicos tradicionais, mas também Mafalda Veiga e Madredeus. Dão um carácter muito emocional à cerimónia e comovem muito, não só os noivos como os convidados. Nunca conseguimos parar, porque os convidados gostam tanto que nos convidam para abrilhantar, depois, os seus próprios casamentos. Também temos um Citroen 2cv, do meu pai, em excelente estado, no qual fui transportada, quando me casei, decorado por mim com orquídeas e rosas. Transformei-o numa ideia de negócio, abrindo um serviço de transporte dos noivos. Tem tido uma grande aceitação, porque foge ao carro clássico. O facto de abrir a capota, permitindo aos noivos ir em pé, permite fotos muito giras. E uma casa em Sesimbra, a 100 metros da praia, que redecorei com o «quarto-natureza» em tons verdes, o «quarto-do-amor» em tons vermelhos, a sala em tons marítimos, etc., para fins-de-semana românticos ou em família; uma vez mais, as emoções estão presentes.
Ana Rita Caleiro prefere trabalhar no seu atelier. Começou a vir às feiras há ano e meio porque é um modo de divulgar a sua arte. E permite-lhe também analisar as tendências do mercado, e a disponibilidade financeira para passar à fase seguinte, a empresarial. Nesta área, já conseguiu uma primeira encomenda de 50 marcadores de livros para o Montado Hotel & Golf Resort, em Palmela, tendo usado uma pele rugosa e com uma cor que lembra a textura do sobreiro.
O seu maior obstáculo para dar o salto é, segundo confidenciou ao «barlavento», a sua dificuldade em delegar tarefas, por ser muito perfecionista.
Ainda canta fado no grupo «Fora de Horas», mas foi convidada pelos guitarristas e não o considera, portanto, um projeto seu, embora lhe empreste a emoção que coloca em tudo o que faz. Quem estiver interessado em artesanato personalizado, a artista está disponível através dos contactos [email protected] e 931 187 887.