Atual vereador, presidente da concelhia e candidato do Partido Socialista (PS) à Câmara Municipal de Olhão nas próximas eleições autárquicas, Ricardo Calé quer melhorar a qualidade de vida da população, e sobretudo, afirmar ainda mais a cidade cubista como Capital da Ria Formosa.
barlavento: Olhão mudou muito nos últimos 15 anos. Como vê esta evolução?
Ricardo Calé: Quando olhávamos para o Algarve e para os 16 concelhos, Olhão, eventualmente, estava no top dos concelhos menos desenvolvidos. De repente, há aqui um projeto e um traçado de ascensão muito consolidado e muito bem visto por todo. Passámos do top 3 negativo para o top 3 positivo. E os olhanenses perceberam que este trabalho que foi feito até aqui não se pode perder. Há uma responsabilidade muito grande na continuação. Acho que as pessoas perceberam que isso era mais importante que simplesmente ser chamado a votar de quatro em quatro anos.
Agora que é candidato, que rumo defende para a cidade e o concelho?
Quando fui convidado pelo presidente António Miguel Pina para a sua equipa, lançaram-me dois grandes reptos: a criação de um Parque de Inovação e Tecnologia e o projeto de Habitação Acessível, que iria ser um desígnio nacional (e tinha razão), com a construção de 308 frações no terreno da antiga litografia. Pina deixa uma grande marca na cidade que é muito respeitada. E, naturalmente, nesta alteração de liderança, há uma exigência maior. Baseámos sempre a nossa forma de pensar em cinco grandes pilares: saúde, habitação, educação, emprego e a nossa identidade. No que toca à identidade, sublinho dois desígnios: a nossa estreita relação com a Ria Formosa e a nossa história, cultura e tradição. Temos sempre de pensar nos quatro pilares anteriores, desenvolvê-los muito bem, continuar na senda do progresso, mas sempre com respeito pela alma olhanense que não se pode perder. São estas as responsabilidades que temos de cuidar ou encaminhar na vida das pessoas.
Quais os desafios do presente?
Há 20 anos, as pessoas estavam muito preocupadas com a questão do saneamento. Estavam muito preocupadas, inclusive, com a alimentação, que não chegava a todos. Hoje, felizmente, estas conceções base de qualidade de vida já foram adquiridas. Felizmente, Olhão dotou-se de infraestruturas e condições que dão respostas a esses desígnios. Agora, temos de conseguir saber manter muito bem a cidade, porque as pessoas começam a estar preocupadas com o pormenor. Temos de conseguir montar muito bem a nossa estratégia urbana, sabendo aquilo que a população quer.
E que quer a população de Olhão, na sua perspectiva?
As pessoas têm de estar tranquilas sabendo que quem lidera a cidade responde às suas preocupações. Por exemplo, quando vou para o trabalho ou para a creche das crianças, estou numa cidade que tem os arruamentos condignos? Os cuidados com a urbe estão assegurados? Os jardins estão mantidos? Os parques infantis são seguros? E como cuidamos dos nossos idosos? Todos os projetos que pensamos a médio e longo prazo, têm de ter por base estes conceitos. Tal como o Algarve, Olhão também tem de conseguir diversificar a sua base económica. Não podemos viver somente do turismo. O capital humano qualificado, os olhanenses formados, dos 25 aos 55 anos, têm de ter capacidade para ficar em Olhão e na região. Creio que quem conseguir fazer a diversificação ganhará o futuro, e por isso temos de conseguir captar e fixar talento e que as pessoas possam ficar cá e ter uma boa progressão na carreira.
Que mais?
Uma vez que as necessidades básicas estão cumpridas, temos de ter uma grande dedicação à gestão da urbe. A população tem de ter cada vez mais qualidade e orgulho em viver em Olhão. Acredito que isso já se sente e por isso temos de continuar a requalificar o espaço público. Às vezes tudo começa com pequenos projetos. Na última Semana Europeia da Mobilidade lançámos o Projeto Cidade 15 Minutos. Quando saímos de um serviço público, temos um totem que mostra a quanto tempo de distância estão os outros serviços públicos. Vale a pena pegar no carro para fazer seis minutos a pé? Temos de criar, nesta interação entre a população e a cidade, condições de agilidade na vida diária e boas acessibilidades.
Esta é também uma preocupação em linha de conta com os desafios ambientais, de adaptação às alterações e à emergência climática?
A verdade é que todos nós fomos fazendo, dentro de nossas casas e trabalhos, a adaptação à dinâmica de transição digital. Agora é preciso fazermos a transição climática. Não pode ser apenas um chavão, uma meta a alcançar. É preciso dar à população os meios para que essa transição climática se vá realizando, por exemplo, com respostas que permitam optar por meios suaves de mobilidade. Este aspeto toca no quinto pilar que referi no início desta entrevista: a nossa identidade ligada à Ria Formosa. A mobilidade na Ria Formosa tem de respeitar a nossa cultura, a nossa história, deixando que profissões que são muito antigas na cidade. continuem a perpetuar-se no tempo. Temos de garantir também que protegemos esta ambiente sensível. Os pescadores, os mariscadores, as conserveiras, não podem olhar com preocupação para a Ria Formosa. Têm de acreditar que continua a ser uma marca de Olhão, e que quem gere os destinos da cidade e do concelho está preocupado com a sua preservação. É preciso criar alternativas para que a normal utilização da Ria Formosa aconteça sem a agredir. Queremos que esta pérola continue a ser utilizada não só pelo turismo, pois há muitas pequenas empresas (mar táxi, marítimo turísticas, etc.) que dela dependem, mas também por aqueles que sempre viveram da Ria.
Como está o processo do Bairro 16 de Junho?
Já temos finalizadas as infraestruturas. Vamos lançar o concurso para construção das 64 casas. É das poucas zonas de Olhão cujas casas não têm salubridade, nem a dignidade necessária, nem as condições de segurança. Vamos conseguir dar uma grande qualidade às famílias que ali vivem. E fazemos melhor ainda. Houve uma decisão estratégica do executivo, em manter as pessoas onde sempre nasceram, cresceram e constituíram as suas famílias. Assim como está ali um hotel cinco estrelas e estão a ser vendidas as casas por milhões de euros a 10 metros daquele bairro, poderia ter havido a opção estratégica de as relocalizar para outra zona, mas achámos que merecem estar onde estão.
Que pode dizer em relação ao futuro da Belaolhão?
Trata-se de um projeto que vai ser muito importante para Olhão. Vamos garantir, a nascente da cidade, uma nova zona de enorme qualidade com hotelaria e habitação. Queremos garantir que os trabalhos diferenciados que vão necessitar, estejam disponíveis com a melhor solução remuneratória e melhor proteção social possível. Olhão é uma das cidades do Algarve que menos turismo tem. Representa dois por cento do total. Quando a atividade turística começou a crescer, houve quem tentasse demonstrar que seria um problema. Hoje, a população já percebeu a importância do turismo. Mas preservámos sempre a nossa arquitetura. No início dos anos 1980/1990, os grandes construtores foram para Armação de Pêra, Monte Gordo e Portimão. O turismo não vem desvirtuar o que aqui existe e isso é uma das grandes vantagens que Olhão tem.
Para quando a inauguração do novo Canil Municipal?
É um sonho com 20 anos. Tivemos o privilégio de, neste mandato, iniciar a obra, que é complexa e um investimento avultado. Está praticamente concluída. Havia um desafio: o custo de levar saneamento ao edifício era tão alto como o próprio edifício, cujo orçamento era de 1,3 milhões. Foi preciso uma alternativa. Os nossos serviços técnicos encontraram, em conjunto com a Agência Portuguesa do Ambiente (APA), uma solução. Vamos ter uma mini ETAR ecológica, com um tratamento natural. O abastecimento de água será através de furo. Será um Canil autónomo. É muito interessante casar a causa animal com a causa ambiental.
Qual o ponto de situação do Hub Azul no porto de pesca?
O concurso público já terminou, a obra foi adjudicada e vai iniciar em breve. É algo a que estamos muito dedicados a fazer acontecer. Vai ser uma referência no Algarve. Vamos conseguir ligar a tecnologia ao emprego e à investigação, ainda para mais ligada ao mar. Queremos que seja mais um polo de atração e captação de talento qualificado a estudar a Ria Formosa e a investigar soluções para o futuro. Ser uma das cidades eleitas a nível nacional para acolher um Hub Azul, é um grande privilégio.
Para quando a retirada do estaleiro municipal para outro local?
Temos ali uma zona que é uma das mais bonitas da cidade, com as salinas e a avifauna, mas quando vamos à procura dessa boa experiência, somos obrigados a passar por um local que está pouco cuidado. Já começámos a retirar todas as equipas municipais dos antigos estaleiros, das oficinas. Resta o estaleiro da AmbiOlhão, que no futuro terá as oficinas ligadas num espaço contíguo ao novo Quartel dos Bombeiros, junto à zona industrial de Marim, e o Canil, que em breve será extinto.
O novo Quartel dos Bombeiros é um projeto muito aguardado. Será realidade se for presidente?
Cheguei a pensar que o desafio financeiro seria maior, isto é, arranjar a verba para fazer a construção, mas a aprovação de alteração do uso do terreno para se conseguir fazer o Quartel dos Bombeiros levou anos. Estamos a falar de infraestruturas que são essenciais, não são lúdicas nem empresariais ou relacionadas com alguma atividade económica.
Qual o futuro para aquela zona ribeirinha?
Gostaríamos de ter uma boa unidade hoteleira de baixa volumetria, que não tenha um grande impacto paisagístico. Agora está a ser criado um parque urbano que será o maior jardim da cidade. Acreditamos que terá uma nova centralidade e que as pessoas vão gostar de estar ali aos fins de semana com as suas famílias, a passar bons momentos e a criar boas memórias. Ficamos, mais uma vez, com uma vantagem, quase inédita ao nível nacional. Desde esse jardim à zona do porto de Pesca, temos quilómetros de autêntica frente de Ria, em que as pessoas conseguem passear sem que tenham uma única vez de cruzar a estrada.
Lema «Unidos por Olhão. Rumo a um Desafio maior» ainda mais atual
Ricardo Calé foi escolhido como candidato do PS à Câmara Municipal de Olhão para as eleições autárquicas de 2025, após um processo marcado por números inéditos e uma mobilização recorde dos militantes da concelhia.
«Fiz um grande investimento no projeto, na obra e na dedicação ao trabalho diário e aos pelouros que tenho e isso foi passando um bocadinho para a sociedade civil. As pessoas foram percebendo que gostavam de me ver como continuidade do presidente António Miguel Pina, que sou uma pessoa jovem, aguerrida, dinâmica, e que tenho o pensamento alinhado em ideias nas quais elas veem a cidade nos próximos 20 anos. Perguntavam-me como podiam ajudar. Respondia que tínhamos um momento importante, que era a decisão da direção do partido, e as que queriam ajudar, fizeram-se militantes. Fui o segundo presidente de concelhia do país com maior número de votos, 923 num total de 1200 votantes», recorda.
Na etapa seguinte, «achámos que, estrategicamente, seria também importante que o partido elegesse o candidato a presidente de Câmara às autárquicas de 2025 logo desde muito cedo. Em julho, fizemos a reunião da Comissão Política, onde votámos o candidato. O secretariado do partido anunciou o meu nome como candidato e foi muito agradável de perceber que embora tivéssemos 75 por cento dos militantes a votarem em nós, eu como candidato fui eleito por mais de 95 por cento das pessoas. Ou seja, significa que o partido, rapidamente, criou união», recorda.
«E percebeu que o projeto a seguir é o mais importante. Tanto que a nossa candidatura tinha duas frases-chave: Unidos por Olhão. Rumo a um Desafio maior. Quisemos dar nota que foi apenas um ponto de partida. O maior desafio de todos é o que aí vem», conclui Ricardo Calé.


