Serra do Caldeirão será uma das três áreas-piloto de intervenção da WWF Portugal, que investe 1,8 milhões de euros até 2030 para restaurar ecossistemas.
A Serra do Caldeirão, entre os concelhos de Loulé, Tavira, São Brás de Alportel, Silves e Almodôvar, vai receber as primeiras ações de restauro ecológico da WWF Portugal no Algarve, já a partir de 2026, no âmbito do programa nacional Re-Store Portugal.
O plano, com monitorização prevista até 2030, pretende restaurar ecossistemas degradados, reforçar a capacidade natural de retenção de água e travar a desertificação, num território fortemente afetado por incêndios florestais, seca e perda de biodiversidade.
O que vai ser feito
Na serra, a WWF Portugal vai desenvolver um plano de restauro ativo e passivo que passa pela reflorestação com espécies autóctones, como o sobreiro, o medronheiro e o azinho, e pelo controlo de espécies invasoras para permitir a regeneração natural da vegetação. Prevê ainda a estabilização de solos em zonas mais vulneráveis à erosão e a recuperação de linhas de água e nascentes, fundamentais para o equilíbrio hídrico e para o abastecimento dos vales algarvios.
O projeto inclui também a criação de corredores ecológicos destinados a favorecer o movimento e a reprodução de espécies ameaçadas, como o lince-ibérico e o coelho-bravo, reforçando a ligação entre habitats fragmentados. Em paralelo, a WWF vai promover boas práticas agrícolas e florestais junto das comunidades locais, envolvendo produtores e proprietários rurais na gestão sustentável do território.
Além das ações no terreno, estão previstas campanhas de educação ambiental e sensibilização comunitária, com a participação de escolas, associações e autarquias, para valorizar o património natural e incentivar a população a participar na regeneração da serra.
Porquê a Serra do Caldeirão
A serra foi escolhida por reunir grande valor ecológico e urgência de intervenção. Classificada como Zona Especial de Conservação (ZEC Caldeirão – PTCON0057) e integrada na Rede Natura 2000, alberga uma das paisagens mediterrânicas mais ricas e ameaçadas do país, marcada por solos frágeis, declives acentuados e uso agrícola extensivo.
A sua riqueza florística, com espécies como o medronheiro e o sobreiro, está ameaçada por incêndios e seca prolongada. Alberga fauna ameaçada, como o lince-ibérico e o coelho-bravo, e a recuperação deste felino icónico tem sido apoiada por projetos de recuperação de habitats e corredores ecológicos.
«Restaurar a natureza é reforçar a infraestrutura natural do país – aquela que sustenta silenciosamente a nossa economia, a saúde pública e o bem-estar coletivo. Portugal tem tudo para liderar este esforço coletivo, se souber valorizar os seus recursos naturais com ambição e visão estratégica», sublinha Ângela Morgado, diretora executiva da WWF Portugal.
A responsável defende que este projeto é «uma chamada de atenção para que Portugal lidere com ambição, conhecimento científico e envolvimento coletivo, projetando a recuperação da natureza, da qual todos dependemos».
Enquadramento nacional e europeu
O programa Re-Store Portugal, lançado oficialmente em 2025, representa um investimento de 1,8 milhões de euros em cinco anos, com ações-piloto em três áreas prioritárias: o Parque Nacional da Peneda-Gerês, a Serra do Caldeirão e o Estuário do Tejo.
A iniciativa insere-se na estratégia de cumprimento da Lei do Restauro da Natureza da União Europeia (Regulamento UE 2024/1991), que obriga todos os Estados-Membros a recuperar pelo menos 20% das áreas degradadas até 2030 e todos os ecossistemas degradados até 2050.
Parcerias e financiamento
O projeto é apoiado institucionalmente pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e por redes empresariais como a Grace e a BCSD Portugal – uma associação empresarial, sem fins lucrativos, que agrega mais de 200 empresas de referência em Portugal e as ajuda na sua jornada para a sustentabilidade.
O Lidl Portugal é o parceiro impulsionador da iniciativa, tendo financiado o estudo de viabilidade que identificou as áreas prioritárias de intervenção, entre elas a Serra do Caldeirão.
A empresa apoiou também a criação da plataforma digital Re-Store Portugal, através da qual os cidadãos podem contribuir para ações de restauro ecológico, e lançou sacos solidários nas lojas, cuja venda reverte para projetos de regeneração da natureza.
Com esta colaboração, o Lidl reforça a parceria estratégica que mantém com a WWF a nível internacional e assume um papel ativo na recuperação dos ecossistemas portugueses.
A WWF quer agora alargar o envolvimento empresarial a outros parceiros, como a Brisa, IKEA, EDP, OCP e Marriott, e integrar o programa no Plano Nacional de Restauro da Natureza, que o governo deverá apresentar à Comissão Europeia em setembro de 2026.
Perspectiva para o Algarve
No sul, a organização ambiental espera que o trabalho na Serra do Caldeirão sirva de modelo para outras zonas vulneráveis, como o Vale do Guadiana e a Ria Formosa, também identificadas como áreas prioritárias pela WWF.
«Apostar no restauro ecológico significa trazer prosperidade para todos: mais e melhor água, solos férteis, ar puro, abundância e diversidade, mais saúde, segurança e resiliência», conclui Ângela Morgado.
O que é a WWF
A WWF – World Wide Fund for Nature é uma das maiores organizações independentes de conservação do mundo, com presença em mais de 100 países e cerca de cinco milhões de apoiantes. A sua missão é travar a degradação da natureza e promover um futuro em que as pessoas vivam em harmonia com o planeta, através da proteção da biodiversidade, do uso sustentável dos recursos naturais e do combate às alterações climáticas. A WWF tem presença em Portugal desde os anos 1990, tendo evoluído a sua atuação ao longo dos anos. Hoje, esta ONG tem ativos cerca de 30 projetos no país.
Fotos: Bruno Filipe Pires


