Chamava-se «Nove Primos» e era de Vila Real de Santo António antes de ser de Olhão. Agora chama-se «Denis», tal como um dos netos do dono, pés e mãos a remendar as redes sob um suave azul, morno Setembro. «Sabe que o motor deste barco tem 50 anos? É verdade», jura-me.
Reza a história que foi construído em Moçambique, navegado por gente fugida da guerra, talvez pela velha rota da Boa Esperança. Ainda fez escala em Angola e mais fugidos vieram a bordo. Custou-lhe «15 mil contos» e teve de reparar os estragos que o antigo armador que não quis saber. «A água doce dá cabo de tudo», comenta, a proa magoada pelo Guadiana.
«A madeira é tão boa, que nem a ferramenta conseguiu tirar os pregos. Partia-se a cabeça e o prego ficava lá dentro» nas entranhas, qual feitiço africano entranhado na alma.
O avô do Denis remenda as redes que o mestre rasgou na faina, o último cerco à sardinha do ano. Mas não culpa a tripulação. «O fundo do mar tá cheio de ferros» e de tudo o que agride as artes e os homens. E amanhã, sem sardinha, como vai ser? «A cavala já não vale nada. Agora veja lá com todos os barcos à pesca da cavala, quanto é que ela valerá?»…