O catamarã «Lo Spirito di Stella» esteve atracado na Marina de Portimão, na Praia da Rocha, até quinta-feira, 13 de julho. Seria um barco como tantos outros, caso não fosse o simbolismo que o reveste. É a embarcação mais acessível a pessoas com mobilidade reduzida, mostrando que barreiras, por vezes, só as há na mentalidade de cada um.
Partiu naquele dia rumo a Roma, em Itália, para a continuação de uma missão, que pretende dar mais um passo de gigante na questão relacionada com as acessibilidades. A iniciativa acontece integrada no projeto italiano «Wheels on Waves» que tem como rosto o velejador paraplégico e skipper Andrea Stella.
Ao «barlavento» o comandante Stefano Locci contou que Portimão foi a cidade escolhida para esta paragem, porque «alguns amigos do Andrea Stella conheciam a zona, visitam a cidade com frequência e disseram que era muito agradável».
«Pesquisamos na internet e descobrimos que em Portimão havia uma marina muito grande, com atividades e condições para pessoas com mobilidade reduzida. E de facto é completamente acessível. Contactámos a marina, demos a conhecer o nosso projeto e eles acolheram-nos, sem quaisquer encargos», destacou. Nesta decisão pesou ainda o facto da cidade estar equipada com um «bom estaleiro» que permitiu realizar «alguns trabalhos de reparação, após a travessia do oceano. Tivemos de levantar a embarcação, fazer a manutenção e aqui há todas as facilidades necessárias» disse ainda.
Até Portimão, Andrea Stella esteve ao comando do catamarã, numa viagem que durou cerca de um mês, tendo inclusive casado durante a viagem. «A travessia do Atlântico é uma muito longa navegação, muito exigente para o barco. Tivemos de parar nos Açores. A travessia do Mediterrâneo é muito diferente. Não é mais fácil, porque no oceano somos apenas um pequeno barco no meio de um mar imenso. No Mediterrâneo há muito tráfego e a meteorologia é muito diferente. A distância até Portimão são cerca de 3000 milhas, mas tivemos de nos afastar por causa do tempo e acabamos por fazer mais 600 milhas», avançou Stefano Locci, que começou a viagem em Miami com outra equipa.
Entre Nova Iorque e Portimão Andrea Stella assumiu o comando do barco, tendo neste ponto viajado para Itália de avião, onde esperará pela tripulação.
«Era um catamarã normal que foi modificado. A popa é plana, assim como o piso. Entrar na cabine é fácil, pois o painel está à altura de uma pessoa em cadeira de rodas. Tem elevadores para o compartimento mais abaixo e a questão interessante é que estas alterações tornaram-no melhor para qualquer pessoa, quer tenha deficiência ou não», salientou Stefano Locci.
Para entrar a bordo é necessário, por exemplo, levantar um pouco a perna e, neste caso, há uma rampa de acesso que pode facilmente ser colocada junto ao ponto de amarração. «Foi projetado e construído por Andrea Stella. Ele é o proprietário, assim como a associação da qual o capital é presidente, e que promove esta questão da acessibilidade às pessoas», esclareceu. Foi criado em 2003, tendo navegado depois seis anos pela Europa, onde já levou, no total, cinco mil pessoas a navegar, sem quaisquer encargos. Andrea Stella, conforme revelou Stefano Locci, sofreu um acidente aos 23 anos.
«Estava na universidade e foi para Miami numa viagem para estudar inglês. Estava com uma pessoa ao lado, que ia a conduzir. Iam buscar outro amigo a uma zona muito segura, e ele foi alvejado. Foi por isso que acabou numa cadeira de rodas. Mas Andrea é um velejador. Viu que conseguia, depois de modificar o catamarã, e começou a mostrar a outras pessoas que também podiam ser capazes. Ou seja, quis partilhar a sua experiência com outras pessoas».
Um exemplo de entusiasmo é o de Salvador Mendes de Almeida, fundador da Associação Salvador, que, na manhã de quinta-feira, embarcava a bordo do catamarã com a missão de ajudar o atleta Fernando Pinto. «Conheci este projeto através do meu médico, que também é médico do Andrea Stella. Mais do que ter um barco também quis partilhar esta experiência com outras pessoas e então montou este projeto de levar a Convenção dos Direitos das Pessoas com Deficiencia desde a sede da ONU, em Nova Iorque, até Roma, ao Papa Francisco. E, em cada viagem, cada percurso, ele dá a possibilidade de mais pessoas com deficiência, igual a ele e igual a mim, viverem esta experiência no mar e visitar a embarcação», disse Salvador.
O presidente desta fundação terá como destino Gibraltar, percorrendo um total de 159 milhas, com um carácter solidário. Há 17 anos, Fernando Pinto, sofreu um acidente que o deixou paraplégico. Hoje pratica vela adaptada e apesar de ter sido vice-campeão do mundo não tem um barco adequado. Como necessita de ajuda para conseguir adquirir um e representar Portugal no Europeu em França e no Mundial do Japão, Salvador Mendes colocará as milhas que fizer à venda.
O valor necessário para apoiar o atleta é de 7641 euros. Cada milha custa 48 euros e poderão associar-se particulares, empresas, grupos de amigos, patrocinando meia milha, uma milha ou mesmo 5 e 10 milhas. Basta aceder ao website da associação.
Salvador acredita que as barreiras podem sempre ser ultrapassadas. «É muito importante sensibilizar. E acho que só o facto deste projeto ter conseguido adaptar um catamarã, pergunto-me se será mais mais complicado numa cidade? Há certos pontos que sim», mas a verdade é que «não há limites desde que haja vontade». «O Estado do Vaticano ainda não ratificou a Convenção dos Direitos das Pessoas com Deficiência. Acho que foi uma oportunidade muito bem escolhida pelo projeto e pelo Andrea para fazer valer também este tema, que muitas é esquecido e ao qual é dada muito pouca atenção. Este papa é espetacular e esperamos que ajude também. É isso que precisamos», disse Salvador. «Há imensas pessoas no nosso pais que não saem de casa, porque não têm acessos, não tem transportes, nem casas adaptadas. Isto é uma chamada de atenção» para a sociedade refletir, «até porque nunca sabemos quando nos calha a nós».


