barlavento – Porquê o acordeão e não outro instrumento?
Ricardo Alves – Foi sempre a minha grande paixão. Comecei a aprender por volta dos seis anos, de ouvido. Também frequentei aulas de piano, mas nunca me adaptei bem às teclas. Este é um instrumento completo e muito complexo, que sempre se encaixou bem em mim. Mas o grande salto aconteceu, quando comecei a ter aulas com o grande mestre algarvio de acordeão, o professor Hermenegildo Guerreiro, que me levou ao patamar onde estou hoje. Comecei a ter conhecimento teórico, começaram a surgir alguns festivais e concursos, fui campeão ibérico aos onze anos, na categoria infantil, e fui ganhando nas categorias todas, a nível nacional. Participei nas provas de seleção para a Copa do Mundo, em Portugal, mas não consegui ir à prova, devido a um problema pessoal. É a minha grande mágoa, porque fica a dúvida do que poderia ter acontecido.
Porque mudou do acordeão acústico para o eletrónico e se dedicou a abrilhantar bailes?
Aos 21 anos, fiz uma mudança. Achei que era altura de agarrar um trabalho que desse alguns frutos a nível financeiro e ingressei no mundo dos bailes. É difícil viver do acordeão acústico, porque há poucos festivais e um homem necessita de colocar o pão na mesa todos os dias.
A via mais fácil?
Não o colocaria nesses termos. Passar do acústico para o eletrónico não é exatamente fácil. E recomeçar a cantar, depois de 11 ou 12 anos, também não. Nunca me considerei um grande cantor, mas possuo uma grande vontade de cantar. Tenho vindo a melhorar a minha voz, ao longo dos anos. E o grande fluxo de trabalho não se deve só ao acordeão, porque, em 40 ou 50 músicas que se toca numa noite, 30 ou mais são cantadas. Toco por toda a parte, até Setúbal, e sempre fui convidado a regressar, o que quer dizer que o conjunto acordeão/voz agrada aos públicos para quem atuo.
Oiço críticas de que, nos dias que correm, os músicos que fazem bailes abusam dos acompanhamentos em playback e limitam-se aos solos simples. Concorda?
No acordeão, temos muita dificuldade em fazer playbacks. Quem aproveita o som do acordeão tradicional e toca a sério, nunca o fará. Usamos a caixa dos ritmos para nos dar isso mesmo: valsa, tango, marcha, entre outros. É simplesmente a base. É tudo programado na bateria, mas são os nossos pés que começam, fazem as mudanças dos breaks e terminam os ritmos. Não temos nada sequenciado.
Os bailes, exceptuando os meses de verão, só se realizam aos fins de semana. O que faz um músico com o tempo livre?
Estamos no meu estúdio, a que chamo «templo sagrado», onde as ideias acontecem. Já compus cerca de 40 músicas para a Revista à Portuguesa da Mexilhoeira Grande e as vozes foram gravadas neste estúdio. E ocupo-me a fazer arranjos de músicas e temas para alguns artistas do Algarve.
Temos, então, a faceta menos conhecida do Ricardo Alves, o compositor?
Sim. Mas não tenho muito tempo para compor, porque gosto de dedicar o meu tempo à minha família, aos amigos de quem gosto, à minha namorada, com quem vivo. Faz bem passar o tempo com quem gosta de nós e sempre tratou de nós. Mas, quando as pessoas me pedem, vou fazendo algumas composições ou arranjos. Ou algo pessoal, que me vem à ideia.
Ainda escreve as pautas em papel ou já usa um daqueles programas informáticos?
Por acaso, tenho um desses programas no computador. Mas o que gosto mesmo é de gravar a música, nem que seja só a introdução, para meu uso. Quando já tenho um número suficiente para registar na Sociedade Portuguesa de Autores, uso um programa informático para escrever as partituras.
Julgo que teve uma grande ligação ao grande acordeonista e compositor João César, já falecido?
É verdade. Foi ele quem me ensinou a tocar a primeira música e indicou o professor Hermenegildo Guerreiro para a minha formação. Cantei várias vezes com ele, fez vários originais para mim e, com oito ou nove anos, gravei uma cassete, em Évora, com músicas dele e letras de vários autores seus amigos. Mais tarde, foi com ele que aprendi as técnicas de composição digital. Para mim está sempre presente. No dia 22 de agosto, haverá a primeira edição de um troféu regional com o seu nome. Estou ligado, como não poderia deixar de ser. Farei parte do júri e tocarei o tema que dará início ao programa e que ficará como tema de abertura para todas as edições vindouras. Todos os participantes com mais de 14 anos serão bem-vindos.
Há mais acordeonistas no sotavento do que no barlavento, ou não?
Há e com uma diferença. Os músicos deste lado estão mais virados para os bailaricos e, lá, têm outras características. Não sei se é pelas influências culturais, mas há uma grande recetividade ao acordeão acústico, naquela zona. Este lado está mais voltado para o turismo e aquele para a cultura.
Mas a Academia de Música de Lagos tem classe de acordeão, o que deveria produzir músicos clássicos?
É verdade. Mas promove a cultura clássica e não a cultura do próprio Algarve. Penso que faz falta na Academia um professor que não ministre só formação clássica, mas que insira muita cultura enraizada do Algarve.
É isso que existe no sotavento?
Não existe uma grande aposta na parte académica do acordeão, nessa zona, mas há muito ensino voltado para a cultura do instrumento em si. O professor Hermenegildo Guerreiro tem desenvolvido muito o que chamamos ligeiro-popular, que é a área em que participamos nos concursos nacionais. E essa categoria resume-se a tocar mazurcas, polcas e afins, que não são nossas. Mas, ao mesmo tempo, passa-nos uma cultura regional desenvolvida pela parte mecânica de todas as outras músicas, permitindo atingir um patamar superior, pela mistura criteriosa de influências. Ele e o João Frade, que foi seu aluno, fazem arranjos maravilhosos para músicas populares portuguesas, que elevam sem as desvirtuar.