Resido em Faro, no Algarve, e ainda que essa circunstância em nada influencie a minha escrita, é muito provável que a mesma tenha mais reflexos em Faro e no Algarve do que em qualquer outro lugar onde não resido e não intervenho. Assim, ainda que me afirme, acima de tudo e tão só escritor, a circunstância (desejada) de viver em Faro não é certamente de desprezar e, nesse sentido, não rejeito nem desprezo a designação de escritor algarvio, exatamente porque aqui resido e intervenho com mais frequência.
Não pretendo aqui, longe de mim, discutir ou defender a existência de uma literatura algarvia ou mesmo a sul. Outros já o fizeram muito melhor do que eu o faria! Leia-se por exemplo «A criação literária e o Algarve, no Algarve ou do Algarve? – Reflexões sobre literatura regional(ista)», de Adriana Nogueira.
Mas aqui estou eu, em Faro, no Algarve, e relaciono-me e agrupo-me com outros escritores e editores que como eu aqui residem, como Fernando Esteves Pinto ou Pedro Jubilot, ambos escritores e editores algarvios, ambos olhanenses, atrevo-me a dizer, o primeiro por escolha e o segundo por nascimento.
Por mim, ainda que nascido na Damaia, e algarvio apenas por circunstância e escolha, aceito e agrada-me ser descrito como um escritor farense, como o diretor deste jornal em que escrevo me designou, e a verdade é que aqui e ali Faro entra na minha escrita. Deixa-me, caro leitor, que traga para aqui um texto que é exemplo disso, retirado de um pequeno livro inédito, com o titulo genérico de «O meu café».
«Na cidade onde vivo é tão fácil encontrar o seu café como é fácil encontrar o meu café, e não é que eu queira dizer com isto que na cidade onde vivo qualquer um pode encontrar um café que seja seu.
A verdade é que na cidade onde vivo existe um café que se chama O Seu Café, e, embora O Seu Café não seja o meu café, ficam os dois no mesmo largo, um opondo-se ao outro.
Assim, posso dizer que o meu café fica no largo em questão e é aquele que não é o seu café, não só localizando-o assim na perfeição, como fazendo-o ainda mais meu».
Claro que só quem conheça o café em questão sabe do que falo, mas quem não souber não fica em nada prejudicado na sua leitura.
O leitor que me desculpe pelo facto de me citar e também de trazer aqui a questão (sem dúvida inócua) da existência de escritores e editores algarvios, porque pode ou não acreditar-se nisso, mas que existem, existem, e estão por aqui, pelo Algarve, e querem (e devem) ser levados em conta.
Até à próxima leitor, e toma atenção aos escritores perto de ti.
Luís Ene | Escritor