Pergunto-me quantos apreciadores de vinho que vivem no Algarve, bebem, com regularidade, néctares produzidos nesta região? A grande maioria dos vinhos algarvios são, com certeza, consumidos por turistas e por gente de passagem pela região que querem experimentar o vinho local e que acabam por ficar bem impressionados. Entre estes, haverá certamente quem fique tão bem impressionado que decida visitar uma (ou mais) adegas. Tudo isto é bom. Mas o Algarve é um destino turístico sazonal. E até que o vinho algarvio seja, de facto, levado a sério, quer em Portugal, quer no mercado internacional, esta atividade enfrenta muitos desafios.
Um dos problemas é o preço dos terrenos, muito mais caro do que no Alentejo ou em qualquer outro ponto rural de Portugal. No entanto, vamos focar-nos primeiro nos pontos positivos. O vizinho Alentejo é uma região vitivinícola conhecida e respeitada, mas o Algarve está inquestionavelmente melhor adequado à produção de vinhos de qualidade. Temos o mesmo sol, mas um clima menos severo. Além disso, estamos protegidos por serras a norte e somos arejados pelas brisas oceânicas do Atlântico. Os solos argilosos forçam as raízes a cavarem fundo, sendo, por isso, ideais para a produção vitivinícola de alta qualidade.
Por tudo isto, o Algarve é, na sua essência, capaz de produzir excelentes vinhos. Hoje, graças ao cuidado com que as vinhas são tratadas, com o mínimo de intervenção química, e graças à paixão e ao compromisso dos bons produtores da região, pode dizer-se que este objetivo já está a ser conseguido. Olhemos então agora aos aspetos negativos, que obstaculizam o caminho para o sucesso e, aliás, ofuscam a reputação do Algarve enquanto região vitivinícola. Apesar da maioria dos produtores estar focada em produzir néctares de qualidade, privilegiando sobretudo técnicas naturais, também há quem adote métodos de produção em massa, à semelhança do que se faz no resto do mundo e noutras partes de Portugal. Ou seja, produtores que manipulam vinho tinto de pouca qualidade, acrescentando aditivos e sabores artificiais, de forma a que este se torne tragável e mais apelativo no mercado da grande distribuição.
Por exemplo, podemos estar a falar na adição de lascas ou até mesmo «pó de carvalho», para simular o estágio do vinho em barricas de madeira. Isto é, contudo, apenas a ponta do icebergue. Há uma vasta oferta de concentrados de taninos de frutos vermelhos, isto para não falar na já banalizada Goma Arábia (E414), que serve para melhorar a textura. Esta substância está para o vinho como o glutamato monossódico (MSG) está para a comida chinesa, um aditivo aparentemente inofensivo que intensifica o prazer de consumo. É também usado como emulsionante e estabilizador de quase tudo o que usamos no dia a dia, desde a graxa para os sapatos aos rebuçados e refrigerantes gaseificados. Estes aditivos permitem aos produtores lançarem no mercado vinhos tintos antes que estes estejam naturalmente prontos para serem bebidos.
Dito de forma simples, se o leitor beber em 2016 um vinho tinto de 2015 e este tiver um sabor agradável e uma textura suave e redonda na boca, bem, estará a ingerir uma boa dose de produtos artificiais. Esta abordagem de produção em massa poderia ser vista como uma solução para as adegas algarvias: inundar o mercado de vinho adulterado, com um standard de qualidade igual ou parecido ao vinho barato que se vende nas prateleiras do fundo dos supermercados de todo o mundo. Por muitas e variadas razões, o Algarve não pode, nem deve tentar competir neste segmento. Se quisermos florescer enquanto região demarcada, os produtores devem focar-se na qualidade e não na quantidade. Devem usar técnicas naturais que dependem, sobretudo, da qualidade das castas que podem ser produzidas neste território idílico.
Costuma beber vinhos algarvios?
Se o leitor ainda não experimentou um rótulo algarvio ou se já não bebe há algum tempo, dê uma vista de olhos no supermercado local. Ou melhor, experimente visitar uma adega. Se gosta de vinho tinto, certifique–se que o mesmo tem, pelo menos, três a quatro anos de idade. Entre os meus preferidos, recomendo o excelente «Duo», que junta as castas Touriga Nacional e Petit Verdot, produzido pela Quinta dos Vales, em Estômbar. Este ano ganhou a medalha de ouro no Concurso de Vinhos do Algarve. Também recomendo o «Quinta do Francês» tinto, produzido perto de Silves a partir das castas Cabernet Sauvignon, Syrah e Aragonês. Ou então, o «Onda Nova Syrah» feito na adega do músico Cliff Richard’s perto da Guia. Um dos meus grandes favoritos é o elegante monocasta feita a partir da uva «Negra Mole» do produtor João Clara, em Alcantarilha. E, por fim, recomendo o vinho de produção biológica das castas Petit Verdot do Monte do Além, perto de Lagos. No que toca a vinhos brancos, a Viognier tem sido uma das castas estrangeiras com mais sucesso no Algarve, com grandes resultados para os primeiros três produtores acima mencionados. Já no caso dos vinhos leves e frescos, o rótulo premium «Grace Vineyard» destaca-se de toda a linha produzida pela Quinta dos Vales. É, sem dúvida, um dos melhores vinhos brancos algarvios disponíveis. Em relação aos rosés, somos mimados pela variedade. Até os vinhos de mesa destes e de outros produtores competem com os rosés de outras partes do país no que toca à relação entre qualidade e preço. Qualquer um dos vinhos acima citados é prova suficiente da qualidade que já é produzida no Algarve. Desde que os produtores da região mantenham o foco na qualidade e não na quantidade, o futuro é brilhante.
Opinião de Patrick Stuart | O autor escreve uma coluna semanal sobre vinhos no jornal de língua inglesa «Algarve Resident».