O festival Arte Larga apresentou uma série limitada de 12 fotografias inéditas, em formato postal, de Luís Torres, fotógrafo de Olhão.
Depois do sucesso do livro «Quando Éramos Só Nós», lançado em abril, e que continua a cativar o interesse dos olhanenses, o fotógrafo Luís Torres apresentou agora uma série limitada de 12 postais com fotografias inéditas do seu vasto espólio, que remontam aos anos 1980 e 1990.
Esta coleção contou com a curadoria e edição final de Nuno de Santos Loureiro, docente da Universidade do Algarve e investigador da fotografia, cujo trabalho foi fundamental na edição do livro.
Os postais foram apresentados na tarde de sábado, 2 de novembro, no Auditório Municipal de Olhão, perante uma plateia cheia, no âmbito do festival Arte Larga.
«Continuamos na mesma linha da simplicidade, com imagens diferentes», explicou Luís Torres aos presentes.
Uma das imagem em destaque durante a apresentação mostra um pescador de roda do farnel – pão e peixe frito – de canivete na mão, meias grossas e sandálias de plástico, junto aos mercados, sentado nas artes de pesca, a contemplar uma Ria Formosa cheia de embarcações de pesca fundeadas, onde hoje existe marina de recreio.
Luís Torres contou que tentou várias vezes fazer a imagem perfeita. «Costuma-se dizer que a fotografia tem muito de caçador, de caçar a imagem, mas não. Esperei por aquele momento. Passei por ali vários dias. Em fotografia temos de pensar, pensar, e depois ir à procura do melhor enquadramento possível, para sair daquilo que queríamos. Dediquei muito tempo aos homens do mar, não só à atividade própria da faina, mas também ao que faziam em terra».
Nuno de Santos Loureiro acrescentou: «a riqueza de informação desta imagem vale a pena ser tomada em atenção. Nós, num primeiro olhar, se calhar focamos a figura humana. Há o pescador que está em primeiro plano e alguém mais ao fundo, a espreitar. O que nos suscita uma relação mais distante, mais de curiosidade entre o fotógrafo e o fotografado, além de todo um contexto enorme, fantástico», com as motorizadas, as carrinhas de trabalho, a calçada de pedra grosseira, e as «sacadas» para a pesca de cerco e os «candeeiros de ferro fundido, que eram tão característicos destes arruamentos». Mas também remete para um tempo de pobreza, que muitos dos presentes ainda recordam, e de repressão. Torres recordou ir à pesca com o pai à noite e ter evitar a Guarda Fiscal, que apreendia o pescado cujo destino era a mesa de muitas famílias olhanenses.
«Registei todos estas imagens com alguma sensibilidade, sem uma estrutura de pensamento científico em relação à fotografia, mas com o cuidado de recolher aquilo que era autêntico, aquilo que era nosso, que nos identificava», explicou.
Ali próximo, Torres captou outra imagem marcante da série que mostra um barbeiro, cujo estabelecimento ficava no Mercado, de frente para a ria, onde hoje se estendem cafés e esplanadas. «Ele vinha de fora e guardava a sua motorizada MACAL no interior da barbearia para ninguém a roubasse. Eram esses pormenores que me chamavam a atenção».
Outra imagem mostra as obras lamacentas na Rua do Pinheiro quando começaram os trabalhos de instalação da rede de saneamento, e que marca o início da transformação da cidade. Coincide com o advento do azulejo nas fachadas, um isolamento simples, mas que, segundo o fotógrafo, manifestava um certo «novo-riquismo».
Em contraponto, fixou a objetiva no pormenor de uma rua junto ao Bairro da Barreta. «Junto à porta do número 34, vemos as botas de cano alto, já cortadas pelo uso, e a gaiola de um canário a apanhar sol. Mostra bem a essência do lugar. Aquela zona mais antiga é como um labirinto de ruas que faz lembrar Marrocos», comparou.
Torres lamentou «não ter fotografado mais naquela altura. Fotografei muito, mas devia ter fotografado mais porque tudo vai desaparecendo. Cheguei à conclusão de que este foi o único tempo em que passámos de ser um país de pescadores e de ruralidade para passarmos a ser um país europeu», descreveu.
«Tivemos muitas alterações, de uma forma bastante rápida, e esta simplicidade vai desaparecendo. Estes lugares da nossa cidade vão desaparecendo. Portanto, tanto o livro, como os postais, são memória», como ilustra bem um postal do «Eduardinho», a exibir as morjonas a bombordo ao sabor da marés. Hoje já não vai ao mar, mas pesca olhares junto ao Auditório Municipal, onde está exposto.
A serie de postais mostra ainda um «encontro inevitável» com a fotografia do autor, em modo de autorretrato.
No final, Luís Torres agradeceu a João Evaristo, vereador da Câmara Municipal de Olhão, pela «confiança e pela oportunidade» de tornar público o seu trabalho fotográfico da cidade.
Ao barlavento, Nuno de Santos Loureiro revelou que está a trabalhar num novo livro com uma «incrível coleção» de imagens que Luís Torres fez no núcleo piscatório da Culatra, numa época em que nenhum fotógrafo se aventurava (ou se interessava) por aquela comunidade.

O Arte Larga – Ao encontro dos autores, da literatura, das artes visuais e performativas, continua até dia 17 de novembro. O programa completo pode ser lido aqui.

