Refood, Madrugada e Friends of Canil de Portimão têm causas distintas, mas algo em comum, além do voluntariado.
Doar o nosso tempo é tão ou mais valioso do que um donativo monetário e, mais ainda, numa altura solidária em que o espírito natalício chega ao coração até dos que são tão ocupados que fazer voluntariado não faz parte dos seus compromissos.
No entanto, ajudar quem mais precisa e, por vezes, não tem qualquer apoio está ao alcance de qualquer um. Existem associações de voluntariado em todo o país e no Algarve não faltam opções, seja qual for a preferência.
Contribuir monetariamente tem sempre um grande impacto na associação ou movimento que se apoia, mas praticar ações que melhoram vidas também e influencia ainda o nosso bem-estar.
Os benefícios são vários e quem o diz são membros da Refood, Madrugada e Friends of Canil de Portimão. As três desenvolvem projetos no Algarve e contam com a ajuda de pessoas das mais diversas nacionalidades que se dedicam a diferentes tarefas em prol dos outros.
As atividades de voluntariado que praticam não só fazem diferença na comunidade como na vida de quem se une por causas solidárias. Emigrar para outro país representa sempre um desafio, principalmente na integração social quando se é reformado ou se exerce um trabalho remoto.
Porém, pertencer a um grupo onde se ajuda os outros ao mesmo tempo que se conhece pessoas com interesses semelhantes, é uma forma de desenvolver o sentimento de inclusão num local novo.
Refood
Erica Kitzman, natural da Califórnia, nos Estados Unidos da América (EUA) mudou-se para Portugal com o marido, Darrell Kitzman, quando ambos se reformaram e juntaram-se ao Núcleo da Refood de Albufeira, que se foca em «menos desperdício e mais solidariedade».
Além de gostarem de visitar locais históricos e culturais queriam fazer algo proveitoso no seu tempo livre e envolver-se na comunidade, o que os levou a ser voluntários neste movimento que «apoia famílias com necessidades e combate o desperdício alimentar», segundo o responsável pelo Núcleo da Refood de Albufeira, Paulo Agualusa, ao barlavento.
«É uma ideia muito interessante e de um enorme valor social», argumentou Paulo, voluntário do movimento há já sete anos. Como tal, desempenhou quase todas as funções e tem uma ligação bastante «ativa» com os voluntários que vão desde crianças, acompanhadas pelos pais, a adultos e reformados.
Em cada núcleo, «partilhamos ideias, desafios, e encontramos soluções em conjunto que contribuem para as melhores práticas possíveis», esclareceu mencionando a presença internacional da Refood.
Ao promover atividades que «têm como missão resgatar alimentos e alimentar as pessoas», o Movimento Refood, «independente, sustentável e 100% voluntário» faz com que os estrangeiros «se sintam integrados e criem laços com a comunidade», comentou o responsável ao apontar que pertencem ao movimento portugueses, britânicos, suecos, russos, ucranianos, chilenos, norte-americanos, brasileiros, entre outros.
É assim que se sentem Erica e o marido que disponibilizam duas horas semanais ao projeto, tendo inicialmente feito parte da distribuição dos jantares às sextas-feiras e estando agora semanalmente responsáveis pela limpeza do núcleo.
No seu país, tinham já tido uma experiência de voluntariado na Habitat for Humanity, uma organização sem fins lucrativos que ajuda as pessoas a construir ou melhorar a sua casa. Em Portugal, optaram por contribuir para esta causa em específico, após o convite de amigos imigrantes, que já integravam a Refood, porque acreditam que «todas as pessoas merecem ter acesso a alimentos frescos».
Ser membro deste movimento «tem sido uma experiência muito acolhedora e satisfatória», revelou Erica ao acrescentar que «os voluntários portugueses são extremamente simpáticos e acolhedores e fazem um esforço para incluir os estrangeiros em todas as tarefas».
Consideram que estar rodeado de portugueses é «uma grande vantagem para os voluntários imigrantes, visto que dá oportunidade de se envolverem em eventos e atividades locais e nacionais, assim como de aprenderem a falar português». Esta prática não só tem gerado felicidade, como também lhes tem permitido interagir com as pessoas que recorrem à ajuda da Refood, voluntários e coordenadores.
A organização e comunicação são fatores que facilitam o trabalho e a relação entre todos, assim como a entreajuda, explicou Erica ao partilhar que pertencer ao movimento «foi, sem dúvida, um bom contributo para a sua integração na comunidade».
Quando chegou a Portugal, teve dificuldade em encontrar locais para fazer voluntariado, dado que era imigrante, não sabia falar português nem como abordar as organizações que se deparava online, recordou a voluntária que é também membro de três outras organizações de voluntariado – duas sem fins lucrativos sediadas em Portugal e uma sediada nos Estados Unidos da América (EUA).
Fazer voluntariado «é algo que eu e o meu marido podemos oferecer aos portugueses depois de nos terem tão amavelmente aceite como residentes», sublinhou Erica ao realçar que «ajudar permite que os imigrantes reformados se consigam integrar mais facilmente na comunidade, o que é bom para o bem-estar físico e emocional».
Madrugada
A 60 quilómetros de distância, no lado oeste do Algarve, é a sede da Madrugada, uma associação focada no cuidado e apoio a pessoas numa fase terminal, liderada por John Hough, antigo professor universitário em Londres, no Reino Unido, formado em Marketing Empresarial Internacional.
Mudou-se para Portugal e percebeu que «todos precisamos de ajuda a dada altura», acabando por se juntar à Madrugada, como a sua forma de contribuir para tornar um fim, em casa, «mais pacífico». É voluntário na associação desde 2014 e já há quatro anos que é presidente tendo, recentemente, sido reeleito.
Desde que a Madrugada foi criada, em 2009, que os seus cuidados foram requisitados por mais de 300 pessoas de diferentes nacionalidades como ingleses, irlandeses, alemães, holandeses e, cada vez mais, portugueses, o que não seria possível «sem uma equipa excecional de voluntários», sublinhou John Hough.

«Estamos muito gratos e temos muita sorte por termos tantas pessoas que nos querem ajudar», disse o presidente ao reconhecer que o serviço particular a que se dedicam é «muito difícil de publicitar porque é o fim da vida, o que é uma situação difícil».
Contudo, os voluntários desempenham as mais diversas funções. Alguns colaboram nas lojas de beneficência, outros apoiam o programa clínico, através da prestação de cuidados ou fornecimento de equipamento, e há ainda quem angarie fundos ou divulgue o papel da associação e os seus objetivos.
«Gostávamos de ser vistos como um serviço complementar ao Serviço Nacional de Saúde (SNS)», revelou o responsável, referindo que, para além de prestarem serviços de enfermagem e apoio aos familiares, também fornecem camas hospitalares e colchões eléctricos.
Estes não são os únicos aspetos positivos sobre a Madrugada, também faz muita reciclagem, por isso tem uma pegada ecológica, mas não fica por aqui. A vontade de ajudar «dá às pessoas um motivo para sair de casa, fazer algo que valha a pena e juntar-se a um grupo, o que ajuda a que conheçam mais pessoas”, explicou John Hough.
Contam com voluntários britânicos, irlandeses, holandeses, alemães e portugueses, com perspetivas e ideias muitas vezes distintas. No entanto, todos ambicionam os melhores cuidados para os pacientes e, por isso, trazem energia e inovação constante à associação. «O nosso maior recurso são os voluntários que contribuem com um enorme talento e opiniões que nos fazem evoluir», reforçou o presidente.
A bondade surge de locais e estrangeiros, tanto de estudantes como de reformados. Recentemente, a associação recebeu um donativo de 650 euros como resultado de um projeto escolar dedicado à angariação de fundos a uma organização de caridade e ainda um «generoso donativo» da Fine & Country Algarve, entregue na loja de caridade de Lagoa.
Apesar de muito ter sido já alcançado, há ainda muito que a direção anseia fazer como disponibilizar um serviço em toda a região e expandir as quatro lojas que agora detém na Luz, Lagos, Lagoa e Ferreiras.
O grande objetivo é que o serviço da Madrugada seja «de e para a comunidade», de acordo com John que reiterou: «Todos os nossos membros estão a prestar esse serviço aos que precisam na comunidade».
Na ótica do presidente da Madrugada «existe uma carência nos cuidados de saúde em Portugal, visto que os hospitais não são capazes de lidar com a procura que existe. Infelizmente, há cada vez mais doentes a serem hospitalizados para morrerem porque os familiares têm dois empregos, o que os deixa sem tempo, e mesmo assim não conseguem suportar os custos que requer mantê-los em casa, com supervisão e assistência médica», lamentou John Hough.
De momento, a associação assiste doentes, maioritariamente, na área onde está sediada até Aljezur, mas já teve também pacientes em Almancil e espera, já no próximo ano, voltar a marcar presença com o recrutamento de enfermeiras a residir em Loulé.
Friends of Canil de Portimão
Vinda do Norte da Holanda, Monique Gieling é voluntária há dez anos na organização Friends of Canil de Portimão, que tem como principal objetivo cuidar dos cães e gatos e ajudar na adoção.
Anteriormente, foi líder da sua própria empresa de gestão de imóveis, durante uma década até que decidiu mudar de vida e vir para Portugal. Embora nunca tenha desenvolvido qualquer atividade relacionada com animais, sempre gostou de cães e teve dois gatos, portanto não teve dúvidas quando escolheu a causa a que se queria dedicar.
Viu um anúncio no Facebook da organização a solicitar voluntários para passear e socializar com os cães e acolhê-los temporariamente e não hesitou. «Senti-me bem, sabia que era exatamente o que queria fazer», contou.
Começou por passear os cães uma vez por semana, depois por cuidar de um cão bebé e rapidamente o número foi aumentando, chegando a acolher até 30 animais, bebés e adultos, todos do Canil Municipal de Portimão, recentemente renovado e oficialmente inaugurado, no dia 9 de dezembro de 2023, pela presidente da autarquia, Isilda Gomes. Localizado na Zona Industrial Coca Maravilhas, estará de portas abertas no dia 16 de dezembro, das 11h00 às 15h00, para celebrar a melhoria das instalações.
A sua primeira experiência de voluntariado tornou-se a sua ocupação não remunerada a tempo inteiro. Agora, assume responsabilidades nos cuidados e adoção dos bebés.
Esta decisão foi um importante fator na sua adaptação a «uma nova vida» porque deu-lhe oportunidade de conhecer pessoas e sentir-se útil enquanto faz algo que gosta. Reconhece a importância das doações financeiras, mas reforça que «as pessoas que querem ajudar são valiosas», assim os voluntários são sempre bem-vindos porque «os animais precisam também de socializar, de quem os passeie e acaricie».
Não só faz o que a preenche como sente que pertence «a uma equipa» de cerca de vinte pessoas que se comprometem em diversas atividades da associação. Esse grupo, que colabora na alimentação, limpeza e socialização dos animais, levando-os à praia e a locais onde podem conviver com pessoas e crianças, «ajuda a integrar os estrangeiros na comunidade e cria um grupo unido», expressou Monique.
Apesar de toda a ajuda ser preciosa, «o mais importante é encontrar um lar para os animais. É esse o grande objetivo», ressaltou a voluntária ao mencionar que publicam regularmente anúncios na rede social Facebook onde partilham os cães para adoção. «Dar a conhecer os animais na Internet ajuda muito, mas requer tempo e alguém para o fazer», afirmou Monique.
Os voluntários podem colaborar apenas uma hora, uma vez por semana, só para passear os cães se assim desejaram. «Cada um dá o tempo que tem», Monique salientou ao refletir o quão difícil é encontrar voluntários que se comprometam.
«É um trabalho flexível. Qualquer pessoa pode ajudar», esclareceu a responsável que também faz parte de eventos da associação para angariação de fundos destinados a todos os cuidados que os animais precisam.
Normalmente, acolhem entre 15 a 20 cães, número que varia dependendo das adoções, um processo que «não é fácil», onde Monique avalia o futuro dono e o local onde o bebé adotado vai viver.
Sentiu-se «muito recebida» desde que começou a fazer voluntariado na associação. «Ficamos contentes sempre que alguém se disponibiliza para ajudar», Monique desvendou. Integrou-se facilmente na equipa, o que contribuiu para a sua adaptação a Portugal e, como ela, muitos passam pelo mesmo. Chegam sem conhecer ninguém e encontram pessoas com quem se identificam.
A associação tem membros de todas as idades, naturais da Suíça, Alemanha, Países Baixos, Inglaterra e de Portugal. Em comum, têm o amor pelos animais e uma enorme vontade de ajudar tantos que não têm um lar.
Os três membros das organizações trabalhavam em áreas completamente distintas das que se dedicam atualmente como voluntários. Redirecionaram o seu foco diário para ações de interesse social e comunitário, onde o objetivo é auxiliar quem mais precisa.
Como ajudar
Contribuir monetariamente tem sempre um grande impacto na associação ou movimento que se apoia, mas praticar ações que melhoram vidas também e influencia ainda o bem-estar de quem faz os donativos.
Todas as organizações apreciam donativos que servem, na associação Madrugada, para cuidados paliativos ao domicílio e aconselhamento familiar, bem como terapias complementares. Podem ser feitos para o número bancário: 40230973026, com o nome Madrugada – Associação de ajuda e suporte a doenças terminais, IBAN: PT 50004571944023097302619, BIC/SWIFT: CCCMPTPL 282 761 375, 925 664 235. Mais esclarecimentos podem ser pedidos por e-mail ([email protected]).
No caso da Refood, os donativos para a recolha, preparação e entrega de alimentos resgatados de restaurantes, cidadãos, supermercados, refeitórios, eventos e produtores a famílias com necessidades.
É possível contactar o movimento através de e-mail (geral.albufeira@ re-food.org) ou telefone e telemóvel (218 947 100, 969 888 314). A associação Friends of Canil de Portimão utiliza as doações para a alimentação, alojamento e bem-estar, contas médicas, esterilização de cães e gatos e obras no Canil.
Os donativos podem ser feitos para BPI Lagoa IBAN: PT50 0010 0000 4780 9000 0010 8, SWIFT/BIC: BBPIPTPL. Para adoções de cães, a responsável é Monique e pode ser contactada através de e-mail ([email protected]). As adoções de gatos são tratadas com Mandy através de e-mail ([email protected]).



