É um festival promovido em moldes diferentes do habitual. Não será uma simples feira, mas um certame que reúne ideias, projetos e histórias à volta do medronho. Rui André, presidente da Câmara Municipal de Monchique, quer dar um renovado impulso a um nicho de mercado, após o crescimento da qualidade de um dos mais conhecidos e apreciados produtos deste concelho serrano do Barlavento algarvio.
O Festival do Medronho a solo, tem estreia marcada para 6 a 8 de novembro, num espaço provisório a instalar na zona do Heliporto. Será um espaço feito à medida para este evento, com um conceito pouco usual naquela vila, que abre caminho para o futuro do medronho e seus derivados.
Por esta razão, como avança ao «barlavento» Rui André, o edil quer aproveitar a oportunidade para «avançar com uma proposta, não de uma marca chapéu, mas um nome, logótipo ou selo, que possa ser aplicado nos rótulos da aguardente de Monchique, à semelhança do que já e feito nos vinhos» nacionais das várias regiões. Algo que possa ser adicionado ao rótulo, e que não implique um novo design imediato dos que já existem. Pelo menos, para já. «No futuro, cada vez que forem feitos rótulos novos, podem acrescentar esse elemento. Será uma distinção e um fator de uniformização», esclarece.
Ao longo dos últimos anos, o concelho teve um forte crescimento deste setor, com a legalização das destilarias, antes criticadas por não terem condições.
Hoje aliam tradição a parâmetros de qualidade. No entanto, de repente, o processo mergulhou «numa dormência», refere Rui André. É necessário dar novo impulso e preparar um outro caminho. «Este festival terá que servir para a discussão, para reuniões de trabalho com os produtores, associações, pessoas envolvidas, universidades, Direção Regional de Agricultura ou outras entidades», justifica.
Em 2012, o autarca juntou o medronho ao presunto, num certame único, para experimentar e verificar a aceitação. Concluiu que não resulta, quer pelo perfil, quer pela altura do ano. A dimensão da produção de medronho no concelho tem um nível elevado, justificando um evento dedicado, a solo. Os últimos dados indicam a existência de 80 destilarias legalizadas e 60 marcas no mercado, entre aguardente de medronho, melosa e licor de limão. É por esta razão que Rui André reafirma que «é altura de assumir a importância desta atividade e dar-lhe um destaque maior». Havia duas hipóteses na escolha da data. Ou seria durante a apanha do fruto, ou na época de destilação. A data provável, entre 6 a 8 de novembro, dá a oportunidade de envolver a Associação de Produtores de Aguardente do Barlavento Algarvio e a Confraria do Medronho, ambas com sede em Monchique.
O programa ainda não está fechado, mas Rui André já levantou a ponta do véu ao «barlavento». «Terá um espaço de exposição dos produtores, que não será aquela tenda de 3 por 3 metros», pois não é atrativa, sustenta. Os produtores sabem pegar na garrafa e vender o medronho, que é bom, mas temos que cuidar do conceito. Por isso, será usado um formato mais semelhante às feiras de vinho.
A história não ficará esquecida, estando em destaque a evolução do engarrafamento da aguardente de medronho. «Tenho vários exemplares desde os anos 1960, e algumas anteriores», adianta, acrescentando que pode ser um fator de curiosidade para os visitantes.
A ideia que está na calha é a promoção de um concurso, que motive os empresários a trabalhar durante o ano na procura do lugar de melhor aguardente. «Será um desafio, porque, em Portugal, não há ninguém especializado na aguardente de medronho. Terá que ser um misto entre o amador e o gosto pessoal», num molde idêntico ao das aguardentes vinicas.
Convidar um país, onde se produza uma aguardente, será outra das ideias a avançar. Para a estreia Rui André já contactou Cabo Verde, pois Monchique tem uma geminação com Santo Antão (Ribeira Grande) e, nesse local, é produzido o grogue, a aguardente de cana-de-açúcar. Outra hipótese nas próximas edições podem ser Holanda, com genever, ou a Itália, com a grapa. Para já, esta localidade de Cabo Verde é também a opção para a estreia por ter a particularidade de usar um alambique igual ao que se usa em Monchique.
E o acessório para destilar a aguardente assumirá um lugar de relevo, pois o edil quer tentar organizar uma mostra de alambiques do mundo, explicando a diferença entre o de tubo direto e o de serpentina.
Em Monchique é usado o direto, sendo um fator que diferencia o resultado final após a destilação. «A serpentina é mais propícia a criar zinabre [camada esverdeada que se forma em superfícies de latão ou cobre]. Se analisarmos as aguardentes produzidas nos dois alambiques, têm níveis de metanol diferentes», evidencia Rui André. Há ainda outros fatores que influenciam a qualidade do fruto, antes da transformação, como a terra, a água, os ventos.
«Teremos especialistas com experiência para trazer know how e gerar discussão à volta do evento, para não ser só uma feira, mas ter conteúdo», sublinha. Ainda assim, como se esperam muitos visitantes, haverá espaço para a venda de produtos, para animação musical mais erudita e restauração e um roteiro de destilarias e produtores. «Estou a pensar comprar produtos locais e convidar o curso de bar da EB 2+3 para estar nesse espaço, que será a Câmara a dinamizar», conclui. O programa fechado deverá ser anunciado no próximo mês de outubro.
Depois da certificação IGP será a vez do DOP
A alavanca para dinamizar a economia em torno do medronho passará, na visão de Rui André, presidente da Câmara de Monchique, pela obtenção da certificação de produto com Indicação Geográfica Protegida (IGP). «O trabalho da Associação de Produtores de Medronho do Barlavento permitir-nos-á dizer que o nosso Medronho de Monchique é diferente dos outros», justifica.
A Câmara não se envolveu nesse processo, que gerou alguma polémica. No início, incluía parte de freguesias alentejanas. Essa situação foi esclarecida, ultrapassada e alterada, estando agora a associação à espera da decisão sobre o IGP. No entanto, Rui André já está a pensar na etapa seguinte. «Monchique tem um desafio, porque é o sítio do medronho mais reconhecido, tanto pela qualidade, como pelos processos utilizados», começa por explicar ao «barlavento». Há que tentar elevar ao patamar seguinte, com o início dos trabalhos para obter a Denominação de Origem Protegida (DOP) na aguardente.
«Obrigará a um trabalho maior, porque a regulamentação para obter o DOP é mais apertada, e a que, além de transformadores, os empresários sejam também produtores de medronhal», argumenta. Na calha pode até estar a reconversão de eucaliptal em medronhal.
Isto porque, Monchique pode não conseguir competir na quantidade, com algumas produções que aparecem no país, mas consegue marcar pontos na qualidade.
Ainda assim, Rui André alerta que, utilizando como comparação o mel DOP, se as certificações não forem bem usadas e exploradas de pouco servem. «Nós temos um produto que é DOP, mas, neste momento, os produtores de mel preferem vendê-lo em grandes quantidades para as unidades transformadoras ou exportação», em vez de colocar no mercado pequenos frascos, diz.
Loja do Mel e Medronho foi projeto âncora de sucesso
O sucesso da Loja do Mel e do Medronho, no centro de Monchique, tem sido tão acentuado que poderá ter que ser aumentada. «Está a correr bem. Agora só tem que ser ampliado, porque já começa a ser pequeno» para tantas visitas, conta Rui André, presidente da Câmara Municipal de Monchique.
O estabelecimento comercial é uma aposta âncora na promoção e venda destes produtos tradicionais, pois nasceu a partir de um protocolo entre a autarquia e as associações de produtores dos dois produtos. É um local que tem estreitado contactos, aumentado a divulgação e servido para escoar stock para outros espaços de venda. Quando abriu portas, em cada dia, havia um produtor encarregado de gerir o espaço e a sua marca tinha um desconto de dez por cento. Com o aumento de turistas, a língua começou a ser uma barreira. «Perguntavam como se fazia e o produtor não dominava bem o alemão ou o inglês», explica o autarca. Assim, a associação, em vez do desconto, pediu uma pequena parte do valor das vendas para suportar uma funcionária, tendo já criado um posto de trabalho.
Há bons contactos para avançar com Casa do Medronho
O projeto da criação da Casa do Medronho, em Monchique, tem estado há espera de uma oportunidade para avançar. E não deverá demorar muito para que se realize.
«É um projeto que temos na Câmara há algum tempo, mas agora há bons contactos para se concretizar a curto prazo», garante ao «barlavento» Rui André, presidente da Câmara Municipal de Monchique. A dificuldade de obter um espaço na vila tem travado o arranque do projeto, que pretende ser um verdadeiro museu.
A intenção é, por um lado, contar a história do fruto, desde a apanha até à destilação, que dá forma à famosa aguardente. Por outro lado, evidenciar a importância deste setor para a cultura e economia do concelho. Por esta razão, as entidades ligadas ao medronho devem ser chamadas a abraçar este projeto, como é o caso da Confraria. «Além da aposta na divulgação, que têm feito, penso que, no futuro, deveriam envolver-se nestas ações concertadas com o município e a associação de produtores. Podem interagir nos concursos, nas provas», garante Rui André. A verdade é que não faltam ideias para dar atratividade ao local.
Uma delas é colocar na Casa do Medronho «um alambique de vidro que permita observar in loco o processo de destilação. Ou seja, como se põe a fruta e sai a aguardente. Terá uma vertente pedagógica», salienta.
Tradição faz mexer economia local
O concelho serrano de Monchique é rico em transformar atividades familiares e tradicionais em negócios de sucesso. Um exemplo dado pelo edil da Câmara Rui André é «a matança do porco», que motivou a instalação de «fábricas de enchidos com uma faturação muito considerável, criando riqueza, emprego e dinâmica». Mas na lista de produtos cabem ainda o mel, com uma produção anual de 300 toneladas, «a exportação de sienito para o mundo inteiro», e a saída de «40 a 50 camiões, com 60 toneladas de madeira, por dia», enumerou. E o medronho não fica atrás, pois é um produto com boa aceitação de mercado e boas vendas.