Esta podia ser uma crítica, mas ela é apenas uma possível medida de referência da solidez da base que nos sustenta e da gentileza do ser frágil que somos.
Até às doze horas do dia 28 de abril, o meu dia corria com a normalidade de sempre – uma normalidade que poderia vir cunhada de «sorte» e que dou por garantida, porque dela me sirvo, de domingo a domingo.
O primeiro clac das 11 horas e 30 da manhã foi um estalido familiar que soou enquanto estava sentada a trabalhar com o meu computador no Café.
Da última vez que a luz foi abaixo num espaço público, ouvi o patrão dar um sermão ao fornecedor de eletricidade sobre a distribuição monofásica.
Desta vez, foi diferente.
Depois de 30 minutos sem que o clac desse lugar ao tlik, algo em mim dissolveu como se uma entidade externa me estivesse a sugerir que me rendesse à situação.
Fechei o computador e saí, de mochila às costas, curiosa e aberta a absorver a narrativa da minha cidade.
À parte o insistente bip que vinha de dentro dos estabelecimentos devido ao apagão, o ruído de fundo habitual da experiência quotidiana extinguiu e deu lugar a um misticismo medieval inspirador.
Enquanto caminhava pelas ruas animadas de Lagos, pude escutar pela primeira vez uma narrativa sonora diferente: as ondas a bater no forte, os murmúrios dos comerciantes, a descontração inocente de alguns jovens estrangeiros e a interrogação coletiva que pairava no ar emergiram.
À medida que o tempo passava, e que a luz do Sol apaziguava, a ausência de eletricidade gerava inquietação.
Senti que tinha dois caminhos: podia render-me à situação confiando na minha capacidade de auto-regulação, presença e equilíbrio; ou podia reagir ao meu medo do desconhecido, alavancado pelos comentários derrotistas e com tom de teoria da conspiração.
Optei pelo primeiro caminho e o resultado foi revelador.
Decidi usar o apagão da luz exterior para reacender a luz interior baseada na conexão com o meu íntimo, com a natureza e com as pessoas à minha volta.
Tive a oportunidade de sair do papel de escrava do sistema por umas horas e de me sentir rainha do meu tempo e da minha idiossincrasia.
Em vez de telefonar; fui bater à porta ou chamar à janela.
Em vez de fazer scroll; sentei-me a conversar com presença e atenção.
Em vez de parar no sinal vermelho; confiei no cooperativismo que a todos nos liga.
Em vez de achar que o mundo ia acabar; decidi acreditar que o mundo recomeça de cada vez que confiamos que a verdadeira luz vem de dentro e que estamos todos profundamente interligados.
Se não souberes quem és, ao menos diz-me o que fizeste no apagão.
Margarida Pimenta | Jornalista e autora