Recensão sobre O corpo a pender-lhe uma solidão, de Maria Joana Almeida, livro onde memória, poesia e herança literária se cruzam.
Fernando Cabrita, um daqueles poetas do Algarve que não tem o reconhecimento devido, disse-me, certa vez, na apresentação de um dos meus livros: devemos reconhecer que estamos todos sobre os ombros de gigantes.
Fazê-lo não nos menoriza; pelo contrário, não só retira o P maiúsculo da palavra poeta, permitindo-lhe começar exactamente da mesma forma que começa, por exemplo, a palavra operário, como também coloca tudo em perspectiva, para não cairmos nas armadilhas do ego.
Maria Joana Almeida, no seu último livro, O corpo a pender-lhe uma solidão, uma homenagem à sua mãe, começa — e bem — por dar crédito aos gigantes que lhe emprestam os ombros, quando afirma como ponto de partida A Minha Mãe, de Stéphane Servant e Emmanuelle Houdart, publicado pela Orfeu Negro, na senda de uma longa e nobre tradição onde a inspiração, o diálogo e a apropriação se misturam de forma produtiva.
Mesmo não estando o leitor familiarizado com o tema do livro, e até sentindo distância em relação a temáticas mais pessoais ou emocionais na literatura, existe ainda assim todo um potencial universalizante e transversal que permite outras dimensões personalizadas, particularmente abrigadas pelo ritmo, esse agente essencial para o desenvolvimento poético, criador de hinos, desancorado da rima, mas resguardado no fluir natural da escrita, construindo momentos de delicadeza imagética em coabitação com outros de força íntima.
Essa frincha que MJ concede permite a entrada da luz, pois tudo aqui são seus gradientes, de forma a o leitor ver não só o livro de MJ, mas também a sua própria construção, filtrada pela experiência pessoal, longe dos monólogos enfadonhos da poesia masturbatória e egóica, criando um diálogo simultaneamente interior e exterior.
Livro, aqui elevado a objeto fetiche, onde as ilustrações de Marta Nunes e o design lhe conferem a corporização desse estatuto maternal.
Maria Joana Almeida
O corpo a pender-lhe uma solidão
Elefante Editores, edição limitada a 100 cópias
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Hugo Filipe Lopes (Cobramor)
Autor. Tradutor. Editor.
Antitudo.
Copy criativo. Sociólogo.
O necessário para um precário
