O ofício de mestre canteiro tem longa tradição na Bordeira. Embora hoje já não se pratique, na freguesia de Santa Bárbara de Nexe, a extração da pedra e a arte de a trabalhar permanece, tendo sido uma das mais importantes atividades económicas desta zona no concelho de Faro. Um dos canteiros andou por França a restaurar catedrais. Infelizmente já faleceu, mas a sua história ficou gravada em vídeo. Faz parte das nove curtas-metragens que se juntaram para dar origem à sequência patente na exposição «Documentar Algarve Interior» que inaugurou esta segunda-feira, 5 de dezembro, na sede da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Algarve, em Faro. O apoio do «365 Algarve» permitiu a tradução e legendagem para inglês, e também uma itinerância pela região, nos próximos meses.
Em boa verdade, os conteúdos de vídeo foram realizados em colaboração com talentos criativos (film makers) locais, entre 2010 e 2015 no âmbito de uma iniciativa da associação Algarve Film Commission, em oito concelhos algarvios – Albufeira, Alcoutim, Castro Marim, Faro, Loulé, São Brás de Alportel, Tavira e Vila Real de Santo António. O projeto teve o apoio financeiro do PRODER.
Na altura, a ideia foi «relembrar algumas das tradições populares que ainda se mantêm vivas e que fazem parte da memória e identidade coletiva do interior algarvio». Às curtas-metragens, juntam-se 30 fotografias de cariz etnográfico, na maioria inéditas, da autoria de Eduardo Pinto, que acompanhou e coordenou muitas das filmagens, enquanto responsável da Algarve Film Commission.
Durante a inauguração, Francisco Serra, presidente da CCDR do Algarve considerou que este material pode abrir o debate «à luz do processo de desenvolvimento da região, da alteração dos estilos de vida, da identidade cultural e da preservação das tradições. Há um rol imenso de possibilidades para refletir. Pode ser um exercício muito importante para debatermos o futuro».
Eduardo Pinto e Laura Carlos, da Algarve Film Commission, e Dália Paulo, comissária do programa «365 Algarve»
Serra elogiou o programa «365 Algarve» que comparou com o nascimento da Algarve Film Commission, no início da década passada e da qual foi sócio fundador.
«No início, ninguém percebia muito bem para que servia, até começarmos a ver resultados. Olhamos agora para esses anos de 2001/02 e já se fez muitíssimo» em termos de produção audiovisual. «É um exemplo que vale a pena fazer coisas e que os resultados não são instantâneos. É preciso evoluir para, ao fim de algum tempo, dar contributos muito positivos para a história coletiva», disse.
«O 365 Algarve destina-se a complementar aquilo que já temos no território em termos de oferta palpável, turística de consumo de bens e de serviços, enquanto elemento cultural de animação e, dessa maneira, contribuir para alterar positivamente a imagem consolidada do destino. O facto de haver pouca atividade, pouca procura» na época baixa «não não nos deve inibir. Deve incentivar-nos a produzir mais. Investir não é só dinheiro. É também novas formas de atividade, com ofertas diferentes, que motivem as pessoas a vir. Esta iniciativa vem contribuir decisivamente para alterar a filosofia que no verão é que há muita gente e todos os eventos». Se isto não for contrariado, «a sazonalidade tenderá a concentrar-se ainda mais», sublinhou. «É de louvar, estamos esperançados e otimistas, que no global, ficará a noção que valeu a pena», concluiu.
Já Dália Paulo, comissária do «365 Algarve» lembrou, a propósito de exposição «Documentar Algarve Interior» que «um dos objetivos é a coesão territorial». Está a ser conseguida, uma vez que «a maioria das propostas são de agentes culturais que há muito tempo pensaram o território. E tinham sonhos! Esta tem sido a alavanca para os realizar e concretizar projetos mais ambiciosos que estavam na gaveta há alguns anos».
A comissária referiu ainda um projeto semelhante, atualmente em curso, «Viagem ao interior» da fotógrafa algarvia Telma Veríssimo que deverá ver a luz do dia em março próximo.
Estas iniciativas «permitem levar as pessoas do litoral para o interior, criar novas rotas de expansão para o interior. Há um Algarve escondido que o turismo de natureza já descobriu, assim como o turismo das caminhadas, e que nós na cultura temos que ser complementares a essas descobertas».
A mostra «Documentar Algarve Interior» ficará patente em Faro até 29 de dezembro. Depois, seguirá para a Casa do Sal, em Castro Marim, onde ficará de 5 a 31 Janeiro. A etapa seguinte será a Torre de Menagem do Castelo de Silves, onde, segundo Eduardo Pinto haverá uma solução expositiva especial, de 11 de março a 4 de abril. No dia de abertura, as curtas-metragens serão apresentadas na íntegra no Teatro Gregório Mascarenhas, às 18h00. A itinerância terminará no Arquivo Municipal de Albufeira, com uma última apresentação a decorrer entre 6 de abril e 5 de maio.
