Gosto de analisar o futebol, além das quatro linhas, como espelho do país. Quem sabe, talvez umas sessões coletivas de psicanálise à escala nacional pudessem contribuir para esclarecer tão intricados meandros…
O que eu gostaria mesmo é de ter visto Portugal singrar no Mundial e não estar a escrever este artigo a questionar alguns aspetos da vida nacional a partir do futebol. Mas uma vez que foi como foi, aqui fica esta breve análise.
Podemos fazer a seguinte analogia. Gosto de analisar o futebol, para além das quatro linhas, como espelho do país. Comparando com Espanha, que nos eliminou. Os espanhóis passam menos horas no trabalho, têm na generalidade horários que os poupam das horas de maior calor. E a Espanha tem índices de produtividade bem mais competitivos do que Portugal. Nós passámos mais tempo no local de trabalho e somos menos produtivos. Eles ganham mais e nós menos, no futebol e nos salários.
Será que o problema foi o treinador, quem orienta a equipa?.. Já com o Fernando Santos, apesar de termos sido campeões da Europa (e do gozo imenso que foi derrotar a França na final em Paris), tínhamos este jogo pouco bonito e enervante de ir trocando demasiado a bola, de jogar mais para trás do que para a frente.
Foi desanimador ver a falta de progressão de Portugal em campo, este jogar lento e denunciado, sem alma, em que a posse de bola pouco adianta. Se a seleção tem este DNA, na sua matriz de jogo, estamos mal. É como se fosse a metáfora do país, temos boa gente, bons trabalhadores, excelentes jogadores, mas somos pouco eficazes no todo.
Qual o problema?.. Excesso de individualismo?.. Falta de espírito de equipa e resiliência de grupo…Será de quem nos governa ou somos assim e não há volta a dar?.. Dos jogadores ou do treinador?.. Talvez umas sessões coletivas de psicanálise à escala nacional pudessem contribuir para esclarecer tão intricados meandros…
Tudo bem. É próprio da paixão pelo futebol. Mas essa paixão que anima tantos povos, assume aqui uma fuga da realidade quotidiana própria de um país que não existe, nem sequer no futebol. Veja-se o nosso mísero campeonato nacional, quando comparado com outros da Europa, pense-se na indigência moral de alguns dirigentes de clubes que fomentam o confronto e até indiretamente a violência entre adeptos.
Um país que continua a marcar passo em muitos indicadores sociais e económicos, com baixos níveis de bem-estar e crescente desigualdade. Mas, quem sabe, talvez a paixão cresça por oposição ao sentimento de frustração.
Luís Montenegro, que montou uma autêntica ponte aérea para ver os jogos da seleção, rapidamente viu cair no relvado a colagem política a um eventual percurso triunfante.
O primeiro-ministro, defensor da mentalidade Cristiano Ronaldo, talvez tenha aprendido a lição: para ter sucesso não chega o valor individual. É no todo, no espírito de equipa e de entreajuda, que se forjam as vitórias.
Entretanto, o salvador da pátria, André Ventura, qual extremo direito oportunista no toque de bola político, depressa inundou tudo o que é rotunda anunciando «Salvar Portugal».
Paulo Penisga | Professor
