Mas quem é, afinal, o famoso Zé Manel Taxista? «É um bom malandro. Um português engenhoso, que sem maldade dá uma voltinha extra na corrida para ganhar uns tostões a mais. Mas ele não rouba ninguém, é tudo sem maldade», confidencia-nos Maria Rueff. «É uma espécie de zé povinho, a tentar lidar com os tempos modernos e a lutar contra a perda da verdadeira identidade portuguesa, numa altura em que as nossas grandes cidades estão cada vez menos genuínas e mais manietadas pelo turismo», acrescenta.
A personagem surgiu da colaboração da humorista com Herman José, no talk-show Herman 98, gravado no Teatro São Luiz e escrito pela equipa das Produções Fictícias. «Ele desafiou-me para criar um taxista», o que foi bastante apelativo para Maria Rueff, pois «não é muito comum uma mulher desempenhar um papel de homem, geralmente são os homens a imitar as mulheres. O público era genuíno, pagava bilhete e não havia nada encenado, e isso aproximava a experiência daquela que temos no palco de um teatro».
Sustentada pelos textos de Ricardo Araújo Pereira e Miguel Góis, a personagem cresceu e «já foi tudo». «Esteve na TV, tem um disco, pois o Zé Pedro, dos Xutos e Pontapés era um grande admirador deste taxista peculiar, teve crónicas de rádio, enfim, tudo o que se possa imaginar».
Mas, 20 anos depois, se muito mudou no dia a dia da nação, o Zé Manel não assumiu uma postura arcaica e procurou atualizar-se. Esta efeméride, confessa a atriz ao «barlavento», «serviu de mote para a produção da nova peça de teatro» que vai percorrer o país de norte a sul.
Maria Rueff não podia esquecer Faro no roteiro do taxista, cidade que considera «especial» e na qual é fã da «zona histórica». Sobre o público algarvio, só tem coisas boas a dizer. «É carinhoso, mais alegre e mais sorridente e muito ternurento». E haverá algum motivo para isto? «Talvez o sol», responde-nos entre risos.
No porta-bagagens, o taxista traz para o palco do Teatro das Figuras, temas como o boom dos tuk-tuk, as plataformas digitais como a Uber e o turismo urbano de massas. «É uma comédia em cima do acontecimento, que serve para rir, mas também para fazer o público assumir uma postura de reflexão sobre a atualidade. Está repleta de talentos notáveis, com um elenco cheio de qualidade», assume a atriz. Destapando mais um pouco o véu, «é comédia e risos, mas também musical, com algumas cantorias. Tem momentos de dança, um pouco de tudo», lembrando que «o Zé Manel não canta, arranha». E muito.
E como é tradição bem portuguesa, nem o futebol fica fora do palco neste espetáculo verdadeiramente eclético. «O Zé Manel é um benfiquista assumido, mas também brinca com o seu clube se for preciso». Maria Rueff não quer clivagens nem rivalidades impuras – «as rivalidades hoje são diferentes das que existiam quando a personagem surgiu, mais violentas e mais ligadas ao dinheiro, mas aqui brincamos com todos os clubes por igual, o espetáculo é para todos». E lança o repto. «independentemente do clube, da profissão, de tudo, venham assistir a esta peça, vai ser uma tarde e uma noite muito agradáveis», promete.
Novas gerações querem consumir cultura
Para o público, «parte integrante de todos os meus espetáculos», Maria Rueff só tem elogios. «Não tenho notado diferença ao longo dos anos. As pessoas têm sido sempre carinhosas comigo». A atriz estabelece ainda uma comparação curiosa entre o seu início de carreira e a atualidade. Lembra que a sua estreia no meio aconteceu «numa altura de crise de público, em que muitas vezes havia mais gente em cima do palco que na plateia». Mas, com orgulho, revela-nos que «com o passar dos anos isso mudou, e hoje sinto que as pessoas vão mais ao teatro, as salas estão sempre cheias».
É também com orgulho que deixa um elogio às gerações mais novas, que «mesmo com o acesso a tudo através dos dedos, dos smartphones e tablets, deslocam-se ao teatro para sentir a magia do espetáculo, para estabelecer aquele contacto tão único com os artistas». Categoricamente, afirma que nunca viu «uma geração tão interessada em espetáculos culturais como esta última». Para isso, talvez contribua a democratização da arte e da cultura pelo país. Outrora mais acessíveis nas grandes cidades, «hoje existem espetáculos em todas as cidades, e as salas são cada vez melhores por todo o país, muitas vezes melhores que alguns teatros em Lisboa».
Direito pela comédia
Maria Rueff é hoje um dos nomes mais fortes do teatro e da televisão em Portugal. Nascida em Moçambique há 46 anos, construiu uma carreira repleta de sucessos e de papéis peculiares e hilariantes. Um deles, talvez o mais afamado e conhecido, é o Zé Manel Taxista, que celebra agora 20 anos de existência. Mas é preciso recuar até à infância para descobrir que já estava destinada para o humor. «Eu acho que a comédia nasce com alguns de nós, necessitando depois de trabalho técnico», considera a atriz, revelando depois que «em casa, desde miúda, tinha a mania de imitar todos os familiares, pondo todos a rir com estas brincadeiras».
No entanto, não foi desde logo que viu na representação o seu percurso de vida. Na verdade, achava isso «um devaneio», e tinha o objetivo de se formar «em direito», por «acreditar no diploma». Falhou por uma décima a entrada na faculdade, e isso valeu-lhe a entrada no Conservatório. Quando frequentava o segundo ano entrou numa peça com Armando Cortez, um «mestre do teatro e da comédia» para a atriz.
Foi também nestas lides que conheceu João Baião. Seguiu-se um café-concerto participado por ambos, e a estrelinha apareceu por lá: Herman José estava a assistir, e encantou-se com o talento de Maria Rueff. Escolheu-a para colaborar consigo. «Eu era muito nova, tinha 19 ou 20 anos, e sempre tive a noção do grande privilégio que tive ao entrar, nessa idade, para a família Herman. Apesar de muitas vezes não darmos valor ao momento, eu sabia bem a importância de tudo aquilo», confidencia a humorista, que reforça a importância do famoso entertainer na sua carreira. «Eu cresci a vê-lo, e ele era um grande ídolo, um génio. É o meu mestre, tenho muito orgulho em colaborar com ele há 25 anos».
Quando instigada a contar-nos quais os projetos que mais a marcaram e que repetia sem pensar duas vezes, Maria Rueff é taxativa, afirmando sem reservas que «só pedia para que tudo acontecesse da mesma forma», e que «repetia todo o meu percurso, todas as colaborações que fiz com o Joaquim Monchique, o Herman José, a Ana Bola, o Manuel Marques e todas as que fiz com outros colegas, sem tirar nem pôr. Não mudava uma linha».
Apreciadora confessa do teatro e da televisão, considera existirem algumas diferenças entre os dois formatos, na ótica de quem representa. Considera o teatro a arte «nobre», explicando que «não existem tantos filtros e existe maior contacto com o público», ressalvando, no entanto, que «é preciso ter unhas para tocar a guitarra».
Embora não negue que a sua veia mais visível é a de comediante, admite que os papéis trágicos que já fez (por exemplo na novela «Mulheres», exibida na TVI entre junho de 2014 e setembro de 2015) foram do seu agrado. Questionada sobre o que deseja para o futuro, Rueff é bastante direta: «espero que, nos anos que me restam de carreira, o público continue a dar-me o privilégio de estar ao meu lado, a assistir ao meu teatro».


