O desamparo, o risco de vida no mar durante a travessia, o que os espera no futuro… pouco ou nada importa ao senhor ministro Leitão Amaro.
Leio as notícias sobre os 38 migrantes, 25 homens, seis mulheres e sete crianças, que desembarcaram na praia da Boca do Rio, e fixo-me nas palavras do ministro Amaro perante esta ocorrência dramática.
Passo a citar: «as autoridades portuguesas funcionaram, a senhora ministra da Administração Interna, a Ministra da Defesa e eu próprio temos estado desde ontem em contacto permanente com as autoridades. Eu queria destacar aqui o trabalho da GNR, da Polícia Marítima, da Autoridade Marítima Nacional e da Marinha, da AIMA, do INEM, do município de Vila do Bispo e da Proteção Civil, todos em conjunto pudemos dar, até o momento, o tratamento mais rápido e mais eficaz».
Muito bem, senhor ministro, o elogio à rápida eficácia das autoridades e meios mobilizados é normal e assenta-lhe bem, já a total ausência de uma palavra que fosse ou um gesto de atenção em relação à condição humana dramática destas pessoas não revela da sua parte um pingo de humanidade.
Ou seja, o desamparo, o risco de vida no mar durante a travessia, o que os espera no futuro… pouco ou nada importa ao senhor ministro Leitão Amaro.
Acrescentando prontamente, orgulhoso, que «os tribunais que decidiram rapidamente e concluíram pela ordem de afastamento do território nacional. E é isso que vai acontecer». Em linguagem mais expressiva, vão ser recambiados para Marrocos.
Caro concidadão Amaro, não sei se alguma vez esteve em Marrocos, esse país aqui tão próximo com o qual já partilhámos tanta História, e observou o imenso número de jovens que pululam pelas ruas, sem ocupação, sem emprego, num país que não lhes dá futuro.
O seu horizonte está no lado de cá.
Possivelmente sabe, são dados demográficos, que em Marrocos e em todo o Magrebe a faixa etária com mais população será a que abarca os jovens entre os 20 – 35 anos. Enquanto nós, em Portugal, temos uma população envelhecida.
Relembro, como professor, ao falar do envelhecimento da população, de uma Europa de cabelos brancos, da baixa taxa de natalidade, de uma aluna marroquina dizer-me que da pequena cidade de onde veio todos os dias nasce um bebé.
Eu sei, senhor ministro, são problemas que não nos dizem respeito, não podemos resolver. Estou apenas a enquadrar a situação.
E o que dizer da sua afirmação: «… importante os portugueses sentirem e perceberem é isto: Portugal tem uma costa grande, apesar de estarmos vulneráveis, as autoridades portuguesas reagiram, depressa e de forma eficaz».
Vulneráveis?!… as autoridades portuguesas reagiram?!…Leio nas entrelinhas: está a insinuar que estamos vulneráveis perante um desamparado grupo de imigrantes ilegais?…
Olho para o rosto ingénuo e sorridente destes jovens e não vejo qualquer ameaça. Ao falar assim até parece que se está a referir a um qualquer desembarque de droga e detenção de traficantes.
Felizmente, não me revejo nos portugueses de que fala, sou mais aquele tipo de português que gostaria de ver da sua parte uma atitude tipo papa Francisco, de compreensão e aceitação do outro.
Contudo, compreendo que a frieza da sua postura e a política de desamparo do seu governo corresponde a um crescente sentimento nacional de rejeição à imigração.
Mas o senhor como governante depressa passará a uma insignificância na progressão da humanidade, enquanto estes pobres marroquinos, apesar do triste destino que os espera, terão para contar aos seus filhos e netos a inesquecível e corajosa aventura marítima que viveram dando à costa numa bonita praia de um país chamado Portugal.
Paulo Penisga | Professor