O porta-voz do Livre apoiou a candidatura de Adriana Marques Silva à Câmara de Faro, atacou o Chega e a Iniciativa Liberal e criticou o governo pela falta de firmeza face a Israel.
O porta-voz do Livre, Rui Tavares, esteve ontem em Faro para apoiar a candidatura de Adriana Marques Silva à Câmara Municipal, onde defendeu o partido como «a alternativa do otimismo progressista» face ao «rancor populista» que, diz, domina parte do debate político nacional.
Perante uma dezena de militantes e curiosos, junto à Doca de Faro e com o termómetro a marcar 30 graus, Tavares lançou o mote: «Aqui temos um candidato da extrema-direita que diz querer tornar Faro grande outra vez, mas que não põe cá os pés porque não anda a fazer campanha. Não tem programa — ou, pelo menos, ninguém o vê. Andámos à procura e o programa do Chega não se encontra, deve ser como o candidato, que pouco aparece por Faro».
Para o dirigente, é «absolutamente necessário» travar a expansão do populismo no Algarve. «Compreendemos as razões de frustração das pessoas. A vida está difícil, as pessoas não conseguem encontrar casa, as políticas públicas são muitas vezes incompreensíveis e a administração pública não é suficientemente transparente. Isso gera ressentimentos legítimos, mas é precisamente nesses ressentimentos que os políticos oportunistas querem pegar para dividir as pessoas e rebaixar a democracia», afirmou.
Tavares contrapôs «a alternativa do otimismo progressista», que pretende «elevar a vida de todos» e «mostrar que a democracia serve para resolver problemas». «Nós conversamos com as pessoas, entendemos as causas das suas frustrações e procuramos dar respostas positivas. O Livre é uma alternativa de outra natureza, vinda de um mundo oposto ao do rancor populista», acrescentou.
O líder do Livre defendeu uma política «feita de baixo para cima, a partir das comunidades», e disse que Faro «desperdiçaria uma enorme oportunidade» se não elegesse Adriana Marques Silva e Rodrigo Teixeira.
«O Algarve precisa de quem olhe para o seu potencial e perceba que é preciso diversificar a economia. Não estar apenas concentrado nos setores que dão dinheiro fácil, mas só a alguns: o turismo de massas, o imobiliário de luxo ou o jogo online. Queremos uma economia que valorize as pessoas, o conhecimento do território e os jovens que aqui vivem e escolheram ficar», afirmou.
Entre as ideias concretas, destacou a transformação da antiga Fábrica da Cerveja «numa fábrica de cultura» e a criação de «parques e bibliotecas de bairro que sirvam todos». «A política também tem de ser feita de objetos de desejo político: melhorar a rua, o bairro, criar espaços comuns. É isso que dá razões para acreditar e que impede as pessoas de votarem no rancor e na divisão», resumiu.
Depois, dirigiu críticas diretas à coligação encabeçada por Cristóvão Norte (PSD), que integra Iniciativa Liberal, CDS-PP, PAN e MPT. «É legítimo perguntar ao candidato do PSD com quantos despedimentos se comprometeu com a Iniciativa Liberal na Câmara Municipal. Foi de cantoneiros? De auxiliares nas escolas? De funcionários administrativos?», questionou.
Para Rui Tavares, «a Iniciativa Liberal não é nem iniciativa, nem liberal». «Poderia ser interessante haver em Portugal um partido liberal como existe por toda a Europa — não seria o nosso, mas ao menos teríamos um interlocutor que defendesse os direitos fundamentais e a dignidade de cada ser humano. Infelizmente, a Iniciativa Liberal acompanha esta retórica anti-imigrante, oportunista e de vistas curtas, que é um tiro no pé da economia do país e nos direitos do trabalho», afirmou.
Tavares acusou os liberais de querer «comprimir direitos dos trabalhadores» e de «achar que é preciso despedir funcionários públicos». «Mas quando é alguém com cartão do PSD, como Carlos Moedas, que não tapa os buracos nem apanha o lixo, a IL acha que ele é o «funcionário do mês». Isso mostra bem o tipo de oposição que fazem», ironizou.

Sobre a nova liderança de Mariana Leitão, considerou que «nada mudou». «Já criticávamos Cotrim de Figueiredo, Rui Rocha e Guimarães Pinto. Lá onde os liberais deviam estar — na defesa das grandes causas e do liberalismo político —, não os vemos. E aí, por acaso, fariam falta», afirmou.
Tavares acrescentou que «o Livre acredita que Faro pode e deve eleger vereadores progressistas», e que a escolha entre partidos começa a tornar-se mais clara. «Temos dois partidos tradicionais, um partido populista e um partido progressista. É essa a nova política portuguesa. O Livre é o partido progressista, a alternativa ao rancor e à resignação», afirmou.
No final da intervenção, deixou um elogio à cabeça-de-lista local: «Os farenses não sabem a sorte que têm ao contar com alguém que traz o seu conhecimento técnico na área da gestão e do turismo, mas que quer usar esse saber para criar valor acrescentado para toda a comunidade. Não um turismo extrativo, mas sustentável, que beneficie todos».
O discurso terminou com um tom pessoal e simbólico: «A política começa por ser feita por boas pessoas. Boas pessoas como aquelas que queremos ter no nosso bairro, como vizinhos e parte da nossa comunidade. É assim que o Livre faz política: com respeito, com empatia e com confiança nas pessoas».
Em declarações aos jornalistas no final do comício, Tavares voltou ainda a abordar a situação internacional, criticando a «falta de transparência» do governo sobre a passagem de caças F-35 com destino a Israel. «Esta história está mal contada e envolve falta de lealdade e de transparência. O primeiro-ministro Luís Montenegro está a tentar varrer o assunto para debaixo do tapete, quando em qualquer outro país isto seria uma crise governamental», disse.
«Não percebo porque é que temos uma fasquia mais baixa do que outros países europeus. Se isto seria uma crise noutro país», afirmou, lembrando as recentes «insinuações de que há acordos secretos» com os governos de Israel e dos EUA.
«Isso ainda deixa a história com um cheiro mais esquisito, para dizer o mínimo. O que houve aqui foi falta de lealdade e de transparência perante os portugueses, e têm de existir responsabilidades políticas por isso», considerou Rui Tavares.
Já sobre o caso da flotilha humanitária interceptada por Israel, o líder do Livre considerou «absolutamente ignominioso» o comportamento do executivo israelita.
«Na política, temos de estar do lado da humanidade. Ora, o governo [português] o que fez foi andar a navegar entre o escárnio que se fez desta flotilha humanitária por parte de certos sectores da direita nas redes sociais — com algumas coisas de francamente mau gosto – nas quais participam até alguns ex-líderes políticos, como o caso de Rui Rocha, da Iniciativa Liberal, que insinuou há dias nas redes que até preferia que ninguém sentisse a falta de Mariana Mortágua em Portugal. Bem, os eleitores que votaram na Mariana e aqueles que são representados por ela no Parlamento, sentem. E todos os cidadãos portugueses — já que se fala tanto de patriotismo, e há aí partidos sempre com a pátria na boca — deviam lembrar-se que, neste caso, temos de defender cidadãos portugueses. Ver o governo português fazer menos do que fazem o governo espanhol ou o governo italiano é, francamente, pouco», criticou.
Além disso, disse, «não tenho senão respeito por quem se mete num barco para chamar a atenção para o que se está a passar em Gaza. E é isso que deve estar sempre no centro das nossas atenções. Eu posso ter diferenças políticas, de estilo, de tom ou de abordagem com toda a gente, mas respeito quem se mete num barco para chamar a atenção para um assunto — mesmo que não seja da maneira que outros fariam — que está a deixar toda a gente indignada na sua impotência», reforçou.
Tavares lembrou que, desde que Portugal reconheceu a Palestina, «as águas em frente à Faixa de Gaza são águas palestinianas, não israelitas», e defendeu que esse reconhecimento «tem de ter consequências práticas». «Não podemos reconhecer um Estado e depois agir como se ele não existisse. O que houve aqui foi falta de firmeza política e de solidariedade humana», concluiu.
«Depois, é preciso perceber o que foi aquela história absolutamente ignominiosa de termos um ministro de extrema-direita do governo israelita a insultar todos os detidos e a chamá-los terroristas ou cúmplices de terroristas. Que isso não tenha levado o governo português — um governo que se respeite, que defenda os seus concidadãos — a chamar o embaixador de Israel para dar explicações sobre esta utilização de reclusos é grave. Se fosse em guerra, as Convenções de Genebra proibiriam isso. Aqui nem sequer estamos em guerra. É uma atitude indecorosa, que devia ter levado o governo português a reagir com firmeza. Paulo Rangel, que às vezes tem uma retórica tão forte para certos casos, não teve críticas a fazer ao governo israelita neste» assunto, insistiu.
Depois da passagem por Faro, a comitiva seguiu para Loulé, onde o Livre concorre coligado com o Bloco de Esquerda. O antigo eurodeputado José Gusmão acompanhou a candidata à Câmara, Ana Poeta, e o cabeça-de-lista à Assembleia Municipal, Carlos Martins, num périplo pelo centro da cidade, defendendo o aproveitamento de edifícios devolutos para habitação.

