Empresa de biotecnologia sediada em Olhão desenvolve dietas inovadoras para uma alimentação de precisão na aquacultura. A Sparos é líder de mercado na Europa.
Em aquacultura, alimentar o peixe é um delicado exercício de equilíbrio, com margens estreitas. A diferença entre o lucro e o prejuízo pode ser uma linha muito ténue.
«Se alimentarmos o peixe em excesso, estamos a desperdiçar nutrientes, o que não é positivo, e perde-se dinheiro. Se houver défice, teremos perda económica e, em alguns casos, maior impacto ambiental, porque o peixe não cresce bem e, para atingir o peso ideal de comercialização, vai acabar por consumir mais no final do processo», explica Luís Conceição, investigador sénior em nutrição e cofundador da Sparos.
Numa altura em que a indústria procura aumentar o volume para responder à procura global por proteína de origem marinha, essa expansão «tem mesmo de ser sustentável» e isso implica «melhorar a eficiência alimentar e reduzir o desperdício».
Esta equação «é a base daquilo a que hoje se chama alimentação de precisão e tornou-se um dos grandes princípios da aquacultura moderna».
É neste contexto que nascem dois projetos de ligação direta entre a investigação e as empresas de aquacultura que procuram a vanguarda do setor.
Nutrição Digital: Dados, algoritmos e precisão
Foi de forma quase natural que a Sparos começou a olhar para a alimentação de peixes de aquacultura não apenas como uma questão de «o quê», mas também de «como» e «quando».
«O nosso objetivo não é apenas desenvolver novos alimentos, mas também estratégias de alimentação», resume Luís Conceição.
Esta combinação está na origem da chamada «Digital Nutrition», uma área de negócio dedicada a criar ferramentas informáticas que recolhem dados que, depois de tratados e analisados, se transformam em recomendações práticas para os produtores.
O raciocínio é simples: se for possível prever com precisão a quantidade de alimento ideal para cada situação, é possível produzir mais com menos, «reduzindo o impacto no ambiente e com melhor retorno económico», refere Luís Conceição.
O projeto HatchTools, terminado em abril de 2025, desenvolveu uma aplicação web para ser usada em maternidades de peixes, que regista vários parâmetros durante esta fase sensível e que sugere os melhores planos de alimentação para as espécies em cultivo.
«O HatchTools está feito para melhorar a recolha de dados, de forma mais estruturada, para que depois possamos voltar a calibrar os modelos. Um modelo é um conjunto de equações, mais ou menos complexo. Os nossos são relativamente complexos. Calibramos as variáveis para podermos prever qual a melhor maneira de alimentar os animais», na geração seguinte.
Esta funcionalidade é crucial porque «um dos problemas crónicos da aquacultura, sobretudo na fase larvar, é a escassez de dados de boa qualidade», revela.
Ao organizar a informação que as próprias pisciculturas geram, o algoritmo do HatchTools cria um círculo de autoaprendizagem: quanto mais for usado, mais eficaz se torna.
Se o HatchTools atua numa fase inicial do cultivo de peixes, o projeto OptiFeeSH foca-se na fase de crescimento e engorda, quando a recolha de dados sobre o consumo alimentar é comparativamente mais simples.
Numa colaboração com a empresa grega I2S, criadora do AquaManager — um software de gestão amplamente usado na aquacultura mediterrânea — está a ser produzido um módulo capaz de otimizar os planos de alimentação com base em objetivos comerciais e nas condições específicas de cada produção.
«Uma coisa é otimizar o custo, outra é otimizar o tempo. Por exemplo, se um produtor quiser ter peixe pronto para agosto, quando há maior procura no mercado, pode valer a pena usar uma ração mais cara, mas que garanta o tamanho certo, na altura certa. O OptiFeeSH também vai ter isso», sublinha.
A aplicação, que deverá estar concluída em dezembro de 2025, permitirá simular cenários de engorda, avaliar o impacto de diferentes tipos de ração ou estratégias de alimentação e ajustar os planos em função das encomendas, das exigências do mercado e das condições contextuais de cada produção.
O output será uma série de escolhas ideais para ajudar a decisão dos empresários.
Em comum, ambos os projetos partem da necessidade de se obterem dados empíricos de qualidade. A solução passou por «parcerias estratégicas» com o Centro de Ciências do Mar (CCMAR) da Universidade do Algarve (UAlg), a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) e o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), que «nos últimos 15 anos permitem recolher informação em contextos reais e complementá-la com ensaios controlados».
Linguado, pregado e alabote
Outros dois projetos a decorrer na Sparos, e com financiamento do Programa Regional ALGARVE 2030, envolvem a criação e formulação de rações e o desenvolvimento de microdietas altamente especializadas.
O projeto FlatFIRST, com final previsto para abril de 2027, é dedicado ao linguado, pregado e alabote, peixes planos de grande valor acrescentado, cujas particularidades no seu desenvolvimento larvar tornam a alimentação um desafio ainda maior para os produtores.
Numa parceria com o CCMAR, a maternidade da Flatlantic, a maior unidade produtora de peixe plano da Europa e a principal empresa de aquacultura em Portugal, na Praia de Mira (Coimbra), e a Sterling White Halibut, uma produtora de alabote norueguesa, procura-se ir mais longe e substituir o alimento vivo por microdietas inertes, logo desde a primeira alimentação.
Isto porque a produção de alimento vivo é cara, exige mão de obra especializada e há sempre um risco de problemas na sua produção ou contaminação por doenças.
Por outro lado, o alimento inerte permite o controlo nutricional total e também fazer ajustes à sua composição.
«Na natureza, as larvas não comem rotíferos nem artémia. Comem copépodes (pequenos crustáceos que constituem alimento natural para larvas), que são muito difíceis de cultivar. O alimento vivo que usamos em aquacultura é uma aproximação, mas tem deficiências nutricionais. No inerte, podemos balancear como quisermos», explica Luís Conceição.
Para garantir que estas microdietas funcionam na água, a Sparos recorreu «à microencapsulação (processo de envolver partículas de ração com uma camada protetora): um revestimento que impede que as partículas se desagreguem rapidamente e percam nutrientes por lixiviação».
Aqui, a escala é microscópica e a margem de erro é mínima. «Estamos a falar de partículas entre 100 micras (mais pequenas do que a cabeça de um alfinete) e um milímetro, mas capazes de conter todos os nutrientes necessários para que uma larva de peixe sobreviva, cresça e se desenvolva sem malformações», explica.
A Sparos tem ainda em mãos o projeto EarlyCod, que nasce de uma parceria com o Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR), no Porto, e a empresa norueguesa Planktonic.
O objetivo é melhorar a alimentação das larvas de bacalhau numa combinação inovadora de microdietas produzidas na Sparos, adaptadas às necessidades específicas deste peixe. A agenda prevista inclui investigação dos requisitos nutricionais do bacalhau, ensaios em escala piloto e ensaios em escala industrial para validação comercial.
Apesar de estes projetos serem aplicações diretas para a indústria, o seu estudo implica um risco de investimento, que «nem sempre é possível ter tomado». Por isso, sem o financiamento dos fundos europeus geridos no Algarve, «não tínhamos como avançar. Foi essencial para transformar ideias em produtos reais, com impacto direto na indústria», sublinha Luís Conceição.
E conclui: «Estes projetos permitem-nos trabalhar com empresas nacionais e estrangeiras, futuros clientes, numa colaboração estreita que de outra forma seria difícil de estabelecer. Desenvolvemos um produto e, no final, correndo tudo bem, claro, já temos um cliente a usar o nosso produto».
De Olhão para o mundo: Uma história de sucesso
A Sparos nasceu em 2008, fundada por Luís Conceição e Jorge Dias, dois investigadores do CCMAR da Universidade do Algarve (UAlg) com conhecimento acumulado na alimentação de peixes, que reconheceram a mais-valia na transferência do seu conhecimento.
«Achámos que havia espaço para melhorar a ligação entre a academia e a indústria, sobretudo na área da nutrição de peixes», assume Luís Conceição.
Com o apoio da Universidade do Algarve, através do CRIA — Divisão de Empreendedorismo e Transferência de Tecnologia — começaram por auxiliar empresas de rações e aditivos nos testes com alimentos, tendo iniciado, depois, a sua própria produção.
Inspirada pelo lema «Tailoring Your Feeds», a empresa tem vindo a especializar-se no desenvolvimento de rações feitas à medida para várias espécies de peixes em aquacultura, ao longo de fases específicas do ciclo de vida.
O objetivo é, através de uma dieta personalizada e feita por medida, otimizar a performance e a qualidade das produções.
Por exemplo, «um investigador ou uma empresa que está a desenvolver um produto e o quer testar, em pequenas quantidades, com uma determinada granulagem e composição. No fundo, estamos a falar de uma ração feita à la carte, mais ou menos gourmet», graceja.
Passados 17 anos desde a fundação, a empresa cultivou uma proximidade com o seu mercado-alvo que lhe permitiu crescer de três para 30 colaboradores. Hoje, 90% da produção destina-se à exportação.
A Sparos é reconhecida como líder na Europa na alimentação para o peixe-zebra (Danio rerio), o segundo modelo animal mais usado na investigação biomédica, e no fornecimento de rações para investigação.
Oferece uma gama de produtos alimentícios para larvas de várias espécies comerciais, ferramentas digitais para alimentação (nutrição digital) e tem parceiros e clientes na Europa, América e Ásia.
Em 2016 foi criada ainda uma «empresa irmã», a Riasearch, da qual detém quase metade do capital, e que se dedica à realização de ensaios experimentais para terceiros.
Financiamento do ALGARVE 2030
O projeto HatchTools soma um valor total elegível de 486.468 euros e teve um financiamento aprovado de 371.531 euros (76,37%). Por sua vez, o projeto OptiFeeSH conta com um valor total elegível de 443.066 euros e um financiamento aprovado de 339.494 euros (76,63%). Já o projeto FlatFIRST tem um valor total elegível de 852.840 euros e um financiamento aprovado de 616.029 euros (72,23%). Por fim, o projeto EarlyCod tem um valor total de 369.737 euros e um financiamento aprovado de 229.131 euros (61,97%).
Flatlantic: Projeto HatchTools
«é investimento com retorno garantido»
Como parceira do projeto HatchTools, a Flatlantic considera que esta é uma oportunidade de melhorar um ponto crítico do processo produtivo: a alimentação nas fases iniciais do ciclo de vida do linguado, pregado e alabote.
«Temos sempre interesse em otimizar todas as etapas, porque isso significa reduzir custos e, sobretudo, impacto ambiental», refere Carolina Castro, responsável de Investigação e Desenvolvimento (I&D) na Flatlantic.
O objetivo é reduzir a margem de erro humano nas maternidades e basear as decisões em dados concretos.
«Muitas vezes há sobrealimentação ou subalimentação, consoante a avaliação do operador. Uma ferramenta digital ajuda a definir o que o peixe deve comer, com base em critérios objetivos», diferencia.
Embora o objetivo inicial tenha sido mais experimental, a responsável destaca o potencial do HatchTools para ser integrado na automatização de processos.
Ao «eliminar variações associadas ao fator humano e afinar o fornecimento de alimento», é possível garantir uma nutrição «mais adequada, melhorar o desempenho zootécnico e reduzir desperdícios».
Na visão da empresa, este tipo de tecnologia não é apenas uma questão de eficiência, mas também de sustentabilidade.
Menos desperdício significa menos pressão sobre os recursos e menos resíduos na água, o que se traduz em melhores condições de cultivo e num impacto ambiental mais controlado.
«Tudo o que nos permita otimizar e automatizar, especialmente nas fases mais sensíveis, é um investimento com retorno garantido», conclui.
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Reportagem publicada no livro «Algarve – Economia Azul: Inovação e Fundos Europeus na Região», recém-editado pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Algarve, com produção editorial do jornal barlavento.





