Os pescadores do polvo do Algarve aguardam há cinco meses o pagamento do apoio salarial do defeso e não conseguem sair ao mar devido ao mau tempo.
Cais da Fuzeta, um grupo de homens agita-se junto à lota, na manhã desta sexta-feira. Olham os barcos amarrados por força do mau tempo, que os impede de ir à faina.
«Os pescadores já há mais de 30 dias que não vão ao mar e não ganham. Está a ser muito complicado. Têm filhos, têm casas a pagar, e ninguém vem cá falar conosco. Não vem uma entidade do Governo falar, nem dar uma ajuda a ninguém», lamenta Humberto Gomes, presidente da Associação de Armadores de Pesca da Fuzeta (AAPF).
E à paragem forçada soma-se outra espera por algo que poderia ser uma boia de salvação para armadores e tripulantes.
Em julho, o Governo anunciou compensações para o primeiro defeso do polvo, que na costa do Algarve, decorreu entre 15 de setembro e 14 de outubro de 2025. No entanto, ainda não foram pagas.
«Já falámos com todos, inclusive com o Secretário de Estado das Pescas. Está tudo explicado e identificado. Mas estamos em fevereiro e ninguém sabe se recebe, se não recebe ou quando é que recebe», lamenta o dirigente.
«As pessoas estão indignadas, com toda a razão. Mas o mais indignante é não vir cá ninguém responsável explicar o que é que se está a passar», reforça.

Sónia Olim, diretora da AAPF, diz que os associados «todos os dias perguntam pelos subsídios. Já contactei as autoridades competentes, mas também ninguém me dá informações».
Segundo a diretora, o processo de análise da compensação social está a cargo da Direção-Geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos (DGRM) e, de norte a sul do país, «ninguém recebeu».
Embora elogie o atual executivo, Olim admite que esperar por respostas é frequente. «Infelizmente, é. Este secretário de Estado está muito mais aberto e mais comunicativo com o setor. Temos verificado bastante diferença. Mas a nível de atuação e de rapidez, a agricultura consegue sempre respostas muito mais céleres do que as pescas. E ao nível de financiamento, nas pescas, tudo leva sempre muito tempo a conseguir que seja algo pago».
O apoio em falta, previsto na Portaria n.º 266/2022, foi operacionalizado através do aviso MAR2030-2025-31, publicado a 29 de julho de 2025. A dotação foi de 1,4 milhão de euros, prevendo pagamentos a serem realizados por transferência bancária através do Instituto de Financiamento da Agricultura e Pescas (IFAP).
«Com a corda no pescoço»
Segundo a AAPF, o Governo atribuiu também ajudas ao combustível gasto na retirada das artes de pesca para o período do defeso, que já foram pagas num valor que rondou, 100 a 200 euros por embarcação, no universo dos 90 associados.
Em média, de acordo com a dimensão e tripulação da frota da Fuzeta, a associação estima o apoio salarial ainda por pagar em «cerca de 2.000 euros por embarcação e salário mínimo para os pescadores. Faria muita diferença às tripulações que hoje não têm onde ir buscar dinheiro, porque não conseguem sair ao mar».
Jorge Gaspar, pescador na embarcação «Ás do Atlântico», confirma ao barlavento que desde o Natal «ainda não ganhei um cêntimo». O colega, Ricardo Vieira, da embarcação «Helia Vieira», pescador há cerca de seis anos, fala mesmo em «calamidade» na comunidade piscatória.
Antes do final da última quadra festiva, «íamos ao mar, pelo menos, um dia ou dois por semana. Agora, como é que se sustenta a família?». E «não posso pedir subsídio de desemprego, porque sou patrão do barco, não tenho direito a nada».
«Por um dia de atraso, tive de pagar uma multa pelo selo do carro. Como é que prometem um dinheiro que está disponível e quase seis meses depois, nada? Isto é gozar com os pescadores! Os homens que trabalham comigo andam a pedir emprestado», afirma.
O mestre sublinha que «não estamos a falar de uma embarcação, mas de centenas paradas. Isto também mexe com todo o setor», inclusive os intermediários, comerciantes e restauração.
Humberto Gomes confirma: «O tempo vai continuar mau e as pessoas estão já com a corda no pescoço».
Sónia Olim admite que «estamos à beira de um problema social. Acredito que já haja famílias a passarem necessidades».
Por sua vez, Gustavo Viegas, mestre do «Mestre Ladeira», embarcação tripulada por cinco homens, que faz porto em Santa Luzia, Tavira, não poupa críticas à tutela. «É uma vergonha. Pagámos os papéis, cumprimos, tratámos de tudo. Mas até à data, nada».
Em tempos recentes de crise, na altura da pandemia de COVID-19, «tivemos de ir para o mar, para haver pescado. Agora, com esta situação, ninguém ajuda os pescadores, que estão todos com a corda ao pescoço», repete Jorge Gaspar, situação que diz também afetar o resto do Algarve.
Artes abandonadas no mar e lota sem pescado
Os pescadores da Fuzeta chamam ainda a atenção para os prejuízos nas artes que deitaram ao mar antes do agravamento do tempo e que até hoje, não foi possível, recolher.
Ricardo Vieira acrescenta: «Estão abandonadas, um monte de dinheiro. Quando voltarmos à faina, veremos os prejuízos e as perdas».
Com os barcos em terra, também a lota não tem polvo nem peixe para vender, o que deixa a AAPF, concessionária do espaço, sem receitas.
«Tal como os pescadores não ganham nada há semanas, nós também não», e até o cabaz FrescoMar, que estava a ser fornecido a cerca de 50 clientes por semana, parou de ser distribuído.
Assoreamento agravou-se
Mesmo quando o mar acalmar, «os problemas de segurança continuar», alerta Sónia Olim. A dragagem da Barra da Fuzeta e do canal de acesso à lota, agora quase bloqueado pela areia devido às tempestades recentes, encontrava-se, em dezembro, em análise no Tribunal de Contas.
«Aguardamos, da mesma maneira que já foi assinada a dragagem de Quarteira, esperamos pela adjudicação dos trabalhos aqui na Fuzeta. Irá acontecer. Era suposto ter começado em janeiro, mas ainda bem que não avançou, pois teria sido dinheiro jogado fora», ironiza.
Questionada sobre uma data para o início da intervenção que considera urgente, responde: «Ainda não sabemos. Sabemos que será feita a remoção de areias da barra, para preenchimento da praia e a dragagem de todo o canal de navegação, que está completamente assoreado».
Gustavo Viegas finaliza: «O que já estava mau vai ficar pior, como é o caso da barra de Tavira que está toda areada. Só temos uma pequena passagem rente às pedras para podermos entrar e sair».
O barlavento contactou a DGRM sobre a situação dos pagamentos da compensação salarial, que deverá corresponder a um período de paragem de 30 dias, proporcional à paragem do defeso da pesca do polvo e também sobre as dragagens, a realizar em conjunto com a Agência Portuguesa do Ambiente (APA), e aguarda resposta por parte daquela entidade.

