Sultêmpera, vidreira com sede em Portimão investiu num sistema de gestão de qualidade. Próximo passo será o reaproveitamento de águas na cadeia de produção, projeto já candidatado aos fundos europeus do Algarve2030.
A tradição de trabalhar o vidro passou de pai para filha e hoje é Sónia Vinagre, formada em Economia, que está à frente da Sultêmpera – Vidros e Espelhos, Lda., empresa com sede na Zona Industrial Coca Maravilhas, em Portimão, e que emprega 21 pessoas.
«Eu nasci, cresci nisto e acabei por assumir a gestão. O meu pai, António Vinagre, aos 14 anos já trabalhava nesta área. Quando voltou do Ultramar, abriu uma pequena empresa, na Rua Direita. Depois, foi o grande impulsionador da transformação de vidro no Algarve. Fundou uma empresa que geriu durante 30 anos e que acabou por vender. Mas como não conseguimos estar parados, fundámos a Sultêmpera, em 2007. Foi com ele que aprendi tudo e aprendo todos os dias», começa por explicar.
Uma particularidade do negócio do vidro é que segue a vertente Business-to-Business (B2B) na maioria dos trabalhos.
«Recebemos o vidro em chapas, por norma, de 3,21 x 2,55 metros. Não há fábricas de produção de vidro em Portugal. A única que havia era a Covina em Santa Iria da Azóia, que, entretanto, foi comprada pelo grupo Saint-Gobain. Em 2008/2009, o grupo fechou o forno de produção de vidro em chapa. Ou seja, todo o vidro que Portugal importa, vem de Espanha, Grécia e outros países, para armazenistas, que também não existem no Algarve. O vidro vai para o Porto, Lisboa, entre outros locais. Nós compramos e é entregue, regra geral, num camião gôndola de 20 toneladas», a cada quinzena.
O negócio dos armazenistas é «trazer vidro para as vidreiras fazerem a transformação. Chega-nos em chapas que são dispostas e arrumadas em cavaletes ou em classificador. Basta premir um botão para retirar as chapas que queremos usar. É uma forma eficaz de conseguirmos ter mais material em stock», explica a empresária.
Por norma, «temos sempre em casa vidro de 4, 5, 8 e 10 milímetros (mm). O mais fino é usado para a produção de vidro duplo. O mais espesso é para a produção de portas, por exemplo, para-duches. Depois, há outros tipos, um pouco mais específicos, que pedimos consoante as encomendas nos nossos clientes. Hoje trabalha-se muito com o laminado 88.1 mm, usado para guardas de varandas», em edifícios mais modernos.
Os principais clientes da Sultêmpera são as empresas de caixilharia da região. «Produzimos o vidro duplo à medida de cada encomenda, pois existem inúmeras composições, desde o vidro mais simples e básico (4x10x4), até aos vidros de controlo solar e baixo emissivo que protegem do calor e do frio e outros que reduzem o ruído. Fazemos essa produção, desde os vidros mais pequenos aos de grandes dimensões. Depois, ou fazemos nós a distribuição, ou os clientes vêm levantar o material às nossas instalações».
Além disso, a Sultêmpera também fornece o sector da construção civil. «Sim, trabalhamos diretamente com algumas construtoras, com a TecnoConcept, Simão & Martins, MSC Lda Construções, Matrizelementar, entre outras não menos importantes. Em termos de construtoras estamos a trabalhar com algumas essencialmente com para-duches, espelhos e os vidros de proteção de pessoas e bens para as guardas de varandas».
Sónia Vinagre detalha que «os vidros temperados laminados são compostos por dois ou mais vidros temperados ou não, colocados entre um ou vários filmes de butiral de polivinil (PVB) que os cola. A película garante um maior nível de segurança, originando desta forma um vidro seguro e adaptável às mais diferentes necessidades. A principal característica deste vidro é que, uma vez partido, não se desfaz. Mantém-se unido, conseguindo-se assim uma boa performance no que respeita á segurança de bens e pessoas», à semelhança dos vidros dos automóveis.
Por outro lado, os espelhos são um elemento que tem ganho cada vez mais protagonismo em decoração e na atividade da empresa.
«São fornecidos como o vidro, em chapas de 3,21 por 2,55 metros. Aqui fazemos a transformação conforme as medidas e o desejo do cliente, quer seja com furos, sem furos, colados, com calha, com leds e desembaciadores. Há de várias qualidades e espessuras. Os mais usuais são os de 4 e 5 mm em claro, mas também existem de 3 e 6 mm, bronze e griz», explica a gestora.
Vidro duplo é o mais vendido
O vidro duplo é um dos produtos mais vendidos pela Sultêmpera. «Existem várias composições. Basicamente são constituídos por dois vidros separados por um perfil intercalar em alumínio ou num material isolante criando um espaço hermeticamente preenchido com ar tratado. Serve para múltiplas aplicações. Evita perdas energéticas reduzindo assim os custos de climatização quer no verão, quer no inverno. Permite controlar a quantidade de radiação solar numa habitação. Funciona como atenuante acústico para o interior e melhora o conforto das habitações», descreve Sónia Vinagre.
Na maioria das vezes, as certificações energéticas de edifícios também são uma variável a considerar.
«Exatamente. Para a certificação energética classe A, é preciso um vidro de controlo solar e baixo emissivo. Um vidro de 4x10x4 que é um vidro básico não consegue ter as características essenciais para essa certificação».
A economista acredita que as mentalidades têm vindo a mudar. «Temos feito, junto dos caixilheiros, a divulgação do vidro e desde que existe a certificação energética, sim, as pessoas começaram a ter um pouco mais de consciência. Estão conscientes que é melhor colocarem um vidro com maior isolamento acústico e térmico para que possam ter mais conforto em suas casas».
Solidez financeira
Em 2024, a empresa obteve duas distinções por parte de entidades bancárias, Millennium e Novo Banco. Esta solidez financeira permitiu adquirir, com fundos próprios, «uma máquina que nos facilitou no processo de produção de vidros temperados, vidros de portas e montras. Ou seja, fazemos os desenhos em Autocad e a máquina faz todo o processo de produção». A única coisa que falta é um forno de têmpera, algo que Sónia Vinagre ambiciona vir a ter.
Antes, «fazíamos tudo o que era entalhes e furos à mão. Neste momento, usamos esta máquina que aumentou a nossa capacidade produtiva. Também comprámos um forno de laminagem para fazer vidros para as varandas e piscinas».
Outro passo importante é a implementação do sistema de gestão de qualidade para fazer a marcação CE (certificado de qualidade).
Por exemplo, «são feitas amostragens para ver se o vidro está com as características adequadas, por exemplo. Na produção de vidro duplo, apontamos tudo, desde o número do lote do vidro que nos chega, até à nota de encomenda. Conseguimos fazer todo o rastreamento», exemplifica.
A empresa acaba de concorrer ao Programa Regional do Algarve 2021- 2027 (Algarve2030) com o objetivo de «reutilizar as águas» do circuito produtivo.
«Temos uma depuradora, pois a água tem de estar muito pura no processo de produção do vidro duplo, caso contrário vai deixar resíduos. E quando o vidro é colado, já não há hipótese de as retirar», explica. «O objetivo é conseguirmos reutilizar cerca de 90 por cento dessa água».
«Também coloquei no novo projeto que apresentámos candidatura, duas gruas móveis giratórias que irão facilitar a colocação de vidros mais pesados das obras».
Software optimiza cadeia de produção
Com a candidatura executada ao CRESC Algarve 2020, a Sultêmpera apostou no processo de certificação de produto e na implementação de um sistema de gestão da qualidade, bem como na aquisição de novos equipamentos para aumentar a capacidade produtiva.
Ao mesmo tempo, a empresa pretende efetuar investimentos que permitirão a desmaterialização de processos, através de aquisição de software, pretendendo também efetuar investimentos a nível da eficiência energética para reduzir custos operacionais.
A parte informática, que foi desenvolvida por uma empresa especializada de Portimão, consiste «numa aplicação que agrega tudo o que é feito na empresa, desde o corte ao acabamento final, conseguimos ver todas as etapas das encomendas. No escritório sabemos em que fase está e vamos seguindo o processo. Essa aplicação também está a ser desenvolvida para, por exemplo, aceitar os relatórios do que se passou numa determinada obra, para que não se perca informação. Com esse registo, sabemos se a obra está terminada e pronta para fazermos a faturação, ou se ficou a faltar alguma coisa e temos de lá ir uma segunda vez, se o cliente não tinha as medidas em conformidade, se houve mudanças no projeto original e temos de fazer novos vidros», reduzindo assim os imprevistos e a sobrecarga da produção.
A candidatura da Sultêmpera, Lda, teve um investimento elegível de 208.315,88 euros sendo o apoio de 83.326,35 euros do CRESC Algarve 2020 através do FEDER.
Trabalhos especiais
A Sultêmpera acumulou experiência e saber suficiente para responder às solicitações técnicas por parte de «empresas consultoras, arquitetos ou engenheiros».
Um trabalho que colocou a perícia da empresa à prova foi um serviço de colocação de guardas em vidro laminado temperado no 17.º andar de um hotel na Praia da Rocha.
«Também já colocamos vidros para piscinas, e aí tentamos fazer em parceria com o construtor e com o serralheiro, porque é sempre necessária uma boa estrutura. O vidro não é feito cá, vem sempre feito de fora, ou de Itália ou Espanha, por parceiros que trabalham exclusivamente com empresas vidreiras. Não trabalham com construtores nem caixilheiros, pois esse vidro é muito específico e é produzido conforme a dimensão da piscina, a altura e o número de apoios», refere Sónia Vinagre.
Além disso, «são as empresas vidreiras que têm os colocadores e o know-how. Os caixilheiros são especializados em tipos de caixilhos, colocação, e materiais de corte térmico. Quando chega a parte do vidro, nós é que temos o conhecimento. No entanto trabalhamos em parceria numa vertente B2B».
Sector «um pouco difícil» de se trabalhar
Sónia Vinagre não esconde que este é um sector «muito volátil. Se não há construção, não há encomendas. Não existem fabricas de vidro em Portugal. Além disso estamos no sul do país. Ou seja, o material chega cá muito mais dispendioso do que se fosse em Lisboa. O meu principal fornecedor é do norte do país e além disso, os camiões regressam vazios, pelo que não se rentabiliza a operação logística em pleno».
«Em 2009, quando nos mudámos para as instalações fabris anteriores, já tínhamos comprado algumas máquinas. Tivemos um período conturbado com a crise e passámos um pouco mal. Mas conseguimos dar a volta por cima. Em 2018 já estava tudo orientado e foi quando começámos a fazer mais investimentos. O ano de 2020, apesar de ter sido o da pandemia de COVID-19, foi bom para a empresa porque tivemos sempre muito trabalho, muitas obras», recorda.
Em 2023 «iniciamos obra de requalificação de um armazém maior na mesma zona e em 2024 mudamos para as atuais instalações».
A operação é sobretudo na «zona do Barlavento algarvio, Portimão e Lagos, mas também em Albufeira, Vilamoura, Quarteira, Tavira, até Vila Real de Santo António».
O que distingue a Sultêmpera é «a dimensão» de PME. «Tento sempre que exista proximidade. Os meus clientes sabem que quando querem algum tipo de serviço, podem contar connosco, desde o pequeno caixilheiro que nos compra alguns vidros por mês, até ao que encomenda centenas».
À partida, diz Sónia Vinagre, «o vidro nunca passará de moda porque é essencial ao isolamento dos edifícios. A não ser que, entretanto, venha por aí alguma matéria que ocupe esse lugar, mas acho que não está previsto. É uma matéria que não é fácil de trabalhar, existem riscos, mas felizmente não temos tido acidentes de trabalho de maior».
Todo o vidro desperdiçado vai para contentores, separados por tipos de vidro e é recolhido pela Ambiciclo, empresa portuguesa e de portugueses que se dedicam à reciclagem dos mesmos.








