Afinal a abstenção foi maior do que há quatro anos atrás. Há muito a dizer sobre os abstencionistas portugueses. E não são coisas boas.
Para além da importância óbvia das eleições políticas para aquilo que é a definição da forma como a Assembleia da República se compõe, as eleições são também óptimas alturas para o povo português fazer acusações insultuosas sobre a saúde mental dessa gente que dá pelo nome de… portugueses. Permitam-me portanto que faça a minha também.
Uma das coisas que mais se ouve dizer em relação à abstenção é que os portugueses estão desiludidos com a política e com os políticos. Este argumento é logo à partida muito duvidoso, na medida em que não é possível que alguém se desiluda com algo que não conhece.
Ainda assim, os meios de comunicação conservadores (que são todos) são sempre muito céleres em reproduzir esse argumento. Não se pense no entanto que estes o façam de forma inconscientemente – este comportamento nada tem de ingénuo, pois apenas serve para manter o nevoeiro sobre um assunto que em última análise beneficia a manutenção do estado de coisas, passando a falsa ideia de que o povo é melhor do que a classe política que o governa.
Ora, se quisermos ser realmente justos para com o povo e para com os políticos, devemos começar por reconhecer que isso não é verdade. E se dúvidas há sobre isso, basta ver o que se passou com a questão dos refugiados sírios, cujas alarvidades disseminadas nas redes sociais, não encontraram paralelo no meio partidário português. Bom, não é bem verdade. O PNR reproduziu muitas dessas alarvidades, mas também é certo que o PNR está mais próximo de um número de circo do que propriamente de um partido político.
Voltando ao tema. O argumento da descrença nos políticos, frequentemente debitado a par com o argumento de que estes são todos iguais, é regra geral, proclamado por quem está mais alheado da política e não passa de uma desculpa esfarrapada para a própria falta de interesse. Dizer-se que se é contra os políticos e contra a política, fica bem, não compromete e é bem mais fácil do que ter uma verdadeira opinião.
O problema é que esta atitude não resolve nada, muito antes pelo contrário. Se pensarmos bem, há qualquer coisa de muito estranho nas pessoas que não votam e que é o facto destas acharem que as decisões políticas não as afectam, ou que afectando, arranjam sempre maneira de se safar. Um biscate aqui, menos um recibo ali e a coisa compõe-se. No fundo, o abstencionista é aquela pessoa que sentindo um ladrão a assaltar a sua casa, se esconde debaixo da cama à espera que ele se vá embora. Com uma diferença – o abstencionista tem tanto medo de fazer alguma coisa, que é bem capaz de passar uma vida inteira à espera. Pode-se até dar o caso do ladrão ocupar permanentemente a sua casa e ele nada fazer. Pelo menos foi o que aconteceu com Portugal.
Outro facto curioso sobre o abstencionista é o facto deste ser um romântico incorrigível. Não há no mundo quem tenha uma visão tão trágica e fatídica da vida como o abstencionista português. Prova disso, é o facto do abstencionista não acreditar em melhorias, mas aceitar com a maior das naturalidades o facto de o país estar a piorar a olhos vistos desde há alguns anos a esta parte. Parece que mudar para melhor é impossível, mas para pior já é a coisa mais natural do mundo.
Mas nem tudo são más notícias. Eu por exemplo estou em crer que o tempo dos abstencionistas está prestes a chegar ao fim. É que depois de ter andado a fazer campanha pelo meu partido nestas legislativas acho que encontrei uma solução genial para acabar de vez com a abstenção em Portugal. E que simples que é! Basta oferecer uma caneta ou um isqueiro a cada eleitor durante o acto eleitoral. Tendo em conta o apreço que a população portuguesa tem por este tipo de merchandising, acho que não corremos o risco de alguém deixar de votar nas próximas eleições.
Opinião de Tiago Grosso | Técnico superior de turismo e militante do Bloco de Esquerda (BE)