Investigação de Nuno Rio usa coberturas tradicionais do Algarve para criar um modelo digital inovador apresentado em Paris.
O arquiteto, docente do Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes (ISMAT), em Portimão, e investigador Nuno Rio apresentou em Paris um modelo digital pioneiro para a preservação e gestão da arquitetura tradicional, numa investigação que antecipa vários dos objetivos definidos na nova Estratégia Nacional para a Implementação da Metodologia BIM — Building Information Modelling.
O trabalho foi apresentado na infraBIM Open 2026, que decorreu entre os dias 8 a 10 de junho de 2026, no campus da ESTP Cachan, em Paris. O evento focou-se na digitalização, normalização e práticas openBIM para a engenharia civil e infraestruturas, decorrendo em paralelo com as Jornadas Nacionais de Construção e Exploração (JNCE).
Desenvolvido no âmbito do doutoramento em Arquitetura da Universidade Lusófona, o estudo foi selecionado para o programa principal de investigação do evento, ao lado de projetos de instituições como a Universidade de Cambridge, no Reino Unido, e a Universidade de Tsukuba, no Japão.
Intitulado «Resilient Infrastructure Data: A Structured openBIM Framework for Traditional Roofing Systems», o trabalho utiliza como caso de estudo as coberturas tradicionais em telha canal, características do Algarve e de outras regiões do sul da Europa — um património cultural regional que, segundo o investigador, está em vias de extinção.
Segundo Nuno Rio, o objetivo passa por demonstrar que os modelos digitais podem funcionar como bases de dados operacionais para a gestão do território e não apenas como representações tridimensionais dos edifícios, permitindo calcular materiais e planear intervenções no edificado de forma integrada.
«Conseguimos transformar o conhecimento construtivo tradicional em dados abertos e interoperáveis (openBIM). Isto permite prever cenários de reabilitação, dimensionamento, reutilização de materiais em modelos de construção circular e avaliar o potencial de reaproveitamento de elementos após fenómenos extremos, como ventos fortes ou terramotos», explica Nuno Rio.
Um dos aspetos mais inovadores do projeto reside na ligação entre a escala do edifício, através da metodologia BIM, e a escala territorial, através dos sistemas de informação geográfica (GIS). O modelo associa identificadores territoriais aos elementos construtivos, preparando estes edifícios para futura integração em gémeos digitais municipais e acelerando a desburocratização de processos.
A investigação surge numa fase em que Portugal reforça a aposta na digitalização do setor da construção, após a aprovação da Resolução do Conselho de Ministros n.º 89/2026, que estabelece a Estratégia Nacional para a Implementação da Metodologia BIM, e do Decreto-Lei n.º 108/2026, de 29 de maio.
De acordo com o investigador, esta abordagem poderá contribuir para a desburocratização de processos, o aumento da sustentabilidade na construção e uma gestão mais eficiente do património edificado, com particular impacto à escala regional, ao introduzir em fluxos de trabalho digitalizados um património vernacular algarvio que corre risco de desaparecer.
O BIM, ou Modelação de Informação da Construção, é uma metodologia digital que integra num modelo virtual toda a informação relevante sobre um edifício, desde materiais e dimensões até custos e consumos energéticos, permitindo que arquitectos, engenheiros e gestores trabalhem de forma colaborativa ao longo do ciclo de vida da construção.


