Apresentação do livro de fotografia «Quando éramos só nós», de Luís Torres, no Auditório Municipal de Olhão teve casa cheia de pessoas, memórias e emoções.
Já se esperava que a obra atraísse a atenção, e muitos foram os olhanenses, alguns dos quais fotografados por Luís Torres há 40 anos, quando eram crianças, que encheram a sessão de apresentação do livro «Quando éramos só nós», ao final da tarde de sexta-feira, dia 26 de abril.
Nuno de Santos Loureiro, curador do livro, esperou pela ocasião para fazer uma confidência, referindo-se a «Lisboa, Cidade Triste e Alegre», o mais importante livro de fotografia do século XX em Portugal, de autoria da dupla de arquitetos Victor Palla (1922-2006) e Costa Martins (1922-1996).
«Quando comecei a trabalhar a sério na coleção do Luís, surgiu-me um nome atrevido, descarado, desavergonhado: Olhão, vila triste e alegre», revelou.
No entanto, «numa conversa de café, falámos sobre o título do livro e ele sugeriu: Quando éramos só nós. Achei ótimo, excelente. É sincero e sensato. É verdadeiro e por isso guardei o nome que eu tinha escolhido apenas o revelar no dia da sua apresentação», disse.
No entanto, apesar do nome rejeitado, «não quer dizer que não haja imensas semelhanças» entre o célebre livro lisboeta e o novo livro olhanense.

«A naturalidade, a espontaneidade, a verdade fotográfica, a falta de formalismo que ele tem, tornam-no um documento de excelência da fotografia portuguesa», considerou Nuno Loureiro.
Loureiro considerou que há duas formas de encarar «Quando éramos só nós».
A primeira é biográfica: «nós a vermo-nos a nós mesmos», «pessoas simples, fotografadas por uma pessoa simples».
A segunda abordagem é mais académica. «Temos imensas coisas sobre o Algarve no século XVI, XVI e XVII. Temos muito pouco sobre o Algarve do século XX. Os documentos históricos que estão disponíveis sobre o Algarve recente são escassíssimos. Fazer investigação sobre a história recente do Algarve é uma tarefa difícil. Este livro, numa ótica de investigação, de fazer história, é um excelente documento sobre a identidade e o viver dos algarvios» dos anos 1970 e 1980.
«Há coisas pontuais sobre Portimão, Aljezur e Tavira. E a partir de hoje temos um documento de referência histórica sobre Olhão».
Loureiro evocou também obras como «O Algarve» de Artur Pastor, de 1965, uma edição de autor «que foi tão maltratada que, para o vender, o autor teve de enviar toda a tiragem para o Brasil».
Outra referência é o «Algarve63» de Tim Motion, fotógrafo irlandês que viveu na Praia de Carvoeiro entre 1962 e 1975, um período em que também se dedicou à fotografia de rua, um pouco por toda a região.
«Curiosamente, foi-se embora no ano em que o Luís Torres começou a fotografar», comparou.
Por outro lado, no presente, a data escolhida para a apresentação da obra também não foi um acaso.
«O livro começou a ser fotografado logo a seguir ao 25 de Abril de 1974 e embora não tenha imagens da revolução», o fim do regime «abriu-nos o mundo da grande fotografia europeia e americana. Esta obra é um reflexo disso. Um exemplo da abertura dos fotógrafos portugueses à contemporaneidade, ao fim da fotografia formal e protocolar».

O curador, que também é professor na Universidade do Algarve, elogiou Luís Torres que, apesar de autodidata, «teve dois méritos adicionais. O primeiro foi impor sempre um padrão de qualidade enorme» que ainda hoje mantém.
«Começamos esta aventura em 2018. Ele sempre me disse: pode demorar semanas, meses, anos, mas se o livro sair, tem de sair excelente. Senão, não sai. Isso é um mérito enorme. É ter calma e exigir qualidade», vincou Nuno Loureiro.
«A partir deste momento, este livro já não é nosso. É de todos. É de Olhão. É do Algarve, de Portugal, da Europa e do Mundo. Acarinhem-no, como nós acarinhamos até agora», concluiu.
Um «obrigado» maior que Olhão
Emocionado, com a esposa ao lado, o filho e muitos amigos na plateia, Luís Torres, no uso da palavra, abriu o coração à cidade.
«Aquilo que queria fotografar eram as pessoas na sua vida, sem interferir em nada, sem que elas alterassem o seu comportamento. Isso foi muito importante e continuo a olhar para a fotografia, a minha, com essa intenção», explicou.
Torres considera que o livro é «uma homenagem às pessoas simples de Olhão, foram todas essas que eu quis fotografar. Tenho aqui hoje comigo duas meninas que fazem parte de um grupo de crianças que estavam a brincar, a tomar banho dentro de um tanque, todos juntos no verão», naquela que é uma das suas imagens favoritas.
«As pessoas que eu tinha fotografado, o que é que lhes aconteceu nestes 40 anos que passaram? Algumas estão cá, outras não, outras estão em situações difíceis. Mas a vida é assim. Nós, todos aqueles que registam um momento, por um momento, paramos o tempo. Mas ele, para cada um de nós, não para, continua a andar».
«Quero agradecer do fundo do coração a quem fotografei. Agradecer a toda a minha família que é fundamental para que nós vamos fazendo o nosso trabalho de uma forma continuada, sem sobressaltos e sem nos preocuparmos com as coisas que vão acontecer. Costumo dizer que a Paula (Torres) é a pessoa mais importante da minha vida. E tudo começou faz 48 anos. Quando decidi aprender fotografia, não sabia que ia chegar até hoje e publicar um livro de imagens minhas, com as pessoas da minha cidade», reforçou.
Em relação ao processo de trabalho, o autor contou que não foi tarefa fácil.
«O Nuno Loureiro teve paciência para olhar às cerca de 17 mil imagens, a preto e branco, de negativo. Chegámos a uma seleção de 1000. Nas primeiras vezes. foi muito difícil, pois não estava a sair como eu queria. Aos poucos fomos boleando as arestas, conversando e o resultado está aqui».
A escolha das imagens «foi de inteira responsabilidade dele. Algumas eu trocava, mas foi assim que ele escolheu e foi assim que eu aceitei. Não pus nenhum entrave, não fiz críticas ou observação à escolha», sublinhou.
Por outro lado, garantiu que a Câmara Municipal de Olhão, na qualidade de editor, nunca «interferiu» em qualquer aspeto da produção do livro.
Município abraçou o projeto «de imediato»
Vereador e um dos principais impulsionadores da publicação de «Quando éramos só nós», João Evaristo, disse aos presentes que «este livro foi de imediato abraçado pelo município».
Um projeto «complexo que demorou algum tempo a produzir. Tivemos uma pandemia pelo meio, mas não podíamos deixar de o fazer».
O responsável autárquico expressou «acima de tudo gratidão, que o Luís Torres tenha feito este bem feito este trabalho ao longo dos anos. E continua ativo na área da fotografia. De forma voluntariosa, continua a passar o seu conhecimento aos mais novos na Casa da Juventude de Olhão, seja fazendo passeios fotográficos, sensibilizando para a fotografia, ensinando técnicas e até a revelação analógica».
Para João Evaristo, o livro é «uma homenagem aos homens e mulheres que fizeram Olhão, que vieram de meio humilde. Tudo o que temos foi conquistado com muito suor, com muito trabalho. Quando se fala na alma olhanense, fala-se daquilo que é a nossa história, a nossa identidade e a nossa forma de ser, de estar e de conquistar que tanto nos identifica. O Luís Torres conseguiu retratar isso neste livro. Hoje somos uma cidade evoluída, moderna. Não queremos voltar ao que foi a labuta dura do povo olhanense, mas nunca esquecemos de onde vimos é muito importante. E isso queremos perpetuar», rematou.
Luís Torres tinha já participado no livro «Faina Marítima», editado em 2018 pelos Encontros de Fotografia de Lagoa e tem ainda uma série especial sobre a Culatra nos anos 1980 e outra sobre a procissão de Nossa Senhora dos Navegantes publicadas no jornal barlavento.


