O espelho de água da Fonte da Seiceira, inaugurado em 2016 no Ameixial, é apontado pela Terracrua Design como exemplo local de adaptação ao calor.
Enquanto Portugal enfrenta novos episódios de calor extremo e a Organização Mundial da Saúde alerta para o aumento dos riscos para a saúde pública, uma pequena aldeia da Serra do Caldeirão demonstra que existem soluções simples, acessíveis e eficazes para adaptar o território às temperaturas cada vez mais elevadas.
No Ameixial, interior do concelho de Loulé, o combate ao calor extremo começou muito antes de o tema entrar na agenda mediática nacional.
Em 2016 foi inaugurado o espelho de água da Fonte da Seiceira, uma intervenção pública que representou um investimento de cerca de 50 mil euros e que hoje funciona como um verdadeiro refúgio climático para residentes e visitantes.
Num território marcado por temperaturas elevadas durante o verão, a combinação de água, sombra, vegetação e espaço público de qualidade criou uma zona naturalmente mais fresca e confortável, capaz de atrair diariamente dezenas de pessoas em busca de alívio ao calor.
História começa muito antes da obra
Em 2014, foi realizado no Ameixial um processo participativo de diagnóstico territorial no âmbito de uma formação em planeamento regenerativo promovido pela Terracrua Design e identificou a valorização da nascente como uma das prioridades da população local.
A Fonte da Seiceira, conhecida há gerações pela qualidade da sua água, surgiu como um dos locais com maior potencial para criar um espaço de encontro e lazer para a comunidade.
Poucos meses depois, através do Orçamento Participativo do município de Loulé, a população escolheu precisamente esse investimento, que viria a transformar uma área subutilizada num dos espaços públicos mais relevantes da freguesia.
Resposta local para um desafio global
As chamadas «ilhas de calor» são hoje um dos principais problemas das cidades, vilas e aldeias do sul da Europa. Quando o solo fica exposto ao sol direto e desaparecem a vegetação, a sombra e a água, as temperaturas à superfície podem atingir valores muito superiores à temperatura do ar. O resultado é um aumento dos riscos para a saúde, sobretudo entre idosos, crianças e pessoas vulneráveis.
A experiência do Ameixial mostra que a adaptação climática não depende apenas de grandes infraestruturas ou de investimentos milionários. Em muitos casos, recuperar uma nascente, valorizar uma linha de água, plantar árvores e criar espaços públicos de permanência pode gerar benefícios sociais, ambientais e económicos muito superiores ao investimento realizado.
Saúde pública, coesão social e turismo
Hoje, o espelho de água da Seiceira é utilizado durante todo o verão por habitantes da região e por visitantes que procuram alternativas às praias sobrelotadas do litoral algarvio.
O espaço integra zona verde, área de estadia, apoio de restauração e equipamentos de utilização pública, tornando-se um ponto de encontro para diferentes gerações.
Além dos benefícios diretos para a qualidade de vida da população local, o espaço tornou-se também um ativo turístico relevante para o interior algarvio. Em 2026 ganhou destaque em diversos conteúdos digitais dedicados a destinos de verão e passou a ser frequentemente apontado como uma das alternativas mais interessantes para quem procura água doce, tranquilidade e contacto com a natureza.
Modelo replicável para o Sul de Portugal
Perante a crescente frequência de ondas de calor, especialistas em planeamento territorial defendem que experiências como a do Ameixial devem deixar de ser vistas como exceções e passar a integrar estratégias municipais de adaptação climática.
A criação de uma rede de pequenos refúgios climáticos — combinando água, sombra, biodiversidade e espaço público de qualidade — pode representar uma das formas mais económicas e eficazes de aumentar a resiliência das comunidades rurais perante as alterações climáticas.
Nas palavras de Nuno Mamede Santos, fundador e diretor técnico da Terracrua Design, «o Ameixial é uma história bonita no nosso portfólio. Ainda hoje visito a piscina e sinto um enorme orgulho neste processo onde dei ferramentas e lancei sementes para que os formandos do curso e a população local trabalhassem em conjunto. Dessa interação resultou uma solução barata e duradoura que hoje reúne crianças, jovens, adultos e idosos, permite o convívio e o descanso ao mesmo tempo que proporciona uma sensação de frescura no meio do verão algarvio. É um oásis no meio do deserto, e a demonstração de como a adaptação climática é mais simples do que parece. Cada aldeia merece uma solução igual, pois melhora a qualidade de vida, traz visitantes e dinamiza a sociedade e economia locais».
Num momento em que se discutem soluções para proteger a população dos efeitos do calor extremo, o Ameixial oferece um exemplo concreto de como uma intervenção simples, baseada nos recursos locais e escolhida pela própria comunidade, continua a gerar benefícios uma década depois.
Porque, por vezes, a melhor resposta às alterações climáticas não é uma grande obra de engenharia. É uma árvore, uma nascente recuperada e um lugar onde as pessoas conseguem voltar a respirar durante os dias mais quentes do ano.
A Terracrua Design é uma consultora especializada em agricultura regenerativa, com mais de 20 anos de trabalho de análise, planeamento e implementação. Com mais de 369 propriedades no seu currículo, o seu trabalho já se extende por mais de 400 mil hectares em três continentes (Europa, África e América do Norte).
O case study pode ser lido aqui.

