Após a conclusão do concurso promovido pelo Governo da AD, a futura Unidade de Saúde Familiar Modelo C (USF-C) de Silves deve ser encarada com seriedade, prudência e esperança.
O Governo da AD prometeu, o concurso foi concluído com sucesso e a palavra dada aos algarvios vai começar a cumprir-se em Silves. No entanto, a futura Unidade de Saúde Familiar Modelo C (USF-C) deve ser entendida com seriedade, prudência e esperança.
Não como uma vitória ideológica de uns contra outros, nem como um expediente administrativo para preencher uma lacuna estatística, mas como uma resposta assistencial concreta a uma necessidade humana urgente: garantir cuidados de saúde primários a milhares de pessoas que vivem sem médico de família, sem acompanhamento regular e, muitas vezes, sem a segurança mínima de saber a quem recorrer antes de a doença se agravar.
Em política de saúde, há momentos em que a realidade deve falar mais alto do que os preconceitos. Silves é um desses casos. Um concelho extenso, com população envelhecida, dispersão territorial, zonas urbanas, rurais e serranas, comunidades com diferentes níveis de acesso, famílias pressionadas e muitos idosos que vivem sozinhos ou dependentes de redes informais de apoio não pode ficar preso a respostas lentas, centralizadas e distantes. Quando a saúde chega tarde, chega pior. E, quando o Estado promete presença mas não a consegue entregar, os cidadãos não precisam de discursos: precisam de soluções.
É por isso que a criação de uma USF-C em Silves tem importância política, social e moral. Política, porque demonstra que a organização dos cuidados de saúde primários tem de se adaptar à realidade concreta dos territórios. Social, porque pode devolver acompanhamento regular a quem ficou demasiado tempo à margem. Moral, porque nenhum sistema de saúde digno deve aceitar que uma pessoa idosa, um doente crónico, uma criança ou uma família vulnerável fiquem sem porta de entrada efetiva no Serviço Nacional de Saúde (SNS).
Do ponto de vista democrata-cristão, esta matéria deve ser olhada a partir de três princípios essenciais: dignidade da pessoa humana, subsidiariedade e solidariedade. A dignidade recorda-nos que cada utente é mais do que um número numa lista. Cada pessoa sem médico de família representa uma história interrompida: uma hipertensão que não foi vigiada, uma diabetes que não foi acompanhada, uma depressão que se agravou em silêncio, uma fragilidade que poderia ter sido prevenida, uma família que ficou sem orientação.
A subsidiariedade ensina-nos que aquilo que pode ser resolvido mais perto das pessoas deve ser resolvido mais perto das pessoas. Não por desresponsabilização do Estado, mas por exigência de eficácia humana. Um bom sistema público não é aquele que concentra tudo em Lisboa, em Faro ou no hospital. É aquele que consegue estar presente em Silves, em Algoz, em Tunes, em Alcantarilha, em Pêra, em São Bartolomeu de Messines, em São Marcos da Serra e nas localidades onde a distância não é apenas medida em quilómetros, mas em solidão, dependência e dificuldade de mobilidade.
A solidariedade, por sua vez, obriga-nos a reconhecer que a saúde não é apenas um contrato entre o utente e o serviço. É uma responsabilidade comunitária. A USF-C de Silves só cumprirá plenamente a sua missão se souber articular-se com a ULS Algarve, com a autarquia, com as juntas de freguesia, com as IPSS, com as farmácias, com os cuidadores, com as escolas, com as associações locais e com as redes informais que conhecem o terreno melhor do que qualquer despacho ministerial.
Convém, por isso, evitar duas tentações. A primeira é a tentação ideológica de rejeitar esta solução apenas porque envolve uma entidade privada. O SNS não se defende com dogmas, mas com resultados ao serviço das pessoas. A Constituição, a Lei de Bases da Saúde e a tradição social portuguesa sempre reconheceram a existência de respostas públicas, sociais e privadas, desde que subordinadas ao interesse público, à fiscalização, à equidade e ao acesso universal. O que importa perguntar não é apenas quem gere, mas para quem gere, com que regras, com que transparência e com que resultados.
A segunda tentação é a ingenuidade tecnocrática de acreditar que basta adjudicar, contratualizar e anunciar para que o problema fique resolvido. Não fica. Uma USF-C não pode ser apenas uma placa na porta, uma aplicação digital ou uma promessa de inovação. Tem de ser uma unidade com rosto, equipa, agenda, presença clínica, capacidade de resposta, cuidados domiciliários e avaliação pública. O povo de Silves não precisa de uma solução abstrata. Precisa de médicos, enfermeiros e assistentes técnicos que conheçam os utentes, acompanhem as famílias e estejam disponíveis antes da crise.
A escolha de uma empresa com forte componente tecnológica, a Knok Care, pode ser uma oportunidade, desde que a tecnologia seja colocada no lugar certo: como instrumento de aproximação, nunca como substituto da relação humana.
A telemedicina pode ajudar muito. Pode facilitar contactos, monitorizar doentes crónicos, evitar deslocações desnecessárias, melhorar a triagem, apoiar a renovação terapêutica, lembrar consultas, organizar informação e dar maior segurança aos utentes. Mas não pode transformar a medicina familiar numa central remota de atendimento. Em cuidados primários, a confiança nasce da continuidade. E a continuidade exige presença.
Silves precisa de uma USF-C que compreenda o território. Um concelho com idosos, trabalhadores agrícolas, famílias jovens, residentes estrangeiros, pessoas isoladas, doentes crónicos e população dispersa exige uma resposta flexível. Não basta abrir portas no centro urbano e esperar que todos consigam chegar.
É necessário planear proximidade, cuidados domiciliários, articulação com o transporte local, sinalização de situações de risco e ligação permanente às estruturas sociais. A saúde começa, muitas vezes, numa conversa com uma assistente social, numa visita de enfermagem, numa farmácia de proximidade ou num alerta de uma junta de freguesia.
Esta solução será particularmente relevante se ajudar a libertar o hospital daquilo que nunca deveria lá chegar. Uma parte da pressão sobre as urgências nasce da falha dos cuidados primários. Quando alguém não tem médico, quando não consegue consulta, quando não sabe se deve esperar ou procurar ajuda, acaba, muitas vezes, na urgência. E a urgência, que deve responder à emergência, transforma-se no refúgio de tudo o que falhou antes. Uma boa USF-C em Silves pode evitar sofrimento, reduzir deslocações, melhorar diagnósticos precoces e devolver racionalidade ao sistema.
Mas, para isso, é indispensável escrutínio. A população tem direito a saber onde funcionará a unidade, quais serão os horários, que equipa estará disponível, como serão marcadas as consultas, como será garantido o atendimento em tempo útil, que resposta haverá para os acamados, que ligação existirá às especialidades e que indicadores serão publicados. Transparência não é hostilidade. É confiança organizada. E confiança, em saúde, vale tanto como qualquer investimento.
A matriz democrata-cristã convida-nos a olhar para esta oportunidade sem preconceito e sem ingenuidade. A livre iniciativa pode servir o bem comum quando é enquadrada por regras justas, objetivos públicos e responsabilidade perante a comunidade. O Estado não perde dignidade quando contrata bem; perde-a quando abandona os cidadãos. O setor privado ou social não ganha legitimidade por existir; ganha-a quando serve com competência, humanidade e respeito pela pessoa.
A USF-C de Silves deve, por isso, ser julgada por critérios simples: mais pessoas com acompanhamento regular; menos espera; mais prevenção; mais visitas domiciliárias; mais controlo das doenças crónicas; melhor articulação com a rede social; menos idas evitáveis às urgências; mais satisfação dos utentes; mais humanidade no cuidado. Tudo o resto é secundário.
Silves merece uma saúde próxima, estável e responsável. Merece uma resposta que não trate o interior como periferia, nem os idosos como peso, nem os doentes crónicos como inevitabilidade estatística. Merece que a inovação tenha coração, que a gestão tenha rosto e que o SNS continue a ser, antes de tudo, uma promessa de cuidado universal.
Se esta USF-C cumprir esse caminho, será uma boa notícia para Silves e para o Algarve. Não por ser nova, nem por ser diferente, nem por envolver tecnologia, mas porque poderá fazer aquilo que a política deve fazer quando é verdadeiramente nobre: aproximar o cuidado das pessoas, proteger os mais frágeis e transformar uma necessidade antiga numa esperança concreta.
A saúde em Silves não precisa de mais trincheiras ideológicas. Precisa de portas abertas, equipas presentes e comunidade mobilizada. Precisa, em suma, de cuidado com rosto humano.
Alexandre Guedes da Silva | Algarvio e Democrata Cristão
Foto: Knok Care