«Quando éramos só nós» é um livro de fotografia que mostra Olhão entre as décadas de 1970 a 1990 pela objetiva do fotógrafo local Luís Torres.
A apresentação está marcada para sexta-feira, dia 26 de abril, às 18h30, no Auditório Municipal de Olhão.
«Quando éramos só nós», publicado pela Câmara Municipal de Olhão, apresenta 164 fotografias a preto e branco, feitas em película entre 1976 e 1990, por Luís Torres, fotógrafo autodidata nascido em 1957, ainda hoje a viver em Olhão.
O livro, de formato quadrado em homenagem ao aglomerado cubista, apresenta ao longo de 160 páginas «um retrato quase antropológico dos olhanenses e de Olhão, centrado na década de 1980, abordando temas como a cidade e o seu jardim público, o mercado e as tabernas, as crianças, os barbeiros e os pescadores. A obra integra ainda duas séries não documentais, intituladas despertar e male body».
Nuno de Santos Loureiro, professor da Universidade do Algarve, coordenou a edição e é também o curador do corpo de trabalho fotográfico de Luís Torres. Davi Magalhães assina o design gráfico. A produção, bastante cuidada, esteve a cabo da Norprint – a casa do livro.
«Este é o meu contributo para aqueles que eu fotografei. Com este livro ofereço o meu legado para a história da cidade e dos olhanenses, retribuindo aquilo que eles me proporcionaram também de forma gratuita. Eles ofereceram‑me a possibilidade de ter o prazer de os fotografar livremente e agora eu dou-lhes este livro, com as minhas imagens, para que aqueles anos, aquelas pessoas e aqueles momentos de vida em sociedade, aquelas casas e aquelas ruas, nunca sejam esquecidos. É para isso que este livro serve: para dizer que nós fomos assim», descreve Luís Torres.
Na cerimónia de apresentação, «Quando éramos só nós» terá um preço de capa especial e a verba reverterá para o Celeiro de Amor, Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) fundada em 1982 para ajudar as classes mais carenciadas com alimentação.
A apresentação faz parte do programa de comemorações dos 50 anos do 25 de Abril de 1974 do município de Olhão.
Luís Torres, um retrato do fotógrafo
Olhanense puro e genuíno, nasceu a 9 de Janeiro de 1957. É casado e tem dois filhos. Originário de uma família de Olhão com poucos recursos, começou a trabalhar logo em criança, com 11 anos, num armazém de peixe localizado perto da casa de seus pais, que por necessidade era partilhada com mais duas famílias chegadas. Como continuava a frequentar a escola, pouco tempo lhe sobrava para as brincadeiras de criança e, depois, de rapaz.
Naquele tempo era normal trabalhar para ajudar os pais, e no mesmo armazém, para além dele, prestavam serviço o irmão Nemésio e um primo. Foi duro trabalhar dias seguidos, mesmo aos sábados e domingos, por vezes até à meia noite.
Hoje, «olhando para trás, percebo que aprendi muito e amadureci depressa. As dificuldades aguçam as capacidades e aqueles anos também foram uma escola de princípios para a vida, que ainda hoje estão em mim e me dão uma forma de olhar para o mundo muito própria e diferente da mais habitual», recorda.
Luís Torres queria ir para a marinha mercante e por isso concluiu o 7.º ano de escolaridade, indispensável para ingressar na Escola Náutica.
Mas o 25 de Abril de 1974 e a separação dos pais alteraram-lhe os planos de vida. Continuou em Olhão a trabalhar, até que nos anos de 1990 o armazém de peixe começou a esmorecer. Então, em 1995, abriu uma loja de bicicletas, a BiciSport, que se tornou uma referência no Algarve, e que acabou por encerrar em 2008, quando a explosão de grandes superfícies e de lojas de artigos de consumo multi-desportos tornaram o pequeno comércio especializado pouco rentável.
A fotografia chegou com a maioridade, quando Luís Torres completou os 18 nos, em 1975.
«Foi intencional, não foi por acaso. Quis aprender, comecei do zero, não sabia nada», aponta.
Em Olhão, naqueles anos, pouco existia relacionado com a fotografia. Luís Torres começou com uma câmara fotográfica plástica emprestada, de um tio, muito simples. Ia descobrindo por si mesmo, mandava revelar os rolos na Rua do Comércio, no Lopes e Farracha, que também lhe imprimia a preto e branco, em formato 10×15 cm, as imagens que escolhia.
A Olhão, retornados de Angola, tinham entretanto chegado os Côrte-Real, fotógrafos experientes, para montar um laboratório e para fotografar retratos tipo passe, bem como casamentos e batizados. Amigo dos filhos Côrte-Real, foi aprendendo a fotografar e também a revelar, ampliar e imprimir.
A esses ensinamentos juntou outros, de um curso de fotografia por correspondência, e quando, em 1980, se casou, comprou um apartamento e transformou uma das casas-de-banho no seu próprio laboratório fotográfico, comprando regularmente em Lisboa os materiais e reagentes necessários.
Pouco depois surgiu a hipótese de comprar uma câmara, uma Nikon F, com algumas lentes, e durante muitos anos essa foi a minha máquina fotográfica.
Aos fins de semana corria o Algarve e o Alentejo a fotografar, muitas vezes com um ou dois amigos. Confessa que conhecia pouco sobre a fotografia que se fazia então na Europa e no Mundo.
«Os fotógrafos que conhecia e me inspiravam eram aqueles que participavam nos concursos algarvios e nacionais, aqueles que tinham melhores resultados e muitas vezes ganhavam», eram sobretudo fotógrafos de jornais, ou seja, fotojornalistas.
Depois, conta, «marcaram-me os Encontros de Fotografia de Coimbra, que abriram horizontes. Diversos anos lá fui eu para Coimbra, com os mesmos amigos, beber aquela informação que nos era completamente nova. Fotógrafos americanos, fotógrafos europeus que não apareciam nas revistas que aqui conseguíamos comprar, como a francesa Photo. O confronto entre aquilo que para nós era interessante e a fotografia que víamos em Coimbra deixava marcas e levava-nos, levava-me a mim a pensar no que aqueles fotógrafos queriam transmitir com imagens que eram tão incomuns. Esse confronto com outros fotógrafos, com outras formas de olhar e fotografar o mundo, levaram‑me a interrogar-me se aquilo que estava a fazer era o mais interessante. Obrigaram-me a olhar para outras coisas e explorar outras formas de fotografar», conta.
Luís Torres descreve hoje a sua fotografia das décadas de 1970 a 1990 como muito assente no resultado do seu olhar para pessoas que lhe estavam próximas.
«Quis fotografar as pessoas da cidade que conhecia, que conseguia analisar e compreender. Era o que mais me interessava. Fotografar a minha terra, Olhão, e os olhanenses. Isso obrigou‑me a pensar sobre Olhão, a descobrir o que era interessante e merecia ser registado, congelado no tempo para mais tarde ser mostrado a quem queira conhecer o passado recente de Olhão e das suas gentes. Foi uma fotografia humanista, dos homens do mar, da faina marítima, das pessoas simples, do quotidiano popular desta cidade. É quase sempre uma fotografia sobre o contacto do Homem com o Mar, sobre a linha que separa a água da terra firme», revela.
«A câmara fotográfica é um meio que permite a cada um de nós expressar a sua visão estética do mundo. Um fotógrafo, em função dos seus conhecimentos técnicos, dos seus interesses e do seu olhar mais ou menos treinado e educado, aproveita a luz e o equipamento que tem para registar determinados momentos, em função daquilo que esteticamente lhe desperta a atenção e lhe dá prazer. Foi por isso que também olhei para a fotografia de forma criativa», acrescenta.
A taberna Barra Nova, que existiu em Olhão e já desapareceu na voragem do betão, proporcionou a Luís Torres, segundo conta, o expoente máximo da sua fotografia.
«O convívio que havia naquela taberna, e que procurei conhecer muito bem antes de começar a fotografá-lo, era extraordinário. Era um lugar de convivência entre homens que me despertava uma enorme vontade de registar e eternizar».
Nos dias de hoje Luís Torres continua a fotografar. Mas os tempos do analógico já ficaram quase totalmente para trás e a sua velhinha Nikon F, cuidadosamente guardada, foi ultrapassada por diversas máquinas fotográficas digitais. A prática digital proporciona outra fotografia e, consequentemente, este livro incide apenas sobre os anos da «gelatina e sais de prata».
Luís Torres tinha já participado no livro «Faina Marítima», editado em 2018 pelos Encontros de Fotografia de Lagoa e tem ainda uma série especial sobre a Culatra nos anos 1980 e outra sobre a procissão de Nossa Senhora dos Navegantes publicadas no jornal barlavento.








