De Espanha nem bom vento nem bom casamento, costumava dizer-se, e talvez o dito não esteja ainda completamente esquecido, porque as rivalidades e as brigas familiares tendem a persistir mesmo quando o motivo já foi esquecido e, digam o que disserem, Portugueses e Espanhóis têm muito em comum, tanto defeitos como qualidades; mas uma coisa são as pessoas e outra coisa os seus defeitos e qualidades, desde que não se deixem assoberbar por eles, é claro. Depois desta longa frase, vou fazer um parágrafo, para que eu e tu, leitor, possamos respirar e refletir. Retomando, quero dar conta de um projeto que contraria o dito inicial, centrado no Algarve e na Andaluzia, promovendo ligações entre essas regiões e os seus criadores, mostrando quem são e o que fazem, porque a arte e a cultura são potenciais aglutinadores de gentes e regiões.
Trata-se do projeto «Creadores del Sur | Criadores do Sul» e vem de Espanha para juntar criadores espanhóis e portugueses. O projeto já seria meritório se pretendesse mostrar, juntar, aproximar apenas uns ou outros, mas é mais ambicioso. Nas suas palavras, «através de uma série de breves entrevistas com vários escritores, pintores, cantores, escultores; queremos oferecer ao mundo o que está sendo criado a partir desse nosso sul». É um lugar comum, mas continuamos a dar muitas vezes mais atenção ao que nos separa do que aquilo que nos une. Imaginem uma equipa de futebol em que todos discutem uns com os outros, fora e dentro do campo, e concordarão comigo que essa equipa dificilmente ganhará qualquer jogo.
Em muitos aspetos, sinto que também nós agimos a maior parte das vezes assim, não distinguindo o que é importante a ponto de exigir que esqueçamos as nossas diferenças. Desculpa-me, leitor, por esta viragem, mas acredito que se nos unirmos em volta de interesses comuns obteremos resultados, por muito ingénuo e irrealista que pareça esta afirmação. Não me estou a explicar bem? Por exemplo, quanto à exploração de petróleo no Algarve, tem o leitor alguma dúvida que se a maioria da população algarvia disser não, que será essa opinião que vencerá? Os políticos, admitindo que têm interesse em continuar a exercer o poder, não podem contrariar os seus eleitores, mesmo que com eles não concordem. Passei de ingénuo a cínico em duas frases, só me resta abrir novo parágrafo e terminar esta crónica bicéfala. Baralhando e voltando a dar, poderia usar uma frase vulgar que escrevi antes noutro contexto, e dizer que «importante é aquilo a que dermos importância», leitor.
Escolhe as tuas causas e manifesta-te, se muitos fizerem como tu, a diferença acontecerá. Talvez não seja muito diferente do que que diz Baudelaire: «são horas de te embriagares! Para não seres como os escravos martirizados do tempo, embriaga-te, embriaga-te sem cessar! Com vinho, com poesia, ou com a virtude, a teu gosto».
Crónica «Da minha janela vê-se o Algarve» | Luís Ene | Escritor