Durante décadas, a principal vantagem competitiva do Sul de Portugal foi o sol. Hoje, paradoxalmente, o excesso de sol começa a tornar-se um desafio.
As temperaturas extremas que se fazem sentir todos os verões estão a mudar a forma como as pessoas escolhem os seus destinos, organizam os seus passeios e vivem o território. Quem visita o Alentejo ou o Algarve continua a procurar paisagem, autenticidade, património e tranquilidade, mas procura também algo cada vez mais valioso: conforto climático.
Por outras palavras, procura água e sombra.
Basta observar o comportamento das pessoas durante um dia quente de agosto. Os locais mais procurados não são necessariamente os mais sofisticados nem os mais caros. São frequentemente aqueles onde existe uma árvore madura, uma fonte, um curso de água, um jardim fresco ou um pequeno espaço onde seja possível escapar ao calor durante algumas horas.
O conforto climático está a tornar-se um activo territorial. E muitos municípios ainda não perceberam o valor que possuem.
Por todo o Sul do país existem fontes abandonadas, açudes esquecidos, pegos naturais, parques de merendas pouco valorizados, lavadouros históricos e pequenas linhas de água que durante gerações foram pontos centrais da vida comunitária. Em muitos casos, estes locais perderam importância à medida que os hábitos mudaram. No entanto, as alterações climáticas estão a devolver-lhes relevância.
Aquilo que ontem parecia apenas património local pode tornar-se amanhã uma infraestrutura estratégica de adaptação climática e valorização turística.
O exemplo mais evidente encontra-se frequentemente nas pequenas aldeias. Locais que durante anos foram vistos apenas como zonas de passagem possuem hoje características cada vez mais procuradas por quem quer escapar à pressão do litoral durante os meses de verão.
Tranquilidade. Natureza. Autenticidade. Água. Sombra.
São recursos simples, mas cada vez mais raros.
A verdade é que o turismo não procura apenas monumentos ou paisagens. Procura experiências. E uma das experiências mais valorizadas durante uma onda de calor é simplesmente encontrar um lugar agradável para permanecer.
Uma família que descobre uma nascente recuperada, uma zona de banho integrada na paisagem ou um parque sombreado junto a uma linha de água tende a permanecer mais tempo, a consumir localmente, a visitar outros pontos de interesse e a criar uma relação emocional com o território.
Esse valor económico raramente aparece nas estatísticas de investimento inicial, mas multiplica-se ao longo dos anos.
Além disso, estas intervenções possuem uma característica particularmente interessante: beneficiam simultaneamente residentes e visitantes.
Ao contrário de muitos equipamentos turísticos, que servem sobretudo quem vem de fora, a recuperação de espaços associados à água e à sombra melhora diretamente a qualidade de vida da população local. As crianças ganham espaços de recreio mais confortáveis. Os idosos encontram locais de encontro durante os dias quentes. As associações passam a dispor de zonas mais atractivas para actividades comunitárias.
O mesmo investimento gera retorno social, ambiental e económico. É precisamente por isso que começa a fazer sentido olhar para estes espaços de uma forma diferente.
Uma fonte não é apenas uma fonte. Um parque de merendas não é apenas um parque de merendas. Uma linha de água não é apenas um elemento paisagístico.
Podem ser peças fundamentais de uma estratégia territorial adaptada ao clima do século XXI.
Os municípios do Sul enfrentam hoje um desafio complexo. Precisam de responder às alterações climáticas, reforçar a atractividade turística, melhorar a qualidade de vida dos habitantes e valorizar os recursos existentes, tudo isto com orçamentos limitados.
Poucas soluções conseguem responder simultaneamente a todas estas necessidades.
A recuperação de espaços de água e sombra é uma delas.
Talvez por isso esteja na altura de começar a olhar para o território com outros olhos. Não apenas à procura de problemas para resolver. Mas à procura de oportunidades que já existem. Porque num país cada vez mais quente, a água e a sombra estão a tornar-se alguns dos recursos mais valiosos que um território pode oferecer.
E aqueles que souberem valorizá-los primeiro terão uma vantagem difícil de replicar.
Não apenas para o turismo.
Mas para todos os que escolhem viver, trabalhar ou visitar estas regiões durante os meses mais quentes do ano.
Nuno Mamede Santos | fundador da Terracrua Design e do Instituto de Planeamento Regenerativo
Com mais de 20 anos de experiência em três continentes, dedica-se ao planeamento territorial regenerativo, integrando hidrologia, ecologia e economia numa visão sistémica do território.