Portimão acolhe a estreia de «Boa Esperança Em… Revista», num espetáculo que assinala 60 anos de tradição teatral, humor, crítica social e música, no domingo, dia 10 de maio.
A tradição da revista à portuguesa está de regresso com energia renovada. O Boa Esperança Atlético Clube Portimonense, em Portimão, prepara-se para estrear a produção «Boa Esperança Em… Revista».
Um espetáculo que não podia ser mais completo, com momentos de humor, crítica social, música e muita emoção, em cena a partir de dia 10 de maio. Até ao final de junho estará em cena em Portimão e nos restantes meses de verão em digressão por todo o Algarve.
Este ano, a subida ao palco tem um significado especial para o diretor Carlos Pacheco, que enfrentou recentemente problemas de saúde, motivo do atraso da estreia. Ainda em recuperação, mostra-se cautelosamente otimista. «Estou expectante, mas muito positivo e confiante de que tudo vai correr bem. Tenho uma equipa incrível que me dá todo o apoio», garante.
A tradição de mais de seis décadas mantém-se viva e essa é precisamente a motivação, daí a escolha do título «Boa Esperança Em… Revista», uma opção consciente que simplifica o conceito e reafirma a identidade deste teatro portimonense.
«Quem olhar para o cartaz sabe que estamos em cena, não precisamos de muito mais. É um apelo à população para vir ver a revista, não apenas a nossa revista, mas a revista», sublinha Carlos Pacheco.
Uma escolha que, segundo o responsável, acabou por se sobrepor a outras ideias inicialmente consideradas, algumas mais ousadas, mas que levantaram questões de registo e classificação etária.
Com um elenco «fantástico» que conta com novos elementos e muito entusiasmo, é também esse espírito de equipa e comunidade que o Boa Esperança pretende ressaltar. O espetáculo representa uma oportunidade para artistas locais subirem ao palco com um nível de exigência extremamente profissional.
«Somos todos da terra e queremos dar às pessoas um espetáculo como se faz em Lisboa, sem envergonhar ninguém», afirma.
Para o responsável, a ambição não passa por replicar o modelo da capital, mas por afirmar Portimão como palco de produção cultural relevante. «Se fôssemos para Lisboa, tínhamos um espetáculo belíssimo como os que lá se apresentam», reforça.
Mesmo antes de estrear, muitos já garantiram os seus lugares, tal como nos anos anteriores. «Os domingos estão praticamente cheios e já temos alguns sábados completos», revela o diretor, confiante num arranque forte. «Começámos tarde, mas vamos começar em grande».
A seleção de temas parte, na maioria dos casos, do próprio Carlos Pacheco, embora exista espaço para contributos coletivos. «Abordamos normalmente 10 ou 12 temas da atualidade que após escolha inicial, vamos ajustado e juntando ideias», comenta.
Entre os quadros já confirmados está a polémica dos nascimentos em ambulâncias, referências de lazer, com o México em destaque como um dos destinos preferidos dos portugueses, e uma homenagem aos mais velhos.
«Além de números de humor, vamos ter também outros mais sérios, que vão tocar no coração das pessoas», desvenda Carlos Pacheco ao acrescentar: «Gostava que todos envelhecêssemos com qualidade e é essa a mensagem que queremos transmitir».
O processo criativo, admite, é exigente e cada vez mais complexo. «Antigamente era mais fácil. Hoje há uma preocupação maior com o que o público quer e com a forma como as mensagens são recebidas», afirma.
A escrita dos textos pode ser um exercício intenso, porém o resultado conta com a colaboração de toda a equipa.
O espetáculo promete. «As pessoas podem esperar o melhor espetáculo que já fizemos no Boa Esperança», afirma ao enfatizar uma «entrada apoteótica», temas fortes e uma componente musical «fenomenal».
A cenografia e as coreografias também foram alvo de especial cuidado, num esforço coletivo que reflete o empenho de todo o elenco, «motivo de orgulho» do responsável. Carlos Pacheco não hesita em afirmar que o Algarve é uma «fonte de riqueza» em talento artístico.
«Damos oportunidade às pessoas e elas aproveitam, e assim vamos crescendo», diz. O que une o grupo é, acima de tudo, a paixão pelo teatro. «Se não amássemos o que fazemos, era impossível estar aqui depois de um dia de trabalho, a ensaiar até de madrugada».
Apesar deste entusiasmo, o encenador não esconde preocupação com a diminuição do público da revista à portuguesa, tendência que considera transversal a outras formas de teatro.
«Os mais jovens não têm esse hábito e os mais velhos começam a deixar de vir, por várias razões», frisa ao apontar mudanças demográficas na região como um desafio adicional.
Para contrariar essa realidade, o Teatro Boa Esperança tem desenvolvido iniciativas junto das escolas, com bilhetes acessíveis e ações pedagógicas.
«Queremos desmistificar o teatro e mostrar que pode ser divertido», ressalta.
A revista, em particular, é vista como uma forma completa de expressão artística. «Aqui há de tudo: canto, dança, drama, comédia. Os atores de revista são dos mais completos».
Ainda assim, Carlos Pacheco defende um maior reconhecimento institucional para o género. «Precisávamos de mais apoio do Ministério da Cultura. É um espetáculo que exige um investimento muito grande e que continua a ser pouco valorizado», lamenta.
No final, deixa um convite ao público: «Venham ao teatro, seja aqui ou noutro sítio. Apoiem a cultura, vejam espetáculos, exposições. Se vierem ao Boa Esperança, tenho a certeza de que vão sair daqui muito bem impressionados»
Entre tradição e reinvenção, «Boa Esperança Em… Revista» prepara-se assim para voltar a afirmar a força da revista à portuguesa em Portimão e por toda a região.
O espetáculo integra as interpretações de Carlos Pacheco, Marcus André, Telma Brazona, Isa de Brito e Ana Oliveira e da coreógrafa Filipa Goulart e bailarinas Catarina Duarte, Maria Martins, Leonor Mitelo, Beatriz Maio e Beatriz Bernardo.
As sessões em Portimão decorrem sexta e sábado às 21h00 e domingo há sessão dupla às 15h00 e às 17h00. Os bilhetes já se encontram à venda nos locais habituais. As datas dos restantes espetáculos serão anunciadas em breve.